29 de agosto de 2013

Ela era arara azul e pavão no rosto



O corte no asfalto tem gosto de cor. Uma cor agridoce e no final azedinho. Tão acentuado seu paladar que parecia carinho nas papilas gustativas em forma de intensidade de luz. É, porque cor é luz também! Isso se sabia pela reação que teve ao ver o chão: LAMBEU! Pôs a língua naquele lugar descartado como uma forma de protesto pela falta de qualquer coisa que fazia caminhar naquele lugar. E isso, no final, era desejo de ter arco-íris na boca e operou pela textura que tinha aquele prazer.

Ela desfilava uma cabeça de pena. Isso mesmo, uma cabeça penacho exuberante. Era um pavão com cauda na cara, exposta, maliciosa e colorida, tal forma parecia gostosa de tão vivas que eram os tons do seu rosto. Seus olhos eram dois grandes círculos formados no penacho de arara azul.

No fundo, se empenhou na virilidade desprotegida. Rebolava distraída como se os quadris deslocados fossem impeditivos para o caminhar. Parava em qualquer lugar para cuspir fogo, pintar postes ou suas unhas, ouvir o mar desformar ondas

Seduzida pela rua, comia a passagem tão irreal que gananciava tristeza em prazer. Como cores em gostos!

Ilustração: Flávia Bomfim

20 de agosto de 2013

Cartas a um jovem terapeuta (Parte I - sobre o sexo)



"Me ocorria que era uma divindade o corpo. Um universo de milagre entrelaçado pelo medo e pelo desejo. Porto estratégico de vontades, ele ditava as regras da consumição, da excitação. E enquanto tateava pela inexperiência, ocupava-me de saber se esse tal que eu possuía alertava outros pelo exalar sutil de convocações, pela sua forma moldada para olhos alheios ou pelo jeito que se deslocava no universo. Só assim, claro que também com as memórias e marcas dele (o corpo), poderia merecer o toque e o gozo. O pintava, o comia feito ruptura, alimentava ele de vícios e de vazios, além de saborosos afetos, claro. No meu caso e na maioria das vezes sempre o achava imperfeito. O problema foi acha-lo demasiado incapaz de atrair outro. E por isso muitas mudanças foram feitas. Sinapses reestruturadas, alegrias pré-moldadas, corretivos desenhados especialmente para tal coisa. E vamos testar. Levei-o a bailes para que mostrasse desenvoltura, levei a conversas que estimulasse a construção harmônica de posicionamentos com conexões bem encaixadas, argumentei por leve o levando pelas caixas de bits (algumas vezes iluminando-o para fios). Antes de dizer-lhe rechaçado, admito que o enchi de esperanças de que havia desejo puramente em descobrir-lhe. Posto que de experiências, notou-se sua incapacidade de interessar. E tudo que lhe houve de toque até aqui resulta em ansiedades e vontades desproporcionais. Acometeu-se de uma vergonha assustadoramente prazerosa e não me libera sem restrições pra agendar novas tentativas. Melhor que não as tenha!"

19 de agosto de 2013

Sold out



Comprei duas doses de tédio no supermercado vizinho à minha casa. Desdenhei algumas vezes da minha condição de procrastinador, relutando contra a preguiça de mudar minha postura sobre mim mesmo. Afinal, para eu descobrir se algo tinha saído do lugar no mundo lá fora, no mínimo tomaria um banho, escolheria uma roupa apresentável, me veria melhor. Tudo isso às custas de uma visível revolução que nesse momento se chamava deixar pra lá as cobertas que me protegiam do frio e a cama que me davam prazer em me ajudar a reclamar de mim com sabedoria de mestre. Pois então, decidi comprar uns quilos de alegria e até mesmo quem sabe uns tortos litros de desejo.

O que faltava de libido, ardia de uma esperança fatídica de que eu não mais soubesse os caminhos de fazer tudo da mesma forma como fazia anteriormente. Até busquei promoção que me animasse. Até pesquisei texturas, sabores como projeção e impulsionador. Tava decidido! Abriria aquelas portas para sentir de perto aquela alegria que eu levaria ao caixa orgulhoso. Num súbito pensamento grotesco afirmei pra mim que o preço que pagaria pela peça adquirida seria muito maior que a do arrependimento do gosto não absorvido. Era notório que me perdia na escolha, mas eu andaria alí sem me proteger.

