
Andava com fones no ouvido. E isso já dizia muito, ainda que não se soubesse o que passava de sonoridades para seu ouvido. O que mais importava imponentemente era a irrelevância de todas as situações a volta. Não era limitação, era procura pelos olhares abstratos mesmo que rígidos. Querias ter uma maior liberdade, sem precisar de tristezas ou qualquer outra justificativa para isolar-se nos fones de ouvido que lhe acompanhava o caminhar.
"My tea's gone cold, I'm wondering why I got out of bed at all
the morning rain clouds up my window and I can't see at all
And even if I could it'd all be gray, but your picture on my wall
It reminds me that it's not so bad
It's not so bad"**
Tinha chão. Pedras, areia e muitos contextos por onde teria ainda que passar. E, claro, seu fone de ouvido. Ainda que de tão feliz cantasse chamando atenção dos transeuntes, pontuava sua liberdades acerca de demonstrações públicas de afeto.
Estivera pouco preocupado em continuar, mas existe de fato a interpretação real de o que se vê e o que não se possuia em imaginação. Construções acerca daquilo que se tem em memória é como um laço sensível entre o sonho e a perspectiva de um outro tempo presente. Por isso a música é essencial, para que o movimento seja compassado sem regras particulares, nem definições arquetípicas.
E, sem esperar por mais nada canta em voz alta:
"¿Quién me va a entregar sus emociones?
¿Quién me va a pedir que nunca le abandone?
¿Quién me tapará esta noche si hace frío?
¿Quién me va a curar el corazón partío?
¿Quién llenará de primaveras este enero,
y bajará la luna para que juguemos?
Dime, si tú te vas, dime cariño mío,
¿quién me va a curar el corazón partío?"***
Dançava, há poucos saltitando. Ridículo era não se entregar às faltas e, consequentemente, aos desejos. Dançava estranho e continuava a procurar a chuva pra acalantar o semi-árido constante do seu coração.
Ilustração:
Vânia Medeiros* Música de Marcelo Camelo
** Trecho da música
Thank You de Dido Armstrong
*** Trecho da música
Corazón Partío de Alejandro Sanz