21 de junho de 2006

IMAGINANTE*


Que não é absurdo
e cria a seu bel prazer
da fonte ativa
do mito ativo
da perseverança
a captura de beleza
na simplicidade
do paralisar o olhar
e da arte
a lindeza e a singeleza
o IMAGINANTE
andante criador de imagem
sem cabimento

"Como toda gente tem que não ter cabimento para crescer"**

A sensibilidade
emancipa a primazia perceptiva
controla a rigidez
abrange a literA(R)Tura
Ah! a sensação outrora
a invasão e impressão
consciente.
Ah! o voê, o outro.

"Eu sem você não tenho porquê
Porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz, jardim sem luar
Luar sem amor, amor sem se dar"***

Tudo se torna elegante
e eu impressionado e satisfeito
frente a I-MAR-GINANTES.

Ilustração :: João Milet Meirelles

* Título do fotoclipe dedicado à João Milet meirelles - Imaginante
** Trecho da música Cabimento de Arnaldo Antunes
*** Trecho da música Samba em prelúdio de Baden Powell e Vinícius de Moraes

Abstrações Sensoriais


Encantado. Na solitude transversal aparente, um substrato impuro e nevrálgico. Quebra-cabeças de sentidos e sensações. Ao andar o tempo passa tranquilo por que é dia de céu claro e consequente transparência os seres que se vê. Todos maturando racionalizações possíveis na tentativa de compreender o que geralemnte é insignificável. Mais tarde, também, insignificante. O circulo intocável da legitimidade, do vício que lhe corta o vértice central. Aramados e adormecidos. Posto o que não lhe é sabedoria, a inverdade soa. Sonoramente. Uma antiposta e singela necessidade de aroma adocicada de fruta gerada do verde a inversão cristalina dos consentimentos. O primeiro argumento da sequência lógica construída para a defesa da idéia de estar por trás do óculos escuros, nariz de palhaço, máquina fotográfica, pinturas abstratas, lata de cerveja e palavras que não se encaixam.

Aceitou-se temporariamente a inferência inexata. O dia passa a ser verossimelhança do dispersar energia concreta, ou simplesmente, incoerente com o que se pode simbolizar de cotidiano. SE voou por meios naturais, ENTÃO construiu solenemente uma imagem pictória de atitude. Fica margeada no intelecto, tal como os barcos desbravados em cavernas com recheios ancestrais. A surpresa é baseada no impacto que causa a sinergia entre os corpos: o desejo. A partir disso o som! A espera emocionada que se corta pelo desprender vazio da lembrança da falta de comunicação. Mais intenso talvez. Da falta de combinação parental das almas colocadas em cheque.

Para antecipar a cordialidade do passo, a tal liberdade cria submundos internos baseados na arquitetura simplista da abstração e da espontaneidade. Uma assiduidade constante a revisita da forma imediatista de visualizar a atmosfera das relações mundanas. O jeito se classifica artificial e culturalmente pela intensidade do mergulho na atmosfera do esperar e do tentar decifrar. A forma, amistoso entre partes, galanteia o ostracismo. Libera a capacidade de mobilidade. Ao se perceber a intencionalidade dos gestos, sorri arbitrariamente, de forma básica e involuntária. Reação a positividade não positiva de emancipar-se. Balbucia alguma coisa, mas não tem mais o que dizer de si.

De uma forma, ou de outra, a literatura que se cria, fantasia uma transformação atípica e convergente da razão. O emocional se torna a ferramente característica que se relaciona com o poder da expressividade. Um momento marcante é o da angústia proveniente do deciframente de determinadas conclusões. Da opção da inferência inexata. SE sonha, ENTÃO matura a irrealidade e a utopia - o conceito que se usa aqui admite a probabilidade, a provisão e a projeção dos desejos: Sinergia entre os corpos.

A materialidade rotineira, a singularidade das escolhas, a funcionabilidade dos sentidos, a dimensão do prazer nas trocas, a intencionalidade dos ritmos, a manutenção da prática na rigidez das experiências de aprendizado. A vivacidade poética dos olhos a se encontrar, claramente identificados.

Ilustração :: Vânia Medeiros

29 de maio de 2006


A avalanche crítica do anacrônico desejo de estar em outro ambiente reforça a idéia de que ainda há um longo caminho a se percorrer. Para onde? Ainda não se sabe, mas só de existir caminho mais proposições podem ser alcançadas. De repente um silêncio estrondoso. Daqueles que indagam o som e remetem a insuficiência humana de construir imagens de palavras. Mas principalmente da ausência delas. O pior da resiliencia é saber da solidão. De que ninguém sente o mesmo. E nem quer. Quando se olha para um animal qualquer, frio, cortante e gritante, pode se perceber que ele também é sozinho. A questão é que ele não tem consciência disso. De onde vem nossa guerra então? Sem justificativas cabíveis. O confronto humano com as suas próprias víceras massacrantes tem como conseqüência, talvez, violência em forma de imagem que é palavra ou palavra que é imagem. Do ovo e da galinha. Válvula de escape: Orgasmo. Dançar até chover rios por onde passar. Sincronizar os pés na mesma ambiência. Rasgar o solo com a sola e riscar no barro dedos que sobrevivem antes de cair. O sangue corre até as pernas em movimento. Nenhum pensamento, nem imagem, nem palavra. Ele acaba de apreender um passo novo.

Quando eu cheguei tudo, tudo/tudo estava virado/apenas viro me viro/mas eu mesma/viro os olhinhos/só entro no jogo por que/estou mesmo depois/depois de esgotar o tempo regulamentar/(...)/e dentro da menina ainda dança/e se você fecha o olho/a menina dança/dentro da menina/ainda dança/até o sol raiar/até o sol raiar/até dentro de você nascer/nascer o que há (...)*

A escrita previsível disto não é por diletantismos baratos, mas por uma prece sem fundamentos pelo tempo que não tem círculos cromáticos. É que a relação se esgota como se uma porção tivesse chegado ao final. E tem saberes que promove as interlocuções transitivas de um pensamento qualquer. Chega-se a conclusões. Ela está inteiramente ligada ao ínterim comum, seu próprio eu. Isso, vamos fazer um pacto aqui, chamaremos de "Ogíbmu". Explicarei caro leitor para que não fiques sem um mínimo de entendimento desse conceito. "Ogíbmu" se relaciona diretamente com um espaço fechado na relação com o outro. Isso por que sente uma indisponibilidade de assumir acordos mais práticos. Digamos que seja incomum nas pessoas o "Ogíbmu", mas todos, um dia passam por essa fase pictórica. É o que aconteceu agora e por isso ela dança. Porque, não é um dançar sozinho, mas um se relacionar intrinsecamente com essa confluência interna. Não obstante, nada a interessava mais, a não ser essa interação a se julgar de um egoísmo sadio, porém sádico, talvez. Enquanto ele não podia mais imaginar uma forma sensacionalista para lhe chamar atenção. Aquela menina e o seu interagir contínuo com o "Ogíbmu".

"Não, ele não vai mais dobrar/pode até se acostumar/ele vai viver sozinho/desaprendeu a dividir. Foi/escolher o mal-me-quer/entre o amor de uma mulher/e a certeza do caminho/ele não pode se entregar/e agora vai ter que pagar/com o coração/olha lá/ele não é feliz/sempre diz/que é do tipo cara valente/mas veja só/a gente sabe/que esse humor é coisa de um rapaz/que sem ter proteção/foi se esconder atrás/da cara de vilão/então, não faz assim rapaz/não bota esse cartaz/a gente não cai não (...)"**

A assiduidade daquela relação tardia minorava tudo o que subentendia. Ficava nas entrelinhas descobertas sem ignorâncias insensatas. Mais do que genializar alguma convicção, amadurecer qualquer espaço de interrupção qualificada do ser. Talvez do personagem ser. Mas dentro daquele espectro sensível e imaculado. Na origem daquele destino escolhido a dedo, não pode precisar qualquer tipo de sabedoria, nem abstrações coerentes. Misticismo remoto ambíguo. Linguajar inexato, até confuso, até melindroso (maniqueísta, tanto quanto Vladimir Nabokov e seu par de seios rosados). Anacrônico, deixa ela se jogar na mais característica impressão do universo de agora. Mais tardar dará conta de que perdeu coerentemente e por seu próprio descuido o amor dele (assim delicado e em parênteses). Deixa ele sozinho racionalizar o "Ogíbmu" e maturar a compreensão, a compaixão. Ode a qualquer sentimento de equivalência simbólica antiquadra. Ele tem olhos diferentes na mesma face. Pode observar um grande amarelo e um outro azul. Também tem o fato de que fica sozinho, dança solto, chora deitado, ri sem – perdão da palavra – grilos e ela, tonta de vinho caro e cerveja depois de muito esforço pra tê-las, assumindo seu posto pleno de desconfiança vazia. Não, perdão novamente pela palavra. Nada de desconfianças por aqui, até por que não há nem atenção esqueceu? Ela apenas se preocupa com um íntimo e singelo prazer diletante e prático. Gozo inebriado dela e novamente é "Ogíbmu" apenas a que ela se preocupa. Normal roda sem parar enquanto ele fica a sofrer "porque gosta".

