8 de abril de 2008

Conto dos paralelepípedos


Pedra de número 372. Estava a contar as pedrinhas de paralelepídedos no chão azeitado. 373. E não queria mais se orgulhar de quantos passos dara até aquele momento. Não por que não houvesse a necessidade de se libertar das agonias esfumaçantes da sua imaginação, mas limitaria seu campo de visão para as ilusões que viriam pelo meio do caminho. E sentou. 374. Tinha tão mais pela frente que descansara um pouco para pensar.


E pensar é bem mais devastador do que contar as pedras do asfalto.


375. E o sonho se tornara liberdade. Ousaria apenas avaliar sua vontade de permanecer arbitrário, imaculado na sua aspereza. Vai adormecer em sua vida mais e mais pássaros, como metáfora de criações com possibilidade de voar de seu colo. E então, 376. Havia ainda mais pedras no seu caminho, como diria o poeta.


Ousou a escrever uma carta no ponto específico de seu desejo. Ou seja, chegaria a contar 377. Balbuciou vontades inconfessas e mais letras resultavam de sua capacidade de coordenação motora. Habilidade com os dedos tinha de sobra. 378. Passos devagar e a carta tinha ficado cada vez mais extensa, sem ruído, sem vicissitudes, sem pesar. Carinho não estava a vista, mas vontade não faltava. E o amor? 379.


Mesmo que assim não o quisesse, terminara a carta com um ponto final retilínio e não desforme. Criatividade tinha para dar reticências, mas quem leria a carta? 380. Suspirou profundo. 381. Comeu algo. 382. Sorriu da fumaça que soltara. 383. Pulou ao invés de andar.


Que saudade de quem contaria displicentemente as pedras do caminho, ele pensou. Chegou no espaço de enviar emoções ao outro lado do lugar. Casa amarela e azul de número 384.
Ilustração: Vânia Medeiros

1 de março de 2008

chuvas e desejos em duo.


TAMPOUCO seria o infortúnio daquele homem em descrever os passos dela. Cuidadosamente, apenas a observou sutil e de forma displicente. Arguira a algum de onde a jeitosa silhueta que vira chegaste de mansinho, pois não acreditara que era real. Ela virou alguma esquina alí a frente e ele dispersou o pensamento. Atravessou a rua e se deparou com a imagem da cidade submetida ao sol escaldante daquele horário, que não importa agora. Talvez por que o sol amarelo produz luz branca, foi que ele teve agonia no peito, sem saber muito o por que de não se fazer entender-se por si.

Taí a solução de seus dilemas básicos, falta descrever as cores que consiga ver adiante (tanto no espaço, tanto pelo tempo que ainda chegará). Com malícia ajeitou os poucos cabelos e franziu a testa sem mostrar preocupação com o que teria que fazer. Tinha as suas responsabilidades, sabia, e as encarava com bom humor para passar as tardes que lhe faltavam. Questionara no vazio: pra que a vicissitude do tempo urgente se a primazia do futuro é o mistério? Mesmo assim tinham ações a cumprir que não eram de seu destino, mas de seus compromissos.

Seu forte era andar. Como conseguia decifrar o chão de léguas e o mar de corredezas acima, soprava o ar com vontade de vento frio em seus poros. Molhado, sim, as células sudoríparas não lhe falham. Pisou firme mais uma vez ajudando o outro pé a estar na frente, de tal forma mecânica que se pensasse sobre não andaria mais.

Pediu um sandwiche para comer, falava inglês com sotaque rígido de música pop, mascava chiclete de menta quando não escovava os dentes após o almoço. Mas nada é ilusório por que tem o diálogo na sua mais límpida forma de se ver interpretado. Para ele, o amor é feito de sensações de desejos recorrentes, tal qual o sonhar com transas e o ouvir atentamente o que o outro quer dizer, às vezes indagando-o.

Faltou ainda falar-te do sexo dele. Enaltecido estava por encontrar uma vontade de continuar a andar. Colocava a orelha e a cintura econstada sempre em algo frio pra sentir prazer. Era um homem, oras. Mulheres fabulosas jogariam pedras a ricochetear em lagos do centro da cidade.

Um homem que o estava seguindo notou a discrepância a que ele tratava o cotidiano. Não ousou o seguir mais e sentou na areia ainda a olhá-lo. Então ele enconstou e perguntou se o amigo tinha um cigarro. em troca da resposta negativa um beijo para sentir sua lingua e um silêncio junto para ouvir o mar. De lá sai a mulher a quem observava mais cedo. Descreveram juntos os passos dela e mais uma vez se beijaram.

Ele sente os mesmos desejos de antes. Agora, eles sentem desejos em conjunto.

"I kiss you on the brain in the shadow of a train
I kiss you all starry eyed, my body's swinging from side to side
I don't see what anyone can see,
in anyone else but you"*


Foto: Tiago Lima

* Trecho da música anyone else but you de The Moldy Peaches

16 de fevereiro de 2008

Carnavália III


E tudo estava tão completamente sereno. A luz serena, os passos de serenidade. Quando me fez luz de sentidos e uma outra ambiência me foi posta. Era aquele lugar de mim, às quais minha memória se confortava. E mais. Era carnaval.

De certo, me propus a vivenciar o gozo simbólico e nada mais eu era que vontade de passos. Conectado me transformei fácil em beleza, por que as cores da ambiência, os andares juntos, as escolhas simbólicas faziam a decoração inevitável dos dias de calor.