Desci ofegante as escadas para não topar com outro possível comprador nos elevadores. Tudo enlatado, talvez. Eu mesmo nunca deixei de ser. E depois, prateleira por prateleira fui seduzido mais uma vez por caras sensações de conforto sem desfaçatez. Comprarei, pensei. O risco nem era tão grande assim. Ao que pese o rótulo que eu mesmo produzi, tinha mais uma vez consumido um punhado de ilusão aparente sem prazo de validade a vencer. 

No final, se existe um desses pra vender, quem não valia nem um centavo era eu. Que aliás nem teria comprador. 

31 de julho de 2013

Dislexia emocional



"Estava a te observar", disse ela a empenhar um tom reflexivo. Continuou: "e parece que mesmo que não assim o fizesse com tanta frequência, me parece que, repito, mesmo assim, conseguiria diagnosticar esse estimulo repetitivo que te acomete, seja para gozar de si, seja para se sentir equitativamente belo".

Eu só ouvia, atento!

Foi então que gritou impiedosamente: "SUA PASSIVIDADE ME AGRIDE!" E retomando com mais calma, "não vê que esse castelo de cartas tende a desmanchar como de tantas outras vezes? Vai me dizer que tolera o descaso com o carinho que eu poderia te dar se não fosse essa sua irreversível precisão de solitude...". E parou para ouvir qualquer reação

(...)

"Há alguma liberdade nessa sua falta de transgressão? Deve haver um prazer inóspito em ser envolto em ciclos onde a carência afetiva impõe lugar de destaque na reação frente a qualquer ato de carinho alheio. Não vê que esse é o pior tipo de traição, a dislexia emocional ancorada num ridículo mal estar com a autoestima?". Ela estava decidida a virar o jogo nesse momento, como se quisesse dizer que em determinada idade as desilusões amorosas não passavam de inconsequentes imaturidades.

Não queria ouvir essas palavras torpes. De forma alguma via legitimidade nela que já irritadiça. Qualquer remediação para viver é uma ilusão vexatória, ele pensava! 

"Há o amor em mim?", perguntei quase chorando. Ela parou de falar!

Foto: João Milet Meirelles

30 de julho de 2013

Atraídos pelo sonho


(...)

Corre, vem pros meus braços feito criança em sorte.

E assim o sonho rebateu o diálogo:

Ele - Não mais faz sentido a ilusão de querer, sobretudo em tácito presente de compaixão. Lânguido, não sou mais tão disperso quanto deveria...

(interrompeu o outro)

Ele (outro) - Calma aí, não me peça nada além do que você mesmo não pode me prometer. Veja só esse arrepio todo da pele, signos insolentes de um desafio demarcado pelo carinho. Vê se pode voltar atrás assim de tudo!(?)

Ele - (esbaldando-se em gargalhadas) As palavras nem sequer parecem tão risíveis, mas eu estou a te olhar profundamente nos olhos e interpretar um futuro sem sentido.

Ele (o outro) - Isso só pode ser masturbação mental. Um rodopio imerso em um contingente solitário de vícios passados, nada mais. Só pode ser desejo, só pode.

Ele - E daí que fosse? Eu não quero a sorte natural de braços apertados frente aos meus... quero a pluralidade da paixão sobre minha alma soberba e impaciente, tentando raptar qualquer que seja a vontade plástica de suas entranhas.

Ele (o outro) - Como se eu realmente fosse livre...

Ele - Como se você optasse pela paixão desmedida usual. Se deixasse levar pela rasteira do passo em falso que é o encontro.

(Tinha uma outra pessoa, Ela, que não conseguia falar, mas que atentamente se deixava levar pelos argumentos)

Ele (o outro) - Eu sei, eu sei! Minha angústia é assumir que estou melhor do que antes, mesmo sendo antes o melhor pra seguir. Não dá pra disfarçar.

Ele - Você está como eu.