Ela por ela:

"Não era à toa que ela entendia quem buscava caminho. Como buscava arduamente o seu! E como hoje buscava com sofreguidão e aspereza o seu melhor modo de ser, o seu atalho, já que não ousava mais buscar caminho. Agarrava-se ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre árvores, o atalho onde ela fosse finalmente ela, isso só em certo momento indeterminado a prece ela sentira. Mas também sabia de uma coisa: quando estivesse mais pronta, passaria de si para os outros, o seu caminho era os outros. Quando pudesse sentir plenamente o outro estaria salvo e pensaria: eis o meu porto de chegada"***

Ela não usa maquiagem, tatuagem. Ela não usa sentimentos baratos, nem blues do Djavan a toa. Ela não usa macaco, não usa televisão de cachorro, nem musiqueta pop dos Estados Unidos. Ela não usa black-tie, ela não usa capa de burguesa, ela não se usa (?), ela não se mostra, ela usa a solidão de decalque, ela usa partitura, ela usa uma miniatura de rosto riscado, ela usa uma calcinha que não se mostra, ela usa primazias como confluências de paradigmas, ela se usa no mais significante que seja isso (?), ela usa um conceito novo "Ogíbmu" e ela não olha mais pra ele com vontade de estar junto. Por isso ela não o liga mais, não o convida mais, não tem mais tempo pra ele. Ela e "Ogíbmu". Ela não usa mais ele. E ele só queria uma poesia de amor em seu mais novo endereço: o destino dela.

Ela escreve a poesia dele:

"Quando o meu mundo,
assim quiser
debruçar nesta janela,
e mais tarde quem sabe
o encontro com o horizonte.
Me provoque grandes emoções
Talvez o delírio de sorrir,
Sorrir plenamente
Um sorriso lindo
Lindo de morrer
Morrer de êxtase
Sem suicídio
E assim ver bem fundo
Suas verdadeiras intenções
Um coração limpo
Limpo de má intenções
Minha janela é assim viva como uma água
Improvisa e visa tudo
Buscando obter água
Estava tão linda
Esperando por ela
Descobri que ela sou eu
E eu, sou ela
Essa é a minha janela
Que talvez me revele
um grande amor
amor perdido por desamor
quem sabe por arrogância
de ser o próprio amor
mas isso não me vem agora
transformar minhas intenções
busco o talvez agora
minha própria remediação
sou livre
não sou?
Queria amar agora
Alguém que só me tem desamor
Mas não perco a esperança
De ser surpreendida agora
Por uma grande
Revelação de amor"****

Ele se provocou, ela era assiduidade. Os dois se transformaram e como poção que se esvai há uma falência na relação? Ele, pedido de cafuné, ela "Ogíbmu".

Ilustração :: colhida na Internet - texto de Clarice Lispector

* Trecho da Música A Menina Dança de Moraes e Galvão (na voz de Marisa Monte)
** Trecho da música Cara Valente de Marcelo Camelo (Na voz de Maria Rita)
*** Trecho do livro Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres de Clarice Lispector
**** Poesia de Cássia Lima do livro Simétricas Imperfeições.

16 de maio de 2006

Estatizar por um momento


Um dia, um certo dia triste, a agonia se revelou tão compreensiva. Diferente de outros tempos já não passava por nenhum espaço a bonança. Foi muito violento estar nesse tempo. Um dia, um aquífero dia, tinha sonoridades que se discutia em sombras de mangueira esquecida pelos anos que se passaram. Nesse dia tão vazio, não tinha mais esperança nem propósito. Nesse dia faltava ninho pra passarinho, faltava pernas ao homem, só não faltava lágrimas aos pitorescos olhos. Estes, no final das contas, foi pintado triste pela menina. No mesmo lugar de entender a esquizofrenia. Não sei por que, mas dos detalhes daquele momento nada queria ir embora. Atônito. Pedrificado. Eu não quis mais amor nenhum. Não estava nem ao menos preparado para ouvir nada. Naquele dia de sincope, tinha derretido qualquer coisa em mim de maneira explícita. Tanto que eles perceberam por lá. Andar e os olhos a se perder pelo espaço. Escrever palavras estúpidas que não são do feitio. Analisar o mundo de forma tão grotesca que já tinha até caimento, não ia nunca mais crescer. Como é perder o amor? Largar-se pelo chão em desespero no chão do trabalho ou rir sem vontade para a menina confortante? Não há respostas cabíveis. Se o coração é de vidro nunca suportaria uma pedrada. Quebraria assim tão fácil, evidente que sim. Sem sentido. Palavras até então sem exatidão!

" Estranho mas já me sinto como um velho amigo seu
Seu all star azul combina com meu preto de cano alto
(...)
O tom que eu canto as minhas músicas pra tua voz
Parece exato
Estranho é gostar tanto do seu all star azul..."*

O chorar é resultado de uma dor tão intensa. Tão verdadeira. Tão exata que parece ter sentido. Estava tudo entendido. Meu amor egoísta. Meu eu egoísta. Minha forma estúpida de olhar o outro sempre. Nunca é tão versátil andar em chão de piso áspero e se deliciar com o som do piano gritando por um eco a se expandir. Não dava mais estar a derramar as estrelas por esse caminho a todo instante. Tinha que se concentrar em acreditar que tudo tinha sido deixado pra trás como se esquece aquele antigo texto declamado por séculos. Maquiagem descolada da máscara que coloquei agora. Borou tudo de novo. Ela não vai gostar de me ver assim. Há uma nuvem embaçada em frente aos olhos. Nem uma gota que insiste em cair daquele teto é visível por este aqui. As ruas estão bloqueadas. Não há nem transito nem pedestres. Até a chuva parou de cair. Nunca que eu quis falar de im. Exibir as imperfeições. Mas deixar que os prantos sejam pratos cheios para a poesia é não roubar dela o que lhe é necessário. O sofrer e querer bem.

" De onde vem o jeito tão sem defeito
que esse rapaz consegue fingir?
Olha esse sorriso tão indeciso
Esta se exibindo pra solidão
Não vão embora daqui
Eu sou o que vocês são
Não solta da minha mão
Não solta da minha mão

Eu não vou mudar não
Eu vou ficar são
Mesmo se for só
não vou ceder
Deus vai dar aval sim,
o mal vai ter fim
e no final assim calado
eu sei que vou ser coroado rei de mim"**

A busca nesse instante é ficar em silêncio. Ficar no vazio do quarto colorido. Ler o que é pra ser visto e contunar não entendendo nada, mas aceitando a condição de continuar ou não. De repente é um sofrer tão forte que nem poesia mais cabe nesse mar de olhar. É a descoberta de que a sensação de abandono é tão destruidora quanto qualquer outra forma de auto flagelo. A simples descoberta de que é impossível viver sem colo e quem o faz está fadado a um ser duro. É crueldade. Esquecer isso. Já acabou mesmo, não sobrou mais nada de mim. Só uns cacos de vidro de coração no chão. A menina que me pinta colorido custa a catar... E me pinta negro de fundo cada vez mais azul, além de cantar bem perto:

"Anda
tira essa dor do peito, anda
despe essa roupa preta e manda
seu corpo deslembrar

Canta
vira dor pelo avesso
Canta
larga essa vida assim as tontas
Deixa esse desenganar

Calma
Dê o tempo ao tempo, calma
alma
Põe cada coisa em seu lugar
E o dia virá, algum dia virá
Sem aviso

então..."***

Ainda faltou dizer que de cego ou de atrapalhado o menino, não esqueceu, mas perdeu de vista aquela flor. O menino dormiu no ponto. Chorou até o amanhecer. E quando de dia derrama lágrimas antes de tentar continuar a andar.

E, ao ouvir Caetano, lágrimas...

" Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria

Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito esta queixa"****

Ilustração :: Do blog de Maria Fabriani

* Trecho da música All Star de Nando Reis (Na voz de Cássia Eller)
** Trecho da música De onde vem a calma de Marcelo Camelo
*** Música Sem Aviso de Franscisco Bosco e Fred Martins (Na voz de Maria Rita)
*** Trecho da música Queixa de Caetano Veloso

14 de maio de 2006

A máquina*


Era um colorido revolucionário. Era tanto amor. Era ele lá naquela luz tão forte que passava acima do que a cabeça poderia alcançar. Era menos absurdo do que a imaginação. Era sonho tão legítimo. Era imperfeição absoluta e uma atmosfera muito menos sufocante. Era chão de terra batida e televisão de madeira. Era amarelo para espantar a morte. Cantarolar, cantarolar. Era um despertar de uma outra fábula. Mais próximo ainda. Tinha um algo de mágico no caminho sim. Tinha algo de ilusionismo que encantava. Desprovido de sectarismos e qualquer outro ‘ismo’ pela frente. Corria em direção a uma alquimia limitada, um atemporal suspiro aliviado e atento. Aquelas luzes mobilizadoras estavam a projetar aos olhos qualquer coisa de real que a imagem desmascarada poderia produzir. E, de repente, amor de um homem filho do tempo. Não era identificação, era deslumbramento. Era desejo de uma proximidade qualquer com aqueles poderes. Na vontade ininterrupta de ser amor. Aquelas cores me modificaram. Aquela menina que me pinta colorido precisava me ver naquele instante. Eu estava modificado. A luz entrava pelos olhos de forma a iluminar meus pensamentos tão tardios. De repente já não era tão paralisado. Tinha cor na medida certa. Nunca abusou e mesmo assim me chamou atenção demais. Eu que prefiro os olhos da abundância. Eu, neo-barroco, que não aprendi gostar de meio tons.