E então tinha mais, música daquele lugar, danças daquele lugar e grandes ilustrações em consonância com a estética da diveridade - eu e os arrecifes todos.
De convergência em cada um tinha um coração. Voava por mangues daquele lugar, sentado num paço, quase rente à cultura de livraria do rio versado em João Cabral. O camarão era sopa e as pessoas em volta mais que máscaras, fantasias!

A sensação de preenchimento me desenhava sorrisos e os encontros eram de energias. Ver e interagir de forma simples, a amizade de dias atrás.
Aquele lugar me faz sentir aqui no chão. Como se tudo fizesse muito sentido. Dos choros na Caxangá, do sozinho com meus pensamentos em andanças no espaço antigo, das malas no subterrâneo, de um Brennand simples, de picanha com macaxeira.

E mais de uma noite onde os tambores são silenciosos e me transporto pelos lugares de roda e os espetáculos quase sonhos. Me tranquilizava o saber e os meninos que me circundavam me iluminavam de outros desejos.


Depois que os pés se passam por pontes, por auroras de ruas, tudo é imprevisível, inclusive a emoção.


Os momentos eram mais do que integrais, eram marcados de sorte. Luzes ao lado acompanhando e uma intimidade com aquelas ruas. Um cheiro de produção cultural, bonitos de juventude nas ruas. Quanta ladeiras e outros carnavais!


* Foto: Carol Garcia

(Com carinho à Pat, Zé Diego e Franklin por dividir os momentos, o espaço, o estar junto. A Carol e Denis pela cumplicidade e pela alegria de viver os momentos. À Fernandinho, Wilkiner, Adelle, Rafaela, Lenoca por encontros. à dona Lenira pela acolhida e aos pequenos companheiros de conversas na porta de casa Michael - gordo - e João Carlos - Scott. À multidão e aos cantores, dançarinos, artistas plásticos vibrantes daquele carnaval. Ao seu Paulo do Banco do Brasil por tudo. Ao Carnaval 2008 em Recife e que venham próximos)

13 de fevereiro de 2008

Das árvores estradas...


De certa forma, a homérica ilusão do quereres fica inocentado. O desejo é tão in que despreza o alheio de forma exasperada. Daí a sensação de que a vontade que dá é mais ingênua nuance da dualidade em mim. O mais impactante está no fato de deixar-se entender que é de desejo que se constrói caminhos, metaforizando diretamente os passos em gozo.

O problema não está no fato de ser o querer diretamente proporcional a diletante construção da estrada, mas do caminho em si não ser mais que uma árvore. Assim, sendo a árvore o caminho, trata de lembrar que o desejo ramificado requer escolha de gozo simbólico. Isso partindo do tal pressuposto da vontade como integrante composto do eu dúbio.

Passo dado, então, deve se inferir rupturas tão práticas como prazerosas.

Mais um elemento. Tenho a sensação sutil de que não tenho conseguido andar e visualizar caminho de forma menos fabulosa (exercício de enxergar as possibilidades na sensatez racional possível), se torna repetitivo - para não falar em dor. Daí, a inexistência do gozo, a estaticidade dos dias perenes, o contraste sombreado da eternidade. Podada a árvore que é o caminho, parece então não restar tantas ramificações, sequer pensar em frutos.

Resta a dialética do desejo e a pergunta (ou nó!): existirá construção de caminho por desejos que não seja ilusão? Reconheceria a falta de liberdade na escolha dos passos? Choraria mais uma vez por, reconhecendo os desejos, saber da incapacidade insistente de não os tornar gozo, ou seja passos? Há esperança de caminho?

Fico de fato bastante óbvio que as respostas são tanto quanto visíveis; só falta saber se há possibilidade de responder às questões sobrevivendo a elas. A reflexão do tal medo é em si uma escolha - ou a necessidade dela; os instantes fulgazes se relacionam com a ausência do gozo, parado em frente a tentativa do caminho que, agora, é o próprio desejo. Nesta árvore sem folha, urge a imperatividade da falta do sentimento de impotência na vicissitude do querer. A ilusão já deixa de ser sutil quando da racionalidade do gozo e não o tê-lo se transforma na inoperência do caminho e todas as questões voltam a tona.

Viver agora tem como principal necessidade o quebrar os espelhos.

O instante do não se enxergar - ou ver a beleza no outro, possibilitaria conviver com o caminho a ser construido. Sem gozo, o desejo vira caminho / árvore seca e as ramificações solenes não são tais possibilidades de escolhas. Resta o vazio no desejo do toque, no cuidado e no carinho, do carimbo de eu gosto de você.

Sem afagos, escreve como se as palavras conseguissem construir árvores e sozinho percebe novamente no final das linhas delicadamente insensatas - e não lidas - que a homérica sensação do "quereres" fica inocentado, ingênuo que estou no gozo, sozinho que estou a caminhar.

Foto: Vânia Medeiros

6 de janeiro de 2008

A duas mãos*


Ele caminhava por pétalas amarelas e vermelhas que o chão continha. Tinha vento a tocar a música singela da passagem. Mas foi na curva que não pôde deixar de ver um casebre ao longe, enfeitado por pequenas pedrinhas em sua parede, a qual tinha sido construída pensando naqueles tempos de fluidos imaginários e de brincadeiras infantis com rodas, tricículos e pique-esconde.