Ele (o outro) - Eu estou assoberbado, na verdade. Não tenho mais tanta voz, tenho confissões intermináveis e desabafos constantes a produzir. Nesse caso, acho que não sei mais se me atrai o novo.

Ele - Nesse caso, meu amor, o que me atrai é um novo par de calçados comum. Uma boa cerveja gelada e um pensamento complexo sobre as coisas simples. Me atrai você.

Ele (o outro) - Me atraia!

(Ela continua a ouvir atentamente, e só.)

Tudo isso, como se fosse sonho....

Ilustração: Vânia Medeiros

29 de julho de 2013

Cheiro de parque [ou magnetismo em tato]



Um gosto de verde me pegou. Leve e refrescante sabor me apalpava os sentidos. Ora, se a brisa do mar amparava os arbustos, de certo era daí a sensação de apego a matas tão vivas. E foi assim que foi, os dois alí amparados pelo vento, vertiginosamente sutil em desejo. Era ali um entrecorto, um desequilíbrio, um olhar atento e um amparar firme. E ainda que tivesse sentido tudo aquilo, nada poderia ser descoberto senão o poliamor, um amor múltiplo transfigurado em corpo tomado de ardilosa sensação.

Foi um cheiro de mato, um lago tão extenso quanto a visão poderia alcançar. Foi alí nessa paisagem de janela que um braço tomava o outro de prontidão, sem soltar, com seu único desafio de prender a chama acesa para que não afetasse o limiar externo. Tudo isso em pleno arrebol, assuntado.

E então, ponto por ponto de desejo os prendia. Embebecido de doce vinho fresco, partilhado de carícias que entoavam sons abundantes. E então fez-se o toque, como parte de um alvoroçar. Descobertas sensoriais, deslumbres desformes, corpos em retidão malemolente, exalando odor de suor e toque. E antes que pergunte por eles, eram dois, ele, ela e tantos outros, um por dentro de cada um, como um só!

O ápice apontava para a descoberta de pontos de sensibilidade. Se apressava para que apontar para o lugar certo em tato colaborasse para um contorcer e arrepio do corpo de outrem (visto que eram tantos alí incitados). Cruzou-se as pernas em coreografia, desfigurou golpes de prazer, ampliou os toques em desalinho constante, desgovernou sentidos. E o olfato agora mergulhado em literaturas e chuva artificial pedia gozo deslumbrante e gosto de pêra espumando todo corpo.

E então, como se um magnetismo viril acompanhasse os sentidos, tava alí, no caminho com cheiro de parque e lagoa em poros.

16 de julho de 2013

As Pintantes


Eram disformes em solidão. Ora, para quê tanta envergadura e tédio, se se podiam mais obtusas? E foi assim que acolheram pedras e poeira no cotidiano. Uma mais que a outra, de fato, sem perenidades vacilantes, sem agonias ou vícios falidos. Um dia se embrenhou pelo campo de matas irreconhecíveis como se não tivera medo, mas era mesmo um amarelo ouro de cidade sitiada que a prendia. Uma sem medo, como se fosse um, uma travestido de linguagem. Outra "sujismunda" de rudes alegrias pululantes. A outra mais normal mesmo, sem saber tanto de si.

Tomou o rumo fora de mim as três, mesmo que uma delas fosse homem. Era como se eu não fosse tão elas, personagens principais de uma trama de veludo. Estampando gravuras com sobreposição de imagens cortadas sem rito, sem pressuposto. Um descompasso de linearidade, sem intenção, com problemática!

Elas ovulavam juntas, como se o desejo proeminente de um tato hormonal sobressaísse sem cabimento. O argumento era de que não tinham nada em comum, além do tesão ao mesmo tempo. Repito, uma delas nem ela era como queria que fosse, até ser. Mesmo ovulando. Mostrou detalhes do seu sexo para provar-se indecisa e as outras sarapintavam as esquinas da ilusão de ser. E riam, absolutamente sem nexo.

Um dia, foram as três imbuídas pelas dúvidas ao mesmo caminho do traço. Uma mais veloz que a outra. Pelo caminho, ergueram torres de sustentação, riscos em um verde singular, tecidos rasgados com as mãos de forma a deixar um corte assimétrico por vontade, pinturas