"
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira"**

Do amor que nunca se tem e que aparece nas mais falseadas ilusões e no movimento do inconsciente. Era aquilo que se via ali. Era uma fenomenologia marcante. Era um estudo de como as matizes mais fullgás fosse importante para o mundo. Era de um pieguismo e de uma abstração barata que me comovia a todo instante. As fórmulas eram feitas da forma a prender meus olhos. Ele estava ali na minha frente, Antônio. Ele estava me dizendo sempre do amor que nunca tive, mas que pelo visto é fundamental. Desde o momento que a chuva caiu para tomar lugar de suas lágrimas. Aliás, era eu quem estava a lacrimejar as imagens dele. Eu queria ser ele, amor.

"
Meu Deus, o que será que tem
Nesses olhos teus
O que será que tem
Pra me seduzir
Pra me escravizar
Não sei
E não saberei também
Como resistir
A seu modo amar"***

AO voltar de um mundo submerso na beleza dos sonhos, tão concretos quantos verbais. Volta-se a desempenhar um outro papel simbólico: Ser filho do tempo e buscar o mundo para trazer ao meu grande amor!

Texto em homenagem ao filme "A Máquina"
Foto :: Vânia Medeiros

*Filme de João Falcão
**Trecho da música Samba do grande amor de Chico Buarque
*** Trecho da musica Canção dos Olhos de Chico Buarque

Passos de moça


Tinha lá seus 19 anos de idade. Super descolada a menininha. Cabelos pretos encaracolados, longos e mal tratados. Ela tinha esse estilo assim, maltratado. Vestia um blusão que parecia de sua mãe que cobria todo o busto e uma parte de suas pernas. Uma pequena parte da sua perna na verdade. O blusão cobria o pequeno short que usava dando a séria e intensa impressão que nada havia por baixo daquele camisão antigo. Andava pelas ruas mais velhas da cidade sem olhar muito para a frente e nem tampouco prestar atenção em quem a rodeava. Tinha muitos pensaentos e, pior, vários devaneios, utopias desnecessárias. Assumia um comportamento no qual se distanciava da outra maior parte das pessoas. Não podia ser igual a todo mundo. Seria uma ofensa a sua própria dignidade de menina "diferente" que não sente os mesmos desejos programados que as outras tantas gentes tinham prazer em sentir. Ela tinha um rosto tão lindo, que, da delicadeza de ser, sua face alimentava as mais provincianas libidos. Ela era sozinha e, mesmo em seu grupo "diferente" não consegue se ver em completude.

"E dentro da menina
A menina dança
E se você fecha o olho
A menina ainda dança
Dentro da menina
Ainda dança

Até o sol raiar
Até o sol raiar
Até dentro de você nascer

Nascer o que há!"

Nunca a vi tão de perto quanto naquele momento em que passva com ar de tristeza por mim. Ela estava perdida em um espaço simbólico que não se comunicava com o outro, nem com o espaço. Ela estava com ar de melancolia de quem nunca conseguiu chegar no seu objetivo. Talvez nem sabia qual fosse e estava muito feliz por isso. Ela era sim diferente e encantadora como sempre. Estava em movimento constante ao contrário de tudo quanto foi movimento irracional naquele instante. Era arte que lhe chamava atenção. Nem era tão arte assim e sua voz quase não saía. Talvez tivesse perdido a perspectiva, mas continuava em movimento cercado de outros ainda sem nenhuma possibilidade de expectativas. Se dizia feliz naqueles passos, mas não propiciava aos outros rostos nenhum traço de sorriso sincero, daqueles que dão pra zer orgásmico só de revelar a dentição no movimento sigelo dos lábios vermelhos.

" Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama"

Ela passou e eu não consegui. Parei de passar naquele instante. Ela passou e continuou um caminho que eu não consegui seguir. Ela passou e não acreditei naqueles passos, mas aceitei de bom grado todos os seus bons desejos de continuar os passos. Ela nunca deixou de passar e isso eu sei já. É que não passei no seu passo assim tão fácil.

Ilustração :: Vânia Medeiros

* Trecho da música A menina dança Composta por Galvão e Moraes Moreira - Novos baianos
** Trecho da música Ela faz cinema de Chico Buarque

2 de maio de 2006

Santa, barroca e baiana


Quando ia imaginar que uma vontade de estar tão bastante próximo iria acarretar no desejo de estar sempre. Ela é tão cheia de si. Linda. Ela é tão beleza e sorriso de flor. Não era admissível no âmbito da construção imaginária a possibilidade de encantamento de um ser tão belo assim. Quando avistada pela primeira vez por dois olhos surpresos, foi admiração em primazia. Era mais que o sorriso. Era o jeito do toque. Era a inexperiência engraçada. Era o momento proporcionado. Tudo tinha se preenchido de outras expressões semânticas quando aqueles olhos a avistaram. Tinham muito em comum. Mais do que se podia imaginar naquele momento. Os dois olhos que a avistaram tina certeza de que tinha encontrado algo muito especial ali. Mesmo que não pudesse novamente mirar. Mas, tamanha surpresa o contato foi feito. Havia a possibilidade de estar. De observar novamente. Tinha o medo, mas nem isso era tão forte. Aconteceu o que não se esperava ali. Uma combinação sensível.

"Você viu só que amor
Nunca vi coisa assim
E passou, nem parou
Mas olhou só pra mim
Se voltar vou atrás
Vou pedir, vou falar
Vou dizer que o amor
Foi feitinho pra dar
Olha, é como o verão
Quente o coração
Salta de repente
Para ver a menina que vem (...)"*

Neguinha, assim tão linda. Ela tem um magnetismo que atrai e uma sensibilidade de natureza do incomensurável. Ela e um “que” diferente. Ela mais decidida que o homem pode ser. Um encontrar avesso. Uma indisponibilidade. Cantarolar músicas de Marcelo Camelo ao lembrar dos cachos suaves de seu cabelo. Porque se tinha possibilidade de ainda lembrar de um rosto que, de tão leve, anuncia sempre a morosidade e singeleza de um ambiente que favorece um sorriso de expectativas. Uma marcha constante para lembranças, para boas saudações. O que provoca é intensamente necessário e ela é mais que qualquer mágica. Talvez ilusionismo sim, mas beleza acima de tudo.

“Vem pra misturar juízo e carnaval
vem trair a solidão
vem pra separar o lado bom do mal
e acalmar meu coração

vem pra me tirar o escuro e a sensação
de que o inferno é por aqui
vem pra se arrumar na minha confusão
vem querendo ser feliz”**

O que ela ainda não sabe é que nada mais que sua solidez foi imprescindível para a comoção pura daqueles mesmos olhos que a visitaram. O amor não dá mais lugar a nada. E mais uma estrela brilhante chega para iluminar qualquer sombrio céu de nuvens de chuva. É tão rosa que nada impede a interação com as luzes que a fixaram. Não se tem nenhum jogo. Muito mais que isso se desloca. Mas há mistério ainda no desejo. A única coisa que se tem notícia é de que os olhos que um dia a encontrou deu um sentido único a perspectivas. E, mais uma coisa, é tanta beleza vinda dela que a vontade de estar é sempre bem vinda. Talvez tenha a possibilidade de cantarolar outra canção:

“My baby don’t care for shows
My baby don’t care for clothes
My baby just care for me
My baby don’t care for cars and races
My baby don’t care for high-tone places”***


Em Homenagem a Luana

Ilustração :: Vânia Medeiros



* Trecho da Música Samba de Verão de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle (na voz de Caetano)
** Música Feliz de Dudu Falcão (na voz de Maria Rita)
*** Trecho da Música My baby just care for me cantada por Nina Simone

Sabor queijo coalho, catupiry, chedar e mussarela


Locomoveu-se ainda sem poder dar passos direito. Confuso. Anunciava que ainda estava disposto a se destituir de todos, o cargo de magnitude a que alguém um dia impusesse participação ativa. Mas não era tão fácil assim. Naquela noite, enxurradas e fortes emoções se misturavam no peito dele. Muito mais invisível do que camuflado. Era inevitável todo aquele não estar. Caminhava simplesmente. Caminhava. Sentia que algo tinha começado a se desfazer naquele instante. De quem não havia desejo de continuar? Mas ele tinha que chegar ao seu caminho. Ou continuá-lo. Mas lhe foi impedido a possibilidade de continuar e aí tudo aconteceu:

Conto do amor e da construção da imagem através dos sabores...

Ele tinha mãos firmes, mas não pesadas. Foi a única coisa que se podia sentir racionalmente depois de tudo. Ele era delicado. Sempre o percebeu. Sempre o havia visto. Adicionou um toque especial sempre e sempre havia uma compatibilidade, ele que não percebia assim tão fácil. Até o já tinha lhe dado toques, mas não foi assim tão fácil perceber. Ele tinha barba, daquelas que roça a bochecha e faz cócegas. Ouvia música comum de duas décadas atrás, mas não era tão ingênuo. O que mais chamava atenção é que ele sempre olhava no olho e dizia: “Pra você, meu querido, o mesmo que faço sempre. Queijo coalho, catupiry, chedar e mussarela. Acertei?” A reação era um sorriso simples e um sim discreto. Ele tinha acertado o desejo mais uma vez.