O casebre não era um lugar. Era a vontade de aconchego, de paciência, de vontade de viver. Então, abriu vagarosamente a porta
da esperança e do desejo, da determinaçãao e viu, por entre as gretas, letras subindo pela parede da porta azul com bolinhas laranjas. Aquilo mais possibilitaria alcançar seus mais profundos desejos. Foi então que ao derramar das letras percebia que a possibilidade das palavras criara uma diversidade de sentidos que ele mesmo ainda não tinha descoberto.

Preferiu deitar no chão de madeira polida e contemplar os símbolos constantes derramados pela parede.
As palavras que ele conseguia capturar iam lhe fazendo se entender aos poucos, mas ele queria mais. Ele queria viver de maneira mágica, queria transcender o imaginário e, concretamente, entender e vivenciara melodia do vento a passar pelas asas da borboletinha vermelha e preta que voa pelos jardins do fundo, tão singela e tão profunda. Além de não ser dual e se entregar ao sim solenemente, aprofundando a liberdade de si e masageando a ilusão de estar. Tão diferente era o ser que se observava aumentado e, incompleto que era também sentia medo. Dentro do casebre, o principal dos medos estava ligado a alguns reflexos do observado. Em constante movimento dentro de si, saia aquele espasmo.

O medo vinha em formas pulsantes, latejantes e esvaia-se em faltas, vazios fulgazes que saia dele, amorosidades inconfessadas e soberba de ser incompleto. O reflexo, ao menos, o entendia sagrado. E, então, visionário de uma beleza que a construção dae sua história tinha concebido.

Foi então que a seus pés caira a palavra tempo.
Por sua mente passou um mar de coisas, mais ou menos dois minutos depois da queda. Deu-se um estalo e ele compreendeu que o verde das folhas com as pequeninas flores laranjas tinham um sentido diferente em cada primavera. E assim a palavra tempo tomava a dimensão de que tudo, menos a beleza de se ver inteiro é temporal. A primavera voltaria para as flores, assim como o inverno para o vento, como as frutas amarelas para o outono e a saudade para o verão.

Para ele o tempo era mais que momentos a interagir com o mundo, era a necessidade de
analisar calmamente cada situação e poder compreender que nada é estático; que a vida é construída por ciclos e que a cada ciclo a renovação se faz presente. E na varanda do casebre ele viu o alaranjado do pôr-do-sol e sentiu que era o tempo o mestre dos desejos e que então estaria a se completar no ambiente.

O casebre, símbolo primeiro da sua vontade de ser, tinha mais do que a possibilidade de resgatá-lo. Era um casebre construído dentro dele. O que chovia nas paredes eram, daí, os sentimentos que já existiam palavras para dizer-lhe.


Os sentimentos em que era difícil delimitar palavras pelo desconhecimento da maneira de fazê-lo, a cada momento eram intensificados e a busca pela sua exploração gramatical era cotidianamente construída. Existiam momentos em que a incessante necessidade de viver pulsavam tão forte em seu peito, que ele gritava forte aquela palavra que mais explicitava o que era sentido.
Ele é o casebre.

O casebre é a palavra e a palavra é o tempo.

Foto: Vânia Medeiros

* Texto escrito por Niltim e Taysa, em um jogo de criações simbólicas conjuntamente.

25 de dezembro de 2007

sobre o destino. continuará...


Amansei no colo um destino que estava acanhado e fugidio. De leve, passeava a minha mão por sua nuca, arrepiando sua pele na perspectiva de fazê-lo entender que deverias ter como meta compania. Afinal ainda não entendi para que serve destino se ele é sozinho e não consegue se pensar assim. Fui falando a ele devagar que era preciso que ele seguisse um caminho bastante seguro, ilícito de desilusões, arremendado de colcha de retalho colorido, renda macia e constante.

Mas lá destino consegue escutar seu dono? Por que sim, destino tem que saber que ele é feito para alguém... independência, livre arbítrio só para quem tem qeu passar pela angústia de fazer opções, e destino não tem isso... ele já vem escrito, definido por papel passado, nada de botar as asinhas de fora... destino não é doido de sair de mim assim, sem avisar.

Depois de alimentado, tinha que falar com ele pra seguir um fluxo normal que a vida ia lhe propor (ou que já estava previsto para ser...), mas tão acanhado parecia o destino que dei uma chance dele parar e promover uma reflexão sobre ele mesmo e como ele conseguia me ver. Destino danado, me disse tanta coisa importante, sem ao menos projetar qualquer imagem, sem proferir nenhuma palavra.

Entendi de uma vez por todas que o destino sou eu, mas, arredio que estou, queria mesmo era saber porque você não quer colar o seu destino em mim.

Ilustração: Vânia Medeiros

18 de dezembro de 2007

Uma outra de Rodoviária*


Estava parado à porta do banheiro quando ouviu uma conversa de dois homens, magros, um com a pele mais escura que o outro. Os dois não pareciam preocupados, mas atentos. A sensação era de que alguma estratégia estava sendo bolada. Então, decidiu permanecer alí parado. Ainda tentara chegar um pouco mais perto para entender tudo com mais clareza. Dava para enxergar tudo muito bem. O homem mais próximo parecia ter seus 26 anos de idade e era o que mais estava escutando.

