
"O mel desses olhos luz, mel de cor ímpar..."*, surtam em ondas de giz de cera com traços alterados pelo vento. Conexão de paisagens, novos desafios. A falta que a menina me faz. Parecem noites escuras, com verdes musgos, azuis marinhos, rios vermelhos.
A princípio fico marcado pela sensação indescritível da paisagem do salmão ao ocre. E nos sentidos apurados da textura da pele quase morena. Sinuosidades em fotografias adquirindo ares de impressionismo fantástico. Pinceladas infantis que carregam imagens deslocadas. Saudades dibujadas.
"Azul que é pura memória de algum lugar. Teu cabelo preto, explícito objeto, castanhos lábios, ou pra ser exato, lábios cor de açaí..."* e então a imaginação é tela com sombras de lápis de cor. E você, tinas guaches diversas, vai se diluindo em águas mornas, sem se dissolver.
Passeia por outros sabores, imagina hipermelodias, sons malemolentes. E, quando acostumada a nova rotina sem grafites nas paredes, sem pedras em reinos, cria tempo de arco-íris indecifráveis.
"Eu ando pelo mundo prestando atenção Em cores que eu não sei o nome Cores de Almodóvar Cores de Frida Kahlo, cores Passeio pelo escuro Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve E como uma segunda pele, um calo, uma casca, Uma cápsula protetora"**
Daí partem todas as reflexões sobre o amor. Na coerência indóssil dos hormônios, em desejos de entrega, no colo. Portanto, na ausência também. Imitando laranja de folhas secas caídas das árvores, amarelo opaco da manga no chão, o quase-vermelho de lama no asfalto.
"E aqui trem das cores, sábios projetos: tocar na Central..."" De fato contemplar sonhos perecíveis e imagéticos canaliza formas cada vez mais intensas na possibilidade de preenchimentos. Por que o "eu" é mais do que penso que ainda não sou, por que indecisão não é mais limite, por que tudo era há alguns segundos.
E, antes que a promessa de estar se alie às incoerências dos passos dos segundos, da invasão do limite na delicadeza, que a agonia transborde a incoerência do ser/estar, o lilás ainda esteja na sandália, o cinza para estas letras di-gi e tais "e o céu de um azul celeste celestial"*
para Vânia Medeiros
* Trechos da música Trem das Cores de Caetano Veloso
** Trecho da música Esquadros de Adriana Calcanhotto




