“Consentir é educar o amor
Seduzir é cutucar
Amarei! é conjugar o amor
Não amei! é enxugar

Avançar é conquistar o amor
Amansar é como está
Como estou com muito amor pra dar
Eu dou!
Quem tiver atrás de um grande amor
Achou!”*


Nesse mesmo dia de confusão. Ele chegou bem perto, apertou a mão com firmeza e deu-lhe um abraço singelo. Foi aí que a barba fez cócegas e tudo estava tão entendido. O próximo passo comer pastel de queijos com vinho encorpado. A televisão não tina sentido, mas iluminava o ambiente de forma limiar. Ninguém prestou mesmo atenção naquela caixa de luz. O vinho era bem encorpado e o pastel quente. Riram e encostaram o ombro. E riam... Sentados, um abraço, um carinho nas costas e um encostar de lábios com gosto de esperança. Ficaram assim por horas. Os personagens da televisão pararam para curtir o clima. Beleza. Era simplesmente vontade de estar mais bonito. Ele, com tanta delicadeza tocava o corpo como se pintasse o quadro lírico mais perfumado já feito. Ele via beleza ali. E via mais ainda. Ele enxergava uma alegria em construção daquele sorriso que se abria após o descolar dos lábios. Ele sabia da felicidade e escondia em sabores do qual o desejo já tinha se tornado decifrável.


“Leve
Como leve pluma
Muito leve
Leve pousa

Muito leve, leve pousa.

(...)

Simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma
Que em mim amadurece”**


O carinho era prazer intenso. Era muito mistério e nenhuma certeza. Por isso prazer intenso. Os braços estavam juntos e o cheiro de manga madura já tinha invadido o ar sorrateiramente. Devagar. Espantando qualquer fantasma da razão. Deixar para trás até as recordações do calor ardiloso e impassível. Eram só dois ali. Sentados, de rosto colado. Gotas de suor a derramar no braço e na testa. Deitaram e contemplaram o telhado com hastes de madeira. Mais risos. Conhecia um caminho mais curto para chegar a um sorriso aquele moço. Só que agora podia voltar a andar. O pastel tinha acabado e o restinho de vinho no copo não tinha mais o mesmo sabor. Mas antes de continuar a construir um caminho, aliás, agora diferente, ele, ainda sorrindo, arriscou a falar:


- amanhã, volte e satisfarei de novo seu desejo. Não precisa dizer. Já conheço. Sabor queijo coalho, catupiry, chedar e mussarela.



Ilustração :: Vânia Medeiros



* Trecho da música Achou de Dante Ozzetti
* Trecho da música Amor de João Ricardo - João Apolinário

Dialetos Transcritos

Na outra oportunidade deles estarem assistindo a atitude de querer um ao outro, mais que algumas bobagens foram produzidas em imagens pelas mentes. O que se chama de sonho era para eles a intensa necessidade de caminhar pela praia de mãos dadas. Era mais que criatividade e o que estava sendo dito não passava de mentiras abstratas. Cada vez mais serenidade encolhida na abstração do que se desprende no leito de viver. Cada respiração era um fardo e quando não era decisão no estar, mais que bagunça existia. Todo ar era falseado e inatingível. Diálogo nesse instante. Puro diálogo amorfo. O que dizia um era aceito pelo outro como complemento da alma. Pendiam árvores de segredos incomensuráveis. Tinha que ser símbolo de impressão oficiosa. Taciturna forma libertária de flexibilizar a ordem dos sentidos, mística de dois. Como o nadar juntos pelos fluídos vazios do preenchimento. Ordens não existiam, apenas intencionalidades estanques e não tão rígido. Na crendice de que o amor passa a adquirir aspectos políticos na sua sustentabilidade, fica o reconhecimento de que a alegoria fundamental da práxis do estar junto se manifesta no dizer-se ao outro e ouvir-se em si, assim como no anteposto. Se ainda está no imaginário, em confusão, pode-se verificar na dificuldade de desenvolver a linguagem dos casais. Eles ainda param sem saberem de si por que estão no outro. Pressupõe dislexias e falta de compromisso com argumentos concisos. A reflexão é continuada por desistir de entender a prolixidade deles.

“Sem essa de que estou sozinho
somos muito mais que isso
somos pingüins, somos golfinhos,
homens, seria e beija-flor


(...) O sistema é mal, mas minha turma é legal
Viver é foda, morrer é difícil
Te ver é uma necessidade
Vamos fazer um filme


(...) E hoje em dia como é que se diz: eu te amo?”*

A liberdade de forma tão rara se torna escassez de uma necessidade interminável de sentir-se não preso, mas enlaçado enfurecidamente pela imaginação de outrem. Caridosamente, mais que símbolos comuns traduzidos emocionalmente, tudo se torna tão comum, tão breve, tão insólito. Nem é real. Nem é em si. Radicaliza, chega ao tal cerne que alguém acredita existir. Acabaram-se as cascas dos nós de nóis. Até agora é o único caminho concreto. Manda parar porque se é cidadezinha do interior o coreto ficou fora do lugar. Porém não há alucinações neste ambiente de construção ambíguo e duvidoso. A liberdade é endógena demais. Não segmentária nem signica. A liberdade é uma construção simples de conflitos de si para consigo. Não é fácil a análise de que se tornas resposáveis pelas consequências. Mas, agora, sinceramente, acho que tudo está por um fio. Tem-se muito medo neste instante. Sentimento de esvaziar-se de vôos. O desequilíbrio constante dá lugar ao entendimento inevitável. Enquanto eu apenas esperava ouvir:


“(...) Sei que a tua solidão me dói
E que é difícil ser feliz, mas do que somos todos nós
Você supõe o céu
Sei que o vento que entortou a flor
Passou também por nosso lar
E foi você quem desviou com golpes de pincel

Eu sei é o amor
Que ninguém mais vê
Deixa vir a moça
Toma o teu
Voa mais
Que o bloco da família vai atrás.“**

Mais uma vez limitações da condição simples de comunicar-se. Há probabilidades sentimentais de diálogos, mas apenas isso. De repente é inútil o tentar fazer-se entender. Inútil, sombrio. Não é de lágrima que se distingue esse ideal. É de verdade que se demonstra a incompatibilidade entre o desejo e a possibilidade. Mas porque o desespero? Por causa de uma tola e inexata solidão amiga? Não sabe pronunciar a lingua do amor. É por que o amor é uma conversa muito longa e que ainda está no nível da impossibilidade expor em signos transcritos.

“(...) De repente cai o nível e eu me sinto um imbecil
Repetindo, repetindo, repetindo
Como num disco riscado
O velho texto batido
Dos amantes mal amados
Dos amores mal vividos
E o terror de ser deixada
Cutucando, relembrando, reabrindo
A mesma velha ferida (...)”***


Ilustração :: Vânia Medeiros


* Trecho da música Vamos fazer um filme de Renato Russo
** Trecho da música Além do que se vê de Marcelo Camelo
*** Trecho da música Não vale a pena de J. E P. Garfunkel

28 de abril de 2006

Há política no amor?


As tarifas dessas suas relações são devaneios qualquer. Nem pode-se sobreviver a esse exarcerbado clímax o tempo inteiro. O preço é muito alto. Tem que construir uma escada muito longa sem ao menos reconhecer a existências concretas dos degraus. A questão nem está sob o prisma do valer ou não a pena, mas as desventuras do destino sempre vai obrigar em intensidade uma insensata proteção simbólica. Você não tem o direito de exigir sensatez no que se escreve nem solidez nesses argumentos tolos. Nem sei se vale a pena aposta nessas angústias incomuns. A fala vira uma literatura impensada com erros gramaticais que nem sequer admitem uma cognição simbólica. Mas é de costume a invalidez e não se entende mais nada novamente. Nem é nehuma cobrança. Apenas uma infinitude simplista de um eu que não é em si por que é sem você. A loucura, o delírio, a indivisão de consensos, a falta de compartilhamento, a inacessibilidade dos pensamentos. Não há mais nada certeiro, as linguas não parecem mais serem visíveis. Não estão mais a querer se entrelaçar para dizer-se de si.

"tive um sonho com você, amor
numa noite sem igual
e me transformei num beija-flor
dentro de um roseiral
(...)
ao beijar a sua corola assim
deu-se a transformação
acordei do sonho, voltei a mim
e beijei sua mão"*

Existia, por sinal, uma procura inóspita e incessante. Você sempre leve estava ao movimento da ventania. Um silência sem respostas, nem questionamentos. Um não fazer ruído que parecia não ter nada de simbólico, mas era você alí sem dizer. O pior. Os olhos estavam a silenciar e assim não ia poder existir diálogo. Parecia dizer que não há algum indício de político no estar junto. Há um limite na disponibilidade. É que há uma notória necessidade da dedicação, do doar. Naga era tão pragmático para você e nem deve fazer parte do que se chama de realidade. Mas não deve contar a sua existência? Mesmo assim há que se desempenhar um papel importante - o estar com o outro. Nada de simplicidade, porém. Complexidades. Então a aproximação com o concreto. Parafraseando o poeta: O amor é feito de quatro mãos e da elevação dos pés.

"Há uma canção de amor deles que diz também monotonamente o lamento que faço meu: por que te amo se não respondes? envio mensageiros em vão; quando te cumprimento tu ocultas a face; por que te amo se nem ao menos me notas? (...) Já posso me preparar para o 'ele' ou 'ela'. O adaggio chegou ao fim. Então começo. Não minto. Minha verdade faísca como um pingente de lustre de cristal."**

Embora parecesse uma lamentação à sua frente nada mais era que um simples ato de subordinar minhas falseadas limitações. Nada de amrguras para se deleitar. A maior característica da ilusão é a incompreensão passiva do ritmo imposto. Nada de amorfismos nos sentimentos. Era pura necessidade de estar covarde e se sentir bem mesmo assim, antes de deixar-se levar. Mas estava tudo em ampliação. Tudo era alvo de solícitos espaços nevrálgicos. QUem estava lá era um você discretamente passível de outros desejos. Ainda assim nada de sair de um silêncio combinado com a ausência estável. Então nada de diálogos. Não era possível política, nem amor. Nenhum ato ríspido fez você sair do lugar, no entanto, você doou o conceito. E a leveza fez-se luz bem leve. Era luz que estava querendo dizer.