Foi aí que os ânimos se exaltaram. Parecia que as outras pessoas tinham percebido o tal clímax, pois o barulho aumentava de forma constante. Tudo era quase uníssono. "Seria uma coreografia sonora?" pensou! Apesar dessa pequena distração, não se limitou àquela situação e queria entender qual a principal razão para toda aquela discussão. Porém os zunidos estavam cada vez mais se confundindo e se tornando um só.

Se dissolvesse todas as partes, ouviria um estrondoso barulho da rádio do bar, o choro do bebê que queria o doce ao qual a mãe ão podia comprar, um casal que discutia sobre qual o destino da noite, trânsito enfurecido do lado de fora e o próprio vazio dele. Sim, tudo estava misturado e não o deixava se concentrar no mais importante: o que conversavam alí no banheiro aqueles dois homens bonitos e misteriosos.

Quando conseguiu se aproximar ainda mais, pôde entender que se tratava de uma importante decisão que poderia mudar seus caminhos.

A situação era cada vez mais tensa. O tempo estaria a se esvair? De fato deveriam entrar em um consenso, comum acordo, o mais rápido possível. Precisava de algum argumento para entender que decisão era que os homens precisavam tomar, apenas por curiosidade (pensara se a curiosidade por si só era mesmo motivo, mas queria era satisfazer um desejo e já estava bastante envolvido para desistir assim).

Foi quando um dos homens aumentou o tom de voz e pediu o veredicto: "o que vamos fazer?". Nessa hora o telefone toca um som engraçao. Sua mãe o ligou justamente quando estava prestes a desvendar todo o enigma. Atendeu, ouviu algumas recomendações e tarefas, porém não conseguia manter a atenção na conversa. Falou à mãe alguma coisa sem sentido, ouviu com cuidado, pelo menos, a finalização da conversa com a madre e, quando desligou o telefone: silêncio!

O banheiro já estava vazio. Não saberia mais o mistério e nem o que devia fazer por sua mãe. Pelo menos, agora tinha uma coreografia de silêncios.

Ilustração: Vânia Medeiros

* Segue a linha de contos de rodoviária que começa com Vânia Medeiros - "uma de rodoviária"

8 de dezembro de 2007

Pra declarar minha saudade!



Parte VII - "Além da vida ainda de manhã de um outro dia"*

Tinha o desafio de ter a sensação de estar só. Já que sabia que ninguém mais ia chegar, fez zapping, leu textos interessantes na rede, tirou a camiseta, ouviu toda a lista de reprodução do computador e até cochilou um pouco. O que fazer da solidão do não. Não é um sim de tanto sim, como diria Caetano. É um jeito hipotético de não estar...

Mesmo que os vicios do entendimento ainda retomem o ar da desesperança limiar cotidiana, nada mais além do tato o fará completo. Conservar desejos semânticos, apuar a liberdade de sentir. O que falta para o prosseguir plástico e nada hermético? Há serenidade no querer?

O colapso de tais idéias premitem conclusões das mais improváveis, mas quem trataria com soberba a imagética das escolhas. O que te faz crescer, então é o caminho a que se dedica e, então, o choro redime! Anda pelo vazio simbólico, ninguém para abraçar no domingo ao final da tarde.

Antes disso, o telefone toca. Veste uma camisa qualquer, uma calça qualquer, anda pela rua quelquer, vai pra qualquer lugar se divertir. A compania não é qualquer. Não se desafia mais a ter convidados. Gosta sensivelmente.

Bonito. Ele tava bonito ontem a noite!

Fotos: João Meirelles

* Trecho da Música Se tudo pode acontecer de Arnaldo Antunes

1 de dezembro de 2007

E.la - (B).ace-lar















Um estar interessante. Como uma flor que, na sua delicadeza imersa no deslumbre do jardim, sente desejos maiores de florestas, ao mesmo tempo úmida, verde e exalando o aroma de mais pura sensibilidade. É que quando ela aparece tem cheiro de aventura e romance no ar. Como a liberdade que ruboriza ao se alimentar de simplicidade e sinceros momentos de estar junto e só.


Sim. Ela é uma palavra com três letrinhas pouco banais. Ela é sim por que de sua subjetividade fica sempre a vontade de positivos, o sinal verde dos sonhos. Sim do sim e tudo além disso. Afinal, as portas se deixam sem fechaduras e as janelas sem trancas por que ela passa.

Some então os maniqueísmos baratos pelo caminho. Nada de dualidades. Para que se existem as possibilidades inteiras e diversas? Ela é o pricipal desafio do colorido: a vontade de que juntos não se tornem um só, mas vários no mesmo sentido.

Então, ela é carinho e outros afagos ademais;
ela é ilustração de boas medidas e sortes;
ela encanta e entoa cantos diversos para estar feliz; ela faz os outros felizes!
Assim, ela é beleza e ponto de continuação...

Em homenagem a Quel

Ilustração: Vânia Medeiros

27 de novembro de 2007

Pra declarar minha saudade!


Parte VI - Pelo desejo

Ai! A imaginação furtiva desses caminhos. Sussura pra si como se o entendimento das sensações fossem tal gotas de água libertas em drops no oceano. Nem que quisesse mais, os limites o acompanharia. E não vai desistir... de continuar. Passa o tempo sem demora a reparar os traços que ele vai deixando no caminho, passa a noite com carinho, passa o vento com leveza, passa a destreza do querer bem, passa o frio de coberta, passa a chuva com tempo bom!

Djavan tocava Se... na vitrola pra ele.

