
Um carro de cor mostarda atravessa a rua. Vidros abertos para circular o vento, janelas para criar composições da cidade. Enquanto em movimento, fotografias vão se formando lá fora. Menino caminha no passeio acompanhado pelo pai, bicicletas também circulam com seus motoristas, pontos de ônibus vazios naquela tarde. Parece que há uma assiduidade no limite do estar em algum lugar indo a outro lugar. Pára-brisas e retrovisores a postos. A visão adelante e traseira também, então. Alguém mexe no volante como se soubesse do destino ao longe. Agora seria o momento no texto no qual se sugereria ao autor que dissesse certas verdades sobre o destino e o tempo. Não que as perguntas estejam demodé, mas há uma demanda de leituras com algumas certezas inquietantes. Mas quem dirige esse carro não sou eu, sento no banco do carona e espero qualquer tipo de reação do tipo: "Me leve para seu desejo mais profundo de destino, assim estarei mais perto de entender a longevidade dos anseios e das dúvidas". Por enquanto me calo, sem respostas. Para desgosto dos leitores.
E então, passeando pela maré, sentiu a irrealidade de tudo aquilo que compõe a paisagem. Nada daquilo podia ser real. Seriam imagem borradas que só de longe poderia ter algum sentido [expressionismo - no jardim de Monet]. Se arriscou a molhar os pés com cuidado e olhou com agonia para o reflexo das águas como se um ente espiritual lhe encomendasse tal reflexão sobre a vida, sobre a incessante vontade de viver e mais imagens iam sendo criadas sobrepostas pelo balanço do mar. Nada parecia tão confuso, era uma arte esmiuçada pela vergonha de não se sentir inteiro ou pela incerteza do fazer parte. [surrealismo - transcendência de Dali]. Sentou na areia para contemplar a si próprio ao olhar para o ambiente. Mensurou suas necessidades e tirou a camisa para se sentir mais a vontade (ou desejado, quiçá). Entendeu que tinha orgulho de permanecer e ao ver os corpos que passa em sua frente, estava conectado.
Foto: João Meirelles










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