"É, meu bem,vamos passear.
Chega nega morena, vem
vamos passear
vamos passear, sim, vamos dar um passeio juntos
me dê a mão, vamos passear neste antigo documento:
um passeiozinho que é pertinho,
tá catá pé daqui, pé de lá, oh,
que cheiro bom de jardim!"***

O que não foi perceptível naquele instante era que você usava um nariz vermelho e isso já dizia muita coisa. Mas por que não entendia mesmo? Acho que o amor é feito mais do que entendimentos bobos. É a elevação dos pés.

Ilustração :: Vânia Medeiros

* Trecho da música O Beija-Flor de Gilberto Gil
** Trechos do livro Água Viva de Clarice Lispector
*** Trecho da música No Jardim da Política de Tom Zé

24 de abril de 2006

Santa Chuva*


Da perspectiva que tenho aqui, muita coisa se pode observar. Parado em frente ao portão do grande caminho, muitas coisas a se notar. Principalmente por que os sentimentos são mutantes. Pode-se ver diferente sempre. É que você estava diferente. Mais disposta a vivenciar todas as experiências de sensações a quais os momentos irão proporcionar. O clima ajuda. Um momento perfeitamente intimista, um calor que só saia dos poros em comum. E você ali, agora parado em frente a porta a cantar a poesia detalhista do cotidiano paradisíaco. Você estava alí no seio do ambiente sendo mais o território do que ele em si. Estava tudo preenchido nesse espaço. Era o que faltava naquela sala de estar, perto daqueles móveis de madeira, do violão encostado no sofá, até do reflexo no vidro de cor de gente. Eu apenas tive a oportunidade de te contemplar. E era evidente que você não era um só! ficou mais que claro que, de fato, tinha mais que dois olhos, mais que os dois braços. De certo encontrei vários naquele momento!

"Amar: Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer... E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei.... O amor é quando a gente mora um no outro."**

Daí, você que são vocês, passaram de repente por aquela simples avenida de madeira. Era uma ponte para ser sincero. Eu os via tão vivos, quase uma ordem de sair da cadeira e admirar beleza. Naquele lugar de sentimentos, eram aqueles corpos, mentes e coração. Aquela ponte sempre dialética não os deixava transitar sem questionar os limites impostos. De quem é o momento de atravessar? quem está pronto? Mas não demora muito para que o desfile se desse de forma única. Agora vocês era simplesmente você que não exitava em passar. Objetivamente! E eu queria apenas estar alí. Aprendendo a estar e a passar quando da vontade acontecer. Depois de segundos de contemplação não demora para que se torne (tornem) qualquer sentimento de nos deixar parecidos, nos deixar sem palavras, nos deixar mais próximos. A subjetividade é leal a proposta do ritmo que se desencadeava. Era estar mais próximo do amor de dentro!

"
Pra se viver do amor
Há que esquecer o amor
Há que se amar
Sem amar
Sem prazer
E com despertador
- como um funcionário

Há que penar no amor
Pra se ganhar no amor
Há que apanhar
E sangrar
E suar
Como um trabalhador"***

Porque quando acontece de estar bem próximo a cova de seu rosto me indagam sobre o que cabe no seu sorriso. De gosto de limonada no verão litorano. A insustentável sensação da necessidade crucial de que um carinho podia saciar toda sede, toda fome, todo o desejo, toda dor. É que quando você passa, meu bem, a alegria toma conta da eneriga a se canalisar. Várias arquiteturas se formam. Por que são novos espaços e novos objetos dos sentidos. É que na sua humildade de rosa e cravo, o poder mesquinho é futilidade e todas as mazelas são dignas de não terem justificativas. O exemplo mais simples qu se pode dar é do acender a luz quando são seus passos pela calçada. De concentração da leveza e, assim, da naturalização do sentimento purificado.

" Quando o amor
Quando o amor tem mais perigo
Não é quando ele se arrisca
Nem é quando ele se ausenta
Nem quando eu me desespero
Quando o amor tem mais perigo
é quando ele é sincero"****

E, posso ser sincero, ainda bem que chove lá fora para que você não vá embora e fique mais tempo de alma colada em mim.

* Música de Marcelo Camelo
** Poesia de Mário Quintana
*** Trecho da música Viver do Amor de Chico Buarque de Hollanda
**** Trecho da música Amor Amor cantada por Maria Bethania

18 de abril de 2006

compromisso de conformações


Mastigou toda a sua coleção semântica. Não queria mais falar, imagine simbolizar suas pequenas e míseras tentativas de aventurar sentidos comuns. Não mais tinha o compromisso de lavar o céu, nem canalisar as sensações. Retraído, até se propôs a se revelar, mas continua muito difícil. Enconstou no frio alumínio como um travesseiro, deixou-se levar pelo simples balancear. Estava a chorar nesse momento. Não aguentou, como sempre o fez, estar só para derramar as estrelas no chão. Não podia opinar mais. Seria muito ridículo! Mas estava disposto a doar-se. Se precisas por lá estará com o mais sincero sentimento de doação. Esquece sempre que há limites. De certo as intencionalidades eram ambivalentes e, muitas vezes, acometida a violência da nostalgia. Nunca é interessante. Não o é, nem nunca pode ser. Deixai que se torne o céu nesse momento de ilusão e que caia meteoritos em forma de luz como matéria que se transforma em água e derrete-se ao chão perene. Estava convencido de que correspondências e viver de amor não é para todo mundo.

"Ô maravia ô maraviá
O amor dos outros chega e o meu não quer chegar
Quando ele aparecer meu coração vai parar
Ai ai ai ai .... vai parar
Ai ai ai ai .....vai parar
Eu inda vejo todo dia no riacho
Quando chega a boquinha da noite
Eu deito debaixo do umbuzeiro
Eu fecho os óio ele entonce me aparece
O meu corpo se estremece
Fica queimando que nem um braseiro..."*

Mas há grnades dúvidas se terá de fato um coração a parar. Parece que é mais interessante divagar sobre a possibilidade da felicidade sem vivenciar desejos expressos, carícias, o estar junto no meio da noite, o telefonema a esperar, o agradecer por existir, a dor do desejo, o realizar-se, o viajar ao dormir no colo. Talvez também o gosto de fruta madura, de manga amarela, de sorvete de côco ou mousse de maracujá. Mas não podia continuar leviano consigo e teria que transformar a virtude de ser passivo, o prazer da auto-tortura, e admitir que é possível a convivência com a falta de beleza. Não o é amor e, travaremos um pacto de sinceridade, não há possibilidade de conquistas. Mas, viver um grande amor é realmente necessário? Alguém é a favor de ditaduras de caminhos?

"Triste é viver na solidão
Na dor cruel de uma paixão
Triste é saber que ninguém pode viver de ilusão
Que nunca vai ser, nunca vai dar
O sonhador tem que acordar"

Antes que o sol estrague comprou pastilhas refrecantes para tentar adoçar os sentimentos tão melancólicos. Na santa e honesta sinceridade, diz-se absoluto o silêncio de importância de qulaquer dia. Até por uqe o silêncio não diz. Nesse caso é vazio. Só há possibilidades de questionar quem pode completar as lacunas do coração. É um ser normal? talvez a diferença sobre os outros é que todos eles são perfeitos e ele? De repente quer que a vida passe e pense. Acorda e acende luzes que o sol não consegue alcançar. E nada de anjos, pois todos são apenas vulnerabilidades hoje. Agora chove lá fora, agora chove nele, agora ele é chuva escorrendo!

" Não, solidão, hoje não, quero me retocar
Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas
Deixo que as águas invadam meu rosto
Gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo
Eu preciso me mostrar" ***

Ilustração :: Vânia Medeiros

* Música Maravia composta por Dilú Melo e Jairo José
** Trecho da música Triste de A. C. Jobim
*** Trecho da música A Mais Bonita de Chico Buarque

No instante das cores em fuga


E os momentos da realização não estão em simetria. Não se pensa em luxurias. Tão somente em qualquer outro pecado. A sorte é que lançou mão da desordem para continuar em dúvida. Nem se ria dos anti-movimentos que tentava realizar, estava em dúvida agora e, pensativo, não conseguia se concentrar na contingência de aocntecimentos que não hesitavam e atravncar o seu caminho. Nem se percebia que não precisava sair do lugar pra ser transportado. Nem se abriu os olhos sequer. Eram pés separados, assim como os desejos. Só se poderia relacionar-se com vidros, não com o que se passava dentro dele. O sinal mais coerente de que não era muito sentido o conceito próprio. Sobrou para o velho vício de sonhar, era só o que se podia fazer. Agora nesse caminho fugidio, nada mais poderia ser feito. E, mesmo se pudesse, sobrou somente o velho vício de sonhar.

" Mais vale o meu pranto que esse canto em solidão.
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas.
Abre essa janela
A primavera quer entrar
Pra fazer da nossa voz uma só nota.

Canto que é de canto que eu vou chegar.
Canto e toco um tanto que é pra te encantar.
Canto para mim qualquer coisa assim sobre você.
Que explique a minha paz. Tristeza nunca mais."*

Durante o caminho, agora a andar, a noite não deixa sombras. Pensou seriamente no momento do emancipar o limite. A grande questão estava no que de fato estará a se desenvolver com o objeto onde se aloja o sentimento. Por que é tão difícil o entendimento? Talvez por que se caracterize pela falta, pelo ócio. A chave caiu de sua mão. Nervoso, cata do chão escuro e abre a porta sem deslizes, sem outras recomendações. Estava a adentrar o visível. Estava a ponto de se descobrir ainda mais. Deixou de aliar-se a qualqer tipo de patrimônio. A vontade era, apesar de que o caminho o levara em outra direção, chegar ao amor. E o amor? Só se confere no estar junto.