Malemolente, vestiu-se com a segurança que o ambiente lhe preparara anteriormente, afinal era o dono da sala de estar. Já tinha descascado o abacaxi e preparado as folhas de hortelã quando uma mensagem o chega por qualquer sinal. Com uma frase que dizia: "a indecisão, as palavras subjetivas, seriam também forma de dizer que sim, ou não?"

Conseguia tocar em seu corpo viril. Lia os afluentes tranquilos de Rosa, se preparava pra mudar de vida e cantarolou baixo imaginando sussuro no ouvido do outro que chegaria (?):

"Se eu me entregar total
Meu medo é!
Você pensar que eu
Sou superficial...
(...)
Se você quiser
Ser meu namoradinho
E me der o seu carinho
Sem ter fim
Prá você eu digo:
Sim!..."*

"
Aí ele disse: vai querer?"
" Aí ele disse: por amor, ou por besteira?"**

Foto: Franklin Marques

*Trechos da música Pra você eu digo sim versão de Rita Lee / música de Jonh Lennon e Paul McCartney

**Trechos da música Amor de Muito de Chico Science.

21 de novembro de 2007

Pra declarar minha saudade!


Parte V - por que há continuidade...

Arriscou sentar no chão gelado pra sentir na pele a existência de um frio exterior. Não ajudaria muito degustar o brigadeiro, agora não mais quente. Pensava: se bastaria com seus pensamentos e molecagens? Então, guardou na adega (que agora criara) o vinho que tinha comprado para quando o outro chegasse.

Foi passar o tempo com refrigerante de limão e no apoderamento das palavras para criar outros simbolos.

A liberdade era acariciada pelo aproveitamento dos olhares alheios fora de si. A tudo se aconselhava toques de timbau e efeitos percussivos aliados a cordas afinadas. Roubou mensagens de amor de outrem [ficava pra si os desejos de amor que o tal personagem da história que via no cubo mágico dedicava ao outro personagem que não eram os atores em si, mas eles se fingindo de outros - como esse relatado?]

mastigou tomate (fruta preferida) e continuou...

Ilustração: Vânia Medeiros

20 de novembro de 2007

Conversas*


E lá vai o barco do nosso destino fluindo. enquanto de braços abertos, o vento (aquele do movimento) nos ergue e nos guia no tempo certo da nossa velocidade. Então sentimos o andar com todo o corpo! O desejo e o medo são amigos intímos. Penso que um se alimenta do outro. E vivem a nos alimentar...

No entanto, seria razoável colocar os desejos em dúvida e, por outro lado, desejar o duvidoso? Aliás, é possível desejar algo que não seja duvidoso, desconhecido e, portanto, desejável? Ou o desejo, sem dúvida, também pode co-existir com o medo do novo? Fico pensando... é mais fácil seguir em frente com as vontades e dúvidas. essa combinação nos forma e transforma a cada instante. é só permitimos. é só abrirmos os braços

Logo, o que seríamos sem as dúvidas? o que trazem os ventos? se a vontade nos move, a inquietude tem nos feito aprender. nos leva esse vento nos passos da dúvida. o além é a vontade de não ter certezas! e a vontade é o que move. movimento novamente. Logo sentimos o vento a nos levar mais e mais. e além.

Daí, tudo é mais colorido. a vontade de luz, a ilusão do cinza, a busca. virtuar-se pelo caminho dos desejos! sentir falta dela [a luz], vontade! é. e o melhor não é o encontro com ela [a luz]. é a sua busca. nessa busca podemos ser ela. ah! se o cinza for capaz de nos mostrar as cores que o forma... talvez a gente fosse capaz de descontrui-lo sempre sem pestanejar. De certo, não precisamos sempre de todas as cores, no fundo queremos é encontrar a luz... e descortiná-lo cabe a mim. eu vou esperar o dia que chega com o sorriso que eu quero que ele me abra. e assim fica fácil de achar o ritmo do movimento e o tom da cor certa. o segredo é aproveitar bem o cinza pra valorizar ainda mais a vida das cores que pintamos.

Em tempos de falta de cores, a gente acaba esquecendo que o cinza também é uma cor. Na vontade de que o tempo passe, se deslumbrar pela vontade de arco-íris é natural. E, como se fosse de repente, goticulas de agua penetram raios de sol. Outro dia vem chegando... às vezes a gente não consegue colorir. não consegue movimento. Uma pausa para reencontrar o encantamento do simples. O simples encantamento. Nem sempre as cores vem.

Pois é aí que o dia toma o sentido que ela merece. O sentido são as cores em movimento, que nos remete ao frio, que nos ensina a brincar. a flor e a lua. tudo é luz, e então cores do dia que são!
e então brincamos de verdade. A verdade pode ser o perfume da flor desejada ou a luz da Lua admirada. O cotidiano fica iluminado e perfumado, mesmo que a nossa volta tudo esteja cinza. A verdade [brincada] dá cor ao dia.

E então... corre pelos ventos uma sensação de aroma de flor de verdade, daquelas que se abrem para a inventividade mais próxima, que desvia as vicisssitudes do corriqueiro. Como se a verdade fosse a brincadeira mais gostosa.

Movimentar a verdade é a principal demanda. Nós demandamos até de verdade-inventada, desde que seja bem lúdica [linda].

O desejo, então, é a demanda do dia-a-dia! Movimenta verdade, alimenta saudades!


Ilustração: Bianca Pyl

*Este texto é resultado da troca de recados com a doce e delicada flor Bianca Pyl e participação de um carioca super querido Gustavo Barreto. Pra mim se formou como um texto só nossos diálogos. Lindos :D

18 de novembro de 2007

Pra declarar minha saudade!


Parte IV - era criatividade?

Então respirou o ar da cidade, procurando acalanto para seu sentimento de vontade. Pisava macio, tocava na rua como se fosse parte dele mesmo. Crescia então a esperança. Estaria com aquela sensação de que agora podia compartilhar os mais puros sentimentos de enlace, carinho se satisfação com as coisas simples? Dividir as cores e os ventos nos cabelos?

Comentou o amor com seu José da padaria. Trocou carícias com a menina que ainda brincava na praça. Alimentou os olhos com a velocidade dos carros a passar, do verde e amarelo escuro das árvores, das amêndoas no chão.

Foi pra casa qual ligeiro. Estaria ancioso.

E então, lembrou que era apenas vontade, desejo. Que como sempre, o outro não viria, por que o outro mesmo não sabia de seus desejos e mais: o outro tem outros desejos imaginários, outras questões mais importantes, outros amores.

Comprou o vinho à toa. Foi procurar suco na geladeira. Chorou pro amigo mais próximo. Falou com o outro no telefone. Ficou sozinho.

Ilustração: Vânia Medeiros

Pra declarar minha saudade!


Parte III - arrumando a casa

A verdade é que os limites do desejo não eram impassiveis de medos sutis ou de sensação de prazer no mistério. Qualquer coisa que pudesse ser sinal, vento passando diferente, música tocando na vitrola, indicação do horóscopo por email, tudo o chamava atenção pela expectativa. Parecia que ainda faltava-lhe arrumação, mas arrumação dos sentimentos, da forma de agir e ser. Ia tentando organizar concomitantemente como o fazia com os objetos da casa. Pensava sempre na criação como parte de um ritual simbólico do encontro. "falta pouco", pensava. E se entusiasmava com o cheiro bom que exalava.

alimentava os passaros da imaginação, bichos de estimação da fantasia. Bailando pela casa por que assim o sabia fazer para neutralizar os ânimos. Cantar no microfone imaginário, rabiscar pedaços ligeiros de papel, ensaiar a recepção.

Depois de recitar sonetos de amor de Neruda para si mesmo, acolheu em seu colo as caricias sonhadas. Pegou carteira, chaves, mp3 e celular e foi andar...

Foto: Ingrid Klinkby

16 de novembro de 2007

Pra declarar minha saudade!


Parte II - Em expectativa

Os momentos são propostos de criações íngrimes de ambiências. Cria dispositivo de ampliação do que se projeta para um acontecimento adiante. Mistura as sensações da latente liberdade privada do agora para o prazer da indefinição do depois. Então, tudo continua sendo (uma constante) criação subjetiva.

Plasticamente, o tempo é o espaço.

Aumentou um pouco mais o volume para degustar aquela canção em especial. Só pensou na situação (espaço/tempo) quando percebeu que para um clima mais aconchegante era necessário trocar o refrigerante de limão por uma bebida mais encorpada (o caro leitor pensaria em vinho, o personagem não fugiria à regra).

Foto: Rodrigo Fuzar

15 de novembro de 2007

Pra declarar minha saudade!*


Parte I - À espera...

Aquele grito foi porque acabara de machucar o dedo cozinhando brigadeiro na tarde envolvente de domingo. A casa estava vazia, mas o refrigerante no congelador e os filmes na mesa de centro da sala denunciavam a espera da visita. Tinha música nova na lista de reprodução do computador. Tão envolvente, queria impressionar o convidado quanto à sua atualidade sonora. Devia confessar que as habilidades culinarísticas eram apenas hobby em ascensão. Acho que agora faltava pouco tempo, então, aumenta o volume da caixa de som e, radiante, se faz imergir em águas frias e refrescantes.

Enquanto banhava-se, entoava canto exasperado, mas inofensivo (porém, isso não vem ao caso). Emnava um encantamento imaginário, digno de produção de imagens. Gritos de Picasso? Sonhos de Van Gogh? Borrões de Monet? Era um traço forte, mácula de um abstrato preponderante milindrando desejos exaustos, como aquele "cheiro de manga madura"**. Preparava seu corpo e suas sensações também. Prosaico e audacioso.

Toalha de banho - deitado na cama
sonoridades e sonho!

Ilustração: Igor Souza

* "Pra declara minha saudade" é uma série de textículos que pretende ser uma historieta simples sobre amores, carinhos e desejos. Esse também é o nome de uma música interpretada por Maria Rita no seu álbum Samba Meu.
** Metáfora inventada por Helena Parente Cunha em seu livro "Mulher no espelho".

16 de outubro de 2007

Manifesto: Fale quem quiser falar II

Por que a Fale! é um movimento!

E digo mais:

Há uma linha certeira entre a motivação da loucura e a distinção entre o agir e o sentir. Dentro disso, muitas coisas como brilho nos olhos, choro de cego, samba de morro alto, leitura de poesia em roda...

O que mais se pode inventar. Quem sejemos bregas sim! Que alimentemos a orgia da criação e a sensualidade de versos mal acabados. Ousamos ser criadores de uma outraambiência nas diferenças dos nossos passos, nas vontades que se completam. NÃO! Vão experimentar dançar arrocha, aqueles que não mais acreditam que se pode (re)inventar formas e cores.