" Poeminha de frio

Eu escrevo
Você passa a rua e não olha
Boceja na gravura
Me dá uma esmola
E diz para eu não sofrer
Mas eu não sei a altura desse amor
Amar é arriscado demais
Prefiro te ver"**

Mapas não existem para se chegar a um caminho redondo de verdades sempre provisórias. Nem mapa, nem muito menos bússolas. Pois as localizações agora são meros conselhos insensatos. A coisa mais importante de se ouvir nesse momento está na possilidade de convencer da simplicidade do encontro e de que mesmo na solidão estarão juntos. Ao andar tinha no chão pedrinhas de cheiro, daquelas que exalam esperança de possibilidade. A felicidade foi apenas se conectar para estar um pouco mais linkados, descrevendo-se em menores cartas, quase bilhetes de conversa. Tinha cedido tudo o que podia, tinha estado o tempo todo a tentar entender uma tela. Não dava mais para continuar. Foi ao descanso, para encontrar no outro dia mais pedrinhas de cores no chão, daquelas que brilham aos olhos cansados para derreter todas as certezas e fazer desaparecer por algum tempo as cicatrizes.


"Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

'Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!' "***

Há um ritmo compassado. De longe ouve-se o tra, o tra e o tra cada vez mais suave e, ao mesmo tempo, mais veloz. E o tra, e o tra, e o tra se transformava em um ritmo quase vital para o moço que caminha a escutar o som hermeticamente harmonioso. Ele já excitado balançava lentamente o corpo e o tra, e o tra, e o tra era particular e tinha várias formas. O moço estava a indagar-se sobre a ditadura que se implantara naquele momento sobre o seu corpo, já que ele não o comanda mais e quem o faz era o simples tra, e o tra e o tra. Só esmaeceu de tristeza por que o som deixou as cores fugirem. Ainda a espera voltar.

Foto :: Vânia Medeiros

* Trecho da música Casa pré fabricada de Marcelo Camelo
** Poema Poeminha de frio de Ismael teixeira (senhor borboleta)
*** Trecho do texto A Solidão amiga de Rubem Alves

16 de abril de 2006

"Além da vida ainda de manhã de um outro dia"*


Prisma diferente. A literatura dos poros alimentados pelo tempo chuvoso se arrasta multidões a fora a procura de sensibilidades que se escondem na mais completa obsessão dos sentimentos alheios. Ficou claro que são símbolos e que nada mais admite perspectiva falseada ou disforme. Não há mais parâmetros para se verificar resultados. Não há incrementos, nem remédios mais. O que há são linhas a se desenhar do traçado das mãos e dos olhos cansados que se despedem no andar ligeiro e rumo a um ponto conhecido. Aquele território, de certo, sombrio e vazio. Aquele lugar sem forma, sem acompanhamento. Enquanto eram os olhos que andavam, surgia luminosidades por trás das plantas que cercavam o movimento. Era muito mais que lamento, se você espera saber. Era vontade de chegar a esse tal lugar já conhecido pelo corpo e menos conhecido pelas carícias. Esperava modificar o ambiente. Encontrar alguém a espera no portão para que não fosse traumático pensar que nada seria diferente. Mas os passos continuavam firmes, os passos, não mais o olhar. Esse já tinha se dispersado pela luna guia da noite. Conotava sentimentos de liberdade, mas o que queria era uma prisão de carícias afetivas.

"E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me."**

É mais clarevidente a forma que se tem mediante as originalidades que são atraídas pelo homem fino de andar calado e que não presta muita atenção ao rebuscamento das luzes amarelas de mercúrio. Mas na noite só é isso que se tem pelo caminho. Mesmo assim não se é de prestar atenção nessas coisas fúteis. Ela não. Ela fica parada analisando a mensagem descritiva que pulsa nos canteiros de obra fictícios a essa hora da noite. Ela não finge mais estar em movimentos inalterados. Ela finge outras coisas agora. Aliás, elas. Por que são duas. Uma de carinho excessivo e a outra de rodopiar pelas frestas de desejo no chão de terra batida e no piso de madeira que lhe comove. Não há interconectividade entre eles. Afinal ela são duas e ele apenas um só a encurtar o caminho sem muito afago. Ela, moviemento e rodopio, joga o relógio no rio para que a água sirva de contagem do tempo. Ele não esquece o telefone que poderia ser transporte para o lugar secreto que ela está se guardando. O caminho é o limiar da presença. Limitante da forma de enxergar pelas beradas e adicionante no ritmo acelerado dos carros a transitar pela rua ainda sem cor. Canal fechado de discórdia. Há muita cumplicidade entre o homem e a mulher, que agora está dividida. Amálgama da dubiedade, mas esse nunca foi motivo para causar o discrédito. Foi motivo para ensaiar outros rumos. O descrédito vem com o romantismo, tão barroco no seu exacerbar. É um menino doce que fala de clichês e ele sempre está certo. Não há mais dúvidas de que, nesse caso, o amor nunca pode ser verdura. É salada de frutas.

"
(...) Teu sorriso quieto no meu canto

Ainda canto o ido o tido o dito
O dado o consumido
O consumado
Ato
Do amor morto motor da saudade

Diluído na grandicidade
Idade de pedra ainda
Canto quieto o que conheço
Quero o que não mereço
O começo
Quero canto de vinda
Divindade do duro totem futuro total
Tal qual quero canto
Por enquanto apenas mino o campo ver-te (...)"***

A plasticidade deles é palvra que insiste em projetar imagens disconexas. Eles são meio tortinhos sim, mas é que eles são belezas. Acessiveis imaginários estéticos. São mais que gruarda-chuva em tempo de inutilidade e frio. São Pararaios que atraem energia abundante em determinado espectro, em determinada frequência. Por que nada de matéria e partícula. Eles são é correntes. Por isso, deixaram há tempos de neutralidades vazias. O homem e a mulher, menina, que são duas, são tão macios quanto um sonho alimentado pelas artes. De infinitudes, há sim um prisma diferente. Ainda assim, são literaturas, não por caberem em palavras, mas por serem símbolos endógenos. Dessa forma, escreve-se imaginações.


Ilustração :: Arnaldo Antunes

* Trecho da música Se tudo pode acontecer de Arnaldo Antunes
** Poema O desejo de Hilda Hilst
*** Trecho da música Acrilírico de Caetano Veloso e Rogério Duprat

15 de abril de 2006

ilusionismo...


Eram 6h25 quando ele acordou. E tanta foi a sua surpresa que deu de cara com o samba que ela tinha escrito perto do sofá. Ela estava lá tocando no seu pandeiro improvisado. Ela estava com ele mesmo! De súbito ela levantou com sua saia rodada e simplesmente dançou tocando seu pandeiro feito de madeira e pregos ainda em acabamento. É que ela comôs um samba parecido com Noel e cantando com Nara Leão. Sua voz aguda estava perto dele, muito feliz por a ter alí por perto. É que significa muito ter alguém por perto nesse momento. E ela muito feliz por tocar e cantar o samba que ela mesmo compôs. Então era só felicidade. Ele tambpem levantou, aprendeu a letra, cantou e dançou, rodando até cair de tonto no sofá. Estranho, mas ele acordou novamente. Não tinha samba. Não tinha ela.

"Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão
Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão"*

Eram 6h25 quando ele acordou. E para sua surpresa ele tava alí, só fitando seu rosto o esperando acordar. Quando abriu os olhos um lindo sorriso se abriu com um sonoro e feliz desejo de bom dia. Ele sorriu de volta sem pestanejar, afinal o outro estava alí parado com um grande sorriso no rosto. Além do bom dia um abraço sentido com direito a carinho feito com as mãos nas costas. Antes de levantar os dois deitaram juntos e ele recebeu um lindo cafuné. Mais. Palavras de carinho, de compromisso em estar sempre por perto. Um súbito levantar e o outro foi fazer café. Ele foi no banheiro, lavou o rosto e ouviu o outro cantarolar Caetano na cozinha. Um cheiro de café foi aromatizando o ambiente. Pães quentinhos, menteiga derretida. Eles foram para a sala, sentaram perto do sofá, olhou um para o outro e sorriu, como se estivesse no mais sublime momento de satisfação de desejos mútuo. Estranho, mas ele acordou novamente. Não tinha café, não tinha beijo carinhoso, não tinha ele.

"Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o que quer
Mão coração de criança
Não é só a lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meus sonhos
Sem dizer adeus
E fez dos olhos meus
Um chorar mais sem fim
Meu coração vagabuno
Quer guardar o mundo
Em mim"**

Já são 8h45 e ele não sai da ilusão de não estar só. Como se a felicidade se compusesse de não ter a casa vazia, de ouvir sua voz, de ter abraços infinitos no qual se deslocaria para um outro espaço-tempo significativo. Ele preferiu ficara sozinho, lembra? Foi sua própria idéia. Daqui há instantes tudo muda, pois há rádio e microfones. Sua voz tem outra dimensão. Não preenche, mas faz do tempo um excesso de velocidade. Ele vai fazer samba e tomar um café sozinho.

" Não me deixe só
Que o meu destino é raro
Eu não preciso que seja caro
Quero gosto sincero de amor

Fique mais
Que eu gostei de ter você
Não vou mais querer ninguém
Agora que sei quem me faz bem"***

Não, ele não vai deixar-se só. Bem como o é em pedido!