No fundo, tenho a certeza de que nem tudo foi feito ainda e que o recriar sobre é sempre uma tentativa divertida de criar outros.

1922, 1970... Bandeira e Caetano. Comemos todos eles, até o talo. Tarsila e Bethânia, comemos elas até engasgar. E sambamos de saia na Pierre Verger, fazemos farra na casa dos amigos. Até zoar da tal feijoada vegetariana (eu quero é minha orelha de porco e folha de louro no feijão preto).

Simbioses com doses de Hermanos, Thom York (sim), mais Björk, novas imagens, novos tons antigos. Experimetamos o pagode mais suculento, uma orquetra imperial. E dizemos sim, mesmo na contra-mão do não!

No fundo, não queremos é fazer nada, só ser. E no final da noite de Salvador (ou em qualquer lugar do mundo) Falemos quem quiser falar!

Foto - Niltim Lopes

12 de outubro de 2007

carta de amor em forma de descrição


Lá fora o mundo tem dados tantas voltas. E eu, aqui de fora, nem tenho percebido todos os movimentos desse globo. Também nem posso né? Já foi-se o tempo em que viver até o limite pressupunha agarram o planeta e tudo a sua volta com as pontinhas do dedo mindinho. De vez em quando dou umas cochiladas e me pego fazendo de tudo para deter o tempo, então, sento no banco da praça, na esquina dos meus desejos, e gargalho. Isso siginifica claramente que ainda sou jovem, tão jovem. Fiquei tentado a me perceber como quadrados pintados de tinta guache, mas tenho descoberto minha querida, que sou de água, então nem posso me dar o luxo de mexer com tita. Fico borrado, sem forma.

Tenho aprendido a respeitar mais meus pés. Tenho uma relação de respeito maior com eles. Sabonete e cremes especiais estão em uso agora aqui, sabia? Mas, aprendi mesmo foi a minha necessidade umbilical deles que me garantem base. Piso no chão com maior vontade, presto atenção a minha volta, até pra eles não se machucarem. Tenho preferido terrenos menos íngrimes. Sei que eles gostam da água (afinal fazem parte de mim, né?), mas também gostam de se movimentar e isso é muito bom.

Esses dias, ando pensando no sentido que dou a liberdade. Sei que nesse lugar, nesse nível de complexidade no país, liberdade é palavra difícil. Mas memso assim tenho me proposto a pensar nela. Principalmente depois de escrever as irrisórias linhas da apresentação de uma monografia que tem sido escrita com o esforço do tempo, da coragem, do encantamento (sincero, um pouco desgastado). Mesmo assim achei bonito o pensar que a liberdade também está na amplitude de um pensamento que me liberte do espaço/tempo, ou seja, filosofar é me sentir liberto! E isso tem sido muito mais especial do que imaginava. Ah! escrevi na minha monografia da possibilidade de se contar história a mãos diferentes. E que a beleza dela (a história) é tê-la como uma colcha de retalhos, com uma grande diversidade de olhares, cores, formas que vai se completando em um grande tecido: nós!

Por aqui tenho visto muitos sons. Olhar mesmo. Chega numa fase que me embrenho pelas motivações de acordes no violão que temo enxergar até as notas se encorparem. O piano (em Madeleine Peyroux) nem se fala. Mas confesso que ando meio nostálgico. Cirandas, Côco de embolada (sem as bases eletrônicas de Krhystal), samba chula tem me raptado. E aí, vai-se cumadre florzinha. Vem-se Nação Zumbi. Falando em samba, ela ainda sou eu. Apesar de ignorante, não consigo sair dessa ambiência por que me sinto fixado, fincado como árvore, na gostosura de me sentir uma roda de samba. Torço por encontrar alguém que me chame para ir na sexta (numa sexta qualquer) tomar uma cerveja gelada e ouvir o bom pandeiro naquele lugar sagrado, você sabe qual é.

Penso que sou feito mesmo de água. Estar embaixo desse ambiente não só me acalma como gera demandas no desejo muito especiais. É fome, é um olhar diferente pro corpo (sem vergonha), uma dor substancial, pernas e branços alongados, atividades de respiração. Óculos diferentes, falta de cabelo. Um forte, robusto, loiro e carinhoso professor me indica, me observa. Então, o mergulho... Não observo e quano percebo meu corpo se transforma em água, é tudo líquido em mim. Meus pelos se movimentam como se fizesse parte daquela porção azul. Termina o tempo, sento na beira e agradeço por ter estado alí.


Ainda falaria do gostar de imagens (produzir), do manter contato - encontrar outras pessoas no mundo. Do meu desejo de sair daqui. Da minha astúcia em me propor outros projetos. Da ambição por novos olhares. Mas acho qeu já gastei um tanto demais de palavras e você deve estar cansada de ler-me. Então pararei por aqui.

Ilustração: Vânia Medeiros

* Trechos de uma carta pra ela

21 de setembro de 2007

Eu sou uma roda de samba!

Confesso. Sou uma roda de samba. Não apenas pela vitalidade dos quadris ou pela dinâmica com que os passos vão se alinhando com as batidas das palmas da mão. Mas, principalmente, pela alegria dos que circundam o ambiente. Sim, além de fábula, me vejo ambiente também. Saias brancas que voam, pés descalços no terreiro, umbigadas. Me parece também característica a continuidade do som, uma cachacinha como combustível. As letras são praticamente uma trajetória, uma métrica em história. Minha própria cultura. As vezes até pensamentos soltos.

Alguém pode perguntar acerca da melancolia que não existe na roda e que em mim parece uma constante, mas nisso não me apego mais. Apesar da também semel
hança com os olhos cansados da senhora da lata, do "rir para não chorar", das vontades inconfessadas no pandeiro.

"O meu samba é de vida e não de morte
Meu samba vem pra cá e traz a sorte
E celebra tudo o que é bonito
Meu samba não despreza o esquisito
Meu Samba vai tocar no infinito
Meu Samba é de bossa e não de grito"*

Sou também o sorriso da menina que entra na roda, a sandália arrastando o barro do chão, o toque do garfo no prato de porcelana, as notas delicadas do cavaquinho. Ah! eu sou sim uma roda de samba. Daquelas que as moças bem vestidas de chita gargalham satisfeitas. Das que os rapazes cantam abraçados o refrão. Do beijo e do respeito por toda a ancestralidade. Cada vez mais flexível, me embrenho pelas mesas de bar madrugada a fora. No couro do terreiro, nas latas tocadas por "minha tia", dos dedos miúdos na pele do pandeiro, do velho sapato branco, do chapéu costumeiro, da cerveja gelada no copo e da preta a se requebrar. Aí, sou ponto de encontro de bons amigos, escuta para dores de amor...



E então, o samba é meu corpo inteiro. Um pagode arrastado, um chorinho de viola, uma cadência com esmero, bandolim e surdo ligeiros. Senhoras do recôncavo, eu sou também... Os poemas de amor versados para o meu bem com harmonia e contratempos ritmados. Então, pego meu pandeiro discreto e, com minha marra sorrateira, me transformo lentamente num bamba. Na mais gostosa roda de samba.


"o couro comeu na casa de noca, nêgo
não teve jeito
na casa de noca, quando o couro come,
é sinal que a dona quer respeito"**

Foto: Carol Garcia e coletada na Internet

* Trecho da música Samba Meu de Rodrigo Bittencourt (cantada por Maria Rita)
** Trecho da música Casa de Noca de Serginho Meriti, Nei Jota Carlos e Elson do pagode (cantada por Maria Rita)

12 de setembro de 2007

Ela dança jazz suave!
















E tudo começava a parecer óbvio demais... caminhos parecidos, decisões inoperantes, alegrias pequenas. E mais, particularmente ela não arraigava solidão! Plantou três sementes na varanda perto da janela. Disseram que o verde rejuvenesce o sonho. Manejava os pensamentos para tornar saudável o tal subconsciente, como se Freud não fizesse nenhum sentido para seu pensamento irrisório. A minúcia do sentir não a paralizava, ao contrário, agitava suas expectativas em relação ao próximo passo. Em dias de roda de samba, vestia a saia branca rodada para impressionar os transeuntes. Nos outros horários, calça jeans e aparelho de mp3 para acompanhar a solidão. Ela sabia do prazer do chocolate tal como da sensação de liberdade vertiginosa que parece sentir, com todas as malícias, todos os búzios, as criatividades!


"Quando pára o samba

Eu lhe tiro pra dançar

Você me diz: Não

Eu agora tenho par
E sai dançando com ele

Alegre e feliz

Quando para o samba

Bate palma e pede bis"*

Se esgueirava pelas brechas do caminho, a tal menina. Olhos castanhos, desenhados com tal esmero pela luz que refletia um verde tão claro castanho. Molestava o ócio, distribuindo para o universo uma energia exaspiradora. Crucial mesmo para ela é andar descalça pela areia da praia e quebrar conchas para ouvir o barulho do "craft". Tomava coca-cola a noite, depois de desligar todas as luzes, até a televisão. música para comer, para escrever alguma coisa, para conversar. Maquinava alguma forma de ter que passar pelo caminho de praia, para ficar olhando para o mar e pensar coisas diferentes, tal como economizar dinheiro para comprar plhas novas ou qual será o filme que irá assitir, provavelmente sozinha naquele cinema bonito.

"Eu sou a casa do raio e do vento

Por onde eu passo é zunido é clarão

Porque Inhansã desde o meu nascimento

Tornou-se a dona do meu coração"**

Pouco tinha pintado os lábios de vermelho. A tentação era tentar se mostrar de um outro ângulo para angariar sorrisos bonitos, cheiros no cangote, beijos ardentes. Até acordar na poltrona desconfortável do onibus. Arruma os cabelos bagunçados pelo vento da janela. Pede o ponto e salta meio atordoada sem saber direito por que tinha tomado tal caminho que aceitara. Andava pelo centro da cidade, olhando atentamente as coisas que via todos os dias. Entrou naquela porta de vidro, largou a bolsa na sacada e aceitou o vinho para entrada...

"I go out walkin'

After midnight

Out in the moonlight
Just hopin' you may
Somewhere a-walkin'
After midnight

Searching for me"***

Foto: Vânia Medeiros

* Trecho da música Sem Compromisso de
Geraldo Pereira; Nelson Trigueiro (cantado pela Orquestra Imperial)
** Trecho da música A dona do raio e do vento de Maria Bethânia
*** Trecho da música Walkin' after midnight de Madeleine Peyroux