Ilustração :: Vânia Medeiros

* Trecho da música Dança da Solidão de Paulinho da Viola
** Música Coração Vagabundo de Caetano Veloso
*** Trechos da música Não me deixe só de Vanessa da Mata

13 de abril de 2006

A partir de 20 de Maio de 2003 - 21ª Semana


Completo caos. Cardumes de tubarões incessantemente progredindo no objetivo de seguir homens em fuga. O capitão que deu a ordem se esconde atrás dos mastros que suspendem as velas. É vapor, é gota, é água, é lagoa, é riacho, é ribeirão, é rio, é mar, é oceano e imensidão.

- Não, não! não tem portas!

- Mas as janelas se abrem, meu bem. Se você estira seu braço e o ônibus que passa por meus líquidos pára, você entra e nos leva juntos no mesmo sentido.

Há algum espaço que me distancia, não nos conhecemos. Eu olho para trás e te vejo como se realizasse os meus desejos mais profundos. Claro que os círculos dos espaços se adaptam ao sistema e continuam em um mesmo processo giratório.

Olha para frente agora:

- O que vejo? meu ponto. Solto, nunca mais nos veremos. Fecho o livro e você some.


"Tenho o que dizer, pois vou dizer-me a mim mesmo, como qualquer pessoa diante a memória ou do espelho (...) Eu. Convergência esamagadora. Os espelhos reluzem insuportáveis. Gelados. Olho mais do que olho. Olho no olho. Fundamento (...) Não posso andar, os pés roídos de ratos. De noite eles vêm. Ratos reais. Roendo meus pés. Roendo meu sexo (...) mas Algo se promete do cheiro de fruta madura que o vento traz (...) Na solidez da minha solidão, penso as mãos delgadas e enxutas, deslizando na minha pele macia" *


Não entendo como funciona a dialética dos sentimentos inacessíveis, agora prego facilmente o desespero de demonstrar os alicerces da icógnita que sou eu. Claro que é suposto o absurdo do ser sem nexo. Na auto análise diária percebo que estou perdendo a vontade de dizer. A virtude em conceito é "antiquária". É sensível e morre de angústia. O som na imaginação é terra fértil, é mente sã e propósito de criatividade. Normal é que saibamos andar. Mas e se eu quiser correr?

- É inaceitável garoto, diz a sociedade amargurada por não ter força para sair do lugar.

Por qe eu discutiria o que é ou o que não é ético para essa sociedade? Riscos são variáveis, se a atuação decide assumir moralidades que não suportam o instinto natural, animal e feroz do ser tão humano. Porém sinto-me na obrigação de acordar algumas coisas comigo:

  • Bom parar de se enganar
  • Melhor não demonstrar sentimentos (?)


"A criação é permanente no seio do cérebro humano, o sonho é poieses, poesia no sentido original e profundo do termo, e, como o diz poeticamente Roger Bastide, 'se se continua a sonhar, é que a criação não se acabou' ".**


Qualquer que seja a veracidade da informação, desde já subvertida, é bom prejulgar arquiteturas cartomanciais de destinos desencontrados. Quero que os dias passem tão naturalemnte que sejem impossíveis de serem percebídos. Que a monotonia e a mesmice não retornem à inércia e não desafiem os espaços em branco que continuam assim ( )
Ante ontem
voou o gérmen
mais flexível
ontem ante
os espelhos irreflexíveis
ontem inté ante hoje
sacodem-se a visão dos dias


"Tenho andado distraído, impaciente e indeciso. E ainda estou confuso só que agora é diferente, estou tão tranquilo e tão contente. Quantas chances disperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém (...) Já não me preocupo se eu não sei porquê às vezes o que eu vejo quase ninguém vê. Eu sei que você sabe quease sem querer que eu vejo o mesmo que você"***


O importante é divulgar e otimizar o tempo, assim como argumentar o óbvio.



Ilustração :: Vânia Medeiros

* Trecho do livro Mulher no espelho de Helena Parente Cunha
** Trecho de Edgar Morin
*** Trecho da música Quase sem querer composta por Renato Russo

6 de abril de 2006

As mulheres em um fabuloso destino


Em coro são uníssonas. A mais sensata das flores é sem dúvida clarevidente, intacta e delicada. A fragilidade é comum, por isso é muito interessante enxergá-las com os olhos calejados de abstrações. Quando passam, pressionam contra o chão flores coloridas, as mesmas que derramam constante de seus corpos. De idéias porosas à realizações de desejos embrionários, elas são ideológicas desde o ventre. Tedem a inteligências prematuras, mas é um "adultismo" imperfeito, pois são tão meninas as mulheres do fabuloso destino.


"Olha as minhas meninas
As minhas meninas
Pra onde é que elas vão
Se já saem sozinhas
As notas da minha canção (...)"*


  • Frô é passarinho. É minha musa de beleza sensata. É verde. Simplesmente doce e aparentemente saudável. Frô segura a rosa que enfeita seu cabelo vermelho desfarçado de azul. Quando é confusão não deixa de ser beleza. A sensibilidade ela conquista no ar. Ela é passarinho, vôa.

  • Certamente ela se diferencia por ser leve. A maestria do seu movimento organiza determinados sentidos e tem, quase sempre, como consequência o sorriso. Ela é sensibilidade e ativismo. Pintura em movimento, fotografia em mobilidade. Ela é laranja e, sempre energia, não se esquece de correr em mim.

  • Ao canalizar a sensibilidade para um bom gosto, descobre que não é solidão em si. São ambiguidades. As cores do sapato de chita, o carinho espontâneo e a coleção de sorrisos compões seu universo de beleza, de franqueza e de dúvida. Realiza os mais profundos desejos a partir da compreensão dessa dúvida e da atenção pelos homens e pelas mulheres. Se desgruda de sua pele com intensidade e inteligência. Nessa hora ela é azul, mas foi ela quem me pintou colorido.

"(...) Vão as minhas meninas
Levando destinos
Tão iluminados de sim
Passam por mim
E embaraçam as linhas
Da minha mão (...)"*

  • Ela é vermelha por que é Iansã. Por que ela é só sensibilidade. Por que ela é só encontro, só desejo. ela em si é uma ciranda. Quando roda ela é criatividade sempre inteira. Ela é exata. Ela é uma canção. Na verdade é uma dança, um gingado. Ela é olhar e detalhe. Ela que se vale e se completa no menino que fica na praia. Ela é de lá, do mar. Ela roda, ela faz girar. Ela é menina e romântica, ela é vermelha.

  • Quando apareceu foi sorriso espontâneo. Foi uma voz doce, é uma voz doce, é um ser doce. Quando está aqui é um carrossel de brinquedo em movimento. É a todo momento, é um sentimento, é dona do vento. Quando não está em matéria, emociona de lembrança. É sempre bonança, é um mar de infância, é a semelhança. É amarela clara de verdade e discordância. É uma linda dança, olhar e esperança, é coração e lança, saudade de criança.

  • A parte mais interessante do amor é saber que ele é intenso. Ela é intensa. Ela é amor puro. Interessante é perceber que , de suas asas de fada, urgem interessantes vôos coletivos. Por enquanto ela é arte e, como se não bastasse, provoca sentimentos profundos de movimento. Ela é marrom - cor de barro molhado de chuva. Ela é beleza pura. Uma mistura singular de concretude e abstração. ele me diz que ela é fogo de artifício. E é só beleza quando ela explode em mim.

"(...) As meninas são minhas
Só minhas na minha ilusão
Na canção cristalina
Da mina da imaginação
Pode o tempo
Marcar seus caminhos
Nas faces
Com as linhas
Das noites de não
E a solidão
Maltratar as meninas
As minhas não (...)"*

  • Transversal, magistral, flor, suor, poesia, complexidade, música, água, paradeiro, singeleza, sorriso, compreensão, emoção, altitude, romance, nuance, transdisciplinaridade, mato, fortaleza, lealdade, verdade. Ela é violeta. Reciclagem, imagem, ótica, alteridade, fantasia, limite, pós-modernidade, cachinho, óculos, fotografia, luz, ilusão, sim, interpretação, equilíbrio, adição, maquiagem, cinema, paciência, liberdade e paixão. Ela é palavra?

  • Parafraseando Marisa (Monte) ela me deixou satisfeito. Ela me faz feliz. Isso se deve a sua inconfundível tranquilidade, sua absurda morosidade, sua simplicidade complexa. A sua roupa é uma composição mítica, revela tamanha delicadeza. De repente, surpresa: Ela não é mais a mesma. Sinto é pelo encantamento instantâneo. Sua paz em fúria revela um tom de branco. ela é boneca, quicá incompleta. Ela é linda.

  • De certo, tudo começa pela raiz. Pés plantados no chão, barro, memória. Quando se ergue é caule. A espinha ereta não está presa, basta ver sua dança, folhas vistosas bailado ao gosto do vento. Ela é cor de mel. Sim, ela é pura seiva, é samba de Noel, é amor de Chico. De repente uma luz brilahnte no céu. A grande flor desabrocha, tudo é muita energia nesse instante. É seu sorriso, é girassol.

"(...) As meninas são minhas
Só minhas
As minhas meninas
Do meu coração"*

(texto em homenagem a algumas das mulheres do fabuloso destino. Há outras...)

* Música As Minhas Meninas de Chico Buarque

5 de abril de 2006

dois ... são dois!


Eles estavam sentados. Um de frente para o outro. Assim, sentados, olhando para o outro. Um deles, apoiado sobre a mesa, alisava tranqüilamente o cotovelo. Na verdade estava com os nervos à flor da pele. Estava pensando que o rosto perfeito, a boca perfeita, o nariz bem feito, a cor da pele, atraia-o com paciência. Isso que era canção, pensou sem dizer uma palavra. Aliás, seu pensamento eram só palavras. Devagar, conseguiu balbuciar algo que fizesse com que o outro levante “vagarmente” o rosto com olhar cansado, mas sincero. Foi contemplação naquele momento, idealizações! Eram naquele momento protagonistas em um não-conto de fadas. Estavam sensíveis ao toque. Roubou-lhe sorriso, pensamentos equivocados, expressões de compreensão e paciência. Foi-se formado um pacto ao som suave do samba, que controlava o ritmo do pandeiro como se fosse a disritmia do coração. Havia uma grande possibilidade de complementação de si no outro. Quem estava de cabeça baixa na mesa e levantou o rosto de forma singela aproveitou o ensejo para dizer-lhe de forma delicada:

“Sou seu Colombo, seu coração
Sou seu canário, eu sou seu dragão
Sou seu São Jorge, seu mau freguês
Sou seu vampiro, seu amor cortês
Eu sou seu Hitler, seu Peter Pan
Seu João Batista, eu sou seu Tarzan
Sou seu palhaço, seu urubu
Seu cavalheiro, seu Danúbio Azul
Sou seu maestro, seu Frankeinstein
Sou seu boneco, eu sou seu nenem
Seu mascarado, sou seu Romeo
Seu labirinto, eu sou seu Teseu
Sou seu”*


Entregaram-se desde então. Aprenderam a se admirar pelo mínimo que os unia. Eram ricos dessas coisas de se acharem infantis. Passavam maior parte do tempo a brincar. Com as pernas, com o umbigo, de lavar pratos, de escolher o canal da televisão, de chegar a conclusão de qual música de Chico seriam a música deles. Ás vezes eles eram ridículos sim, mas eram crianças. Se entregaram de deitar no colo, de receber telefonemas no meio da tarde apenas de saudade. Para dançar bastava um disco de Ceumar tocando a mais bela das cirandas. Dançavam até a exaustão. Era um baile. Quando a exaustão chegava, os corpos suados estavam debruçados sobre o outro. Um cantarolava, em um microfone improvisado com as mãos, mais canções de paixão. Os olhos cansados adormeciam lentamente. Mas ele lembrou de uma coisa muito importante pra dizer enquanto voltava lentamente a dançar:


Sou sua luz
Sou sua cruz
Sou sua flor
Sou sua jura
Sou sua cura
Pro mal do amor
Sou sua meia
Sou sua sereia
Cheia de sol
Sou sua lua
Sua carne crua
Sobre o lençol
Sou sua Amélia
Sou sua Ofélia
Sou sua foz
Sou sua fonte
Sou sua ponte
pro além de nós
Sou sua chita
Sua criptonita
Sou sua Lois
Sou sua Jóia
Sou sua Nóia
Sua outra voz
Sou sua
Sou sua
Sou sua
Plenamente
Simplesmente”**


Então era margarida que coloria o cheiro que, agora, o ar desprendia. Um aroma excelente, sem preocupações maiores. Continuavam dançando. “Fechando e abrindo a noite inteira”***. Tinha alguma fome conveniente? Não havia resposta até o sol raiar. Maliciosos, carentes, afáveis. Beliscavam petiscos até o sol raiar. Um escutou baixinho no ouvido:

"Menino, amanhã de manhã
Quando acordar
Quero te dizer que a felicidade vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens

(...)

Menino a felicidade
é cheia de an
é cheia de en
é cheia de in
é cheia de on

Menino a felicidade
é cheia de a
é cheia de e
é cheia de i
é cheia de o"****


lustração :: Vânia Medeiros

* Música Intimidade de Adriana Calcanhotto
** Música Sou sua de Adriana Calcanhotto
*** Trecho da música Preciso dizer que te amo de Dé, Bebel e Cazuza
**** Trechos adaptados da música
Menina, amanhã de manhã de Tom Zé

27 de março de 2006

de ponta cabeça!



Ela me pintou colorido. E tudo ficou colorido a minha volta. De certo ela queria me mostrar que existem cores em mim que talvez eu ainda não reconheça. Tudo a minha volta ela pintou colorido e eu, insensato que sou, me conectei a um símbolo máximo de minha mudança: perceber que tudo em mim é diverso. Isso me faz menos egoísta, aloja-me na condição de contemporâneo, quando no me ver na diversidade descubro que sou produto de composições.

"É uma índia com colar, a tarde linda que não quer se por. Dançam as ilhas sobre o mar. Sua cartilha tem um A de que cor? O que está acontecendo? o mundo está ao contrário e ninguém reparou"*

Quanto a me parecer desconfortável é apenas uma visão. Ainda não descobri por que, mas minhas pernas, mesmo dobradas, me sustentatm. Quando esse mistério for desfeito talvez até entenda por que sempre vejo as coisas de forma tão diferente. O que sinto é que estou em uma posição tão revolucionária frente ao mundo que não me conecto mais com as formas banais de estar por aqui. Por enquanto não há reflexos, mas agora é o que menos importa. Parece que os tons a minha volta dizem muito de mim. Acho até que fui feito por encomenda, que falo por encomenda, mas minha missão ainda não descobri.

"Os homens são anjos caídos que Deus mandou para a Terra por que botaram defeito na criação do mundo (...) E eu voava alto por que tinnha um grande par de asas (...) Os homens aprenderam com Deus a criar e foi com os homens que Deus aprendeu a amar"**

A impressão que se tem é de que meus olhos estão mais cansados que qualquer parte do meu corpo. Agora é ínfima a vontade de sair do lugar. É necessário estar rodeado desse colorido tão intenso (que não devia mais me enganar).

"E como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora. Ah! eu quero chegar antes, pra sinalizar o estar de cada coisa, filtrar seus graus"***

Boa parte do que sou é bem versátil. Minha alma neste território é translocada pela tmanha imaginação dela. Em seus olhos, deixo de ser tão abstrato. Eu poderia estar no espaço cinzento e sei que, sem graça, sou só preto no branco, mas ela me pintou colorido.

Ilustração :: Vânia Medeiros

Texto em homenagem a ilustração "De ponta cabeça" de Vânia Medeiros.

* Trecho da música Relicário de Nando Reis

** Trechos da poesia Anjos Caídos de Lirinha

*** Trecho da música Esquadros de Adriana Calcanhotto

21 de março de 2006

anti-biografias!



Não foi de repente que ele se deu conta de que passeava frequente pelos caminhos tortuosos que o levaria a lugares inimagináveis. Não foi por acaso. Nem é surpreendente saber que ainda levará tempo (e muito tempo) em que ele continuará andando sozinho. Os pássaros, as borboletas e tantos outros bichinhos voadores já se apaixonaram e estão felizes com as flores de outros jardins.

Ele não deixou de ter asas, nem está satisfeito com a idéia de nunca ter correspondências, mas aceita de bom grado o carinho que lhe é oferecido.

"Você me deixou satisfeito

Nunca vi deixar alguém assim

Você me livrou do preconceito de partir

Agora me sinto feliz aqui

Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho

Vivo tranqüilo, a liberdade é quem me faz carinho

No meu caminho não tem pedras nem espinhos

Eu durmo sereno e acordo

Com o canto dos passarinhos

Eu durmo sereno e acordo

Com o canto dos passarinhos"*

Quando olha para fora de si, verdejantes e sinceras ondas lhe acometem do desejo de ser um todo partido. Seu cotidiano é cercado de afeições e experimentações estéticas. Tudo isso enquanto sua mente produz e cria gigantescas obras insalubres difíceis de serem percebidas. Vem e vai. Não tem dificuldade de sentir, apenas de movimentar-se. Correu, ficou embaixo da árvore esperando a chuva passar, prestou atenção no latido do cachorro, nos pneus dos carros, nas pequenas abelhas, no que elas estavam pensando sentadas esperando o ônibus chegar.

"Eu sou qualquer imagem plástica e superficial. Soldadinho de brinquedo marchando para o não-sei o que. Estória mal contada por uma velha desdentada. Sapo dissecado esperando pra chover. Frase feita edificante para surdos sem sorvete. Nada certo a curto prazo é um pouco do que eu sou".**

Possuia um andar no todo elegante. Impressionar a visão, mas, de certo, é que nunca encantou. Pelo menos dá para perceber articular os maxilares similando construções verbais, quase fala, soletra. Observou que o menino que há pouco estava brincando com as pedras do labirinto tirou a camisa, abriu um sorriso e correu. De novo era só ilusão, continuou a caminhar sozinho. Tinha se perdido no emaranhado de castelos construídos na imaginação. Não tinha mais tanta coragem, nem era mais tão ingênuo ou verdadeiro. Pelo menos se reconhecia na identidade:

"Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidas se tornam desvinculadas - desalojadas - de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem 'flutuar livremente'. Somos confrontados por uma gama de diferentes identidades (cada qual nos fazendo apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes de nós) , dentre os quais parece possível fazer uma escolha"***

Quando ele estava parado naquele lugar pedi para que não se descrevesse. São inúteis auto-biografias.

Ilustração :: Vânia Medeiros

*Satisfeito - música composta por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e carlinhos Brown

** Texto de Johnny Kagyn - http://www.infinitoparticular.blogspot.com

*** Trecho do livro "A identidade cultural na pós-modernidade" de Stuart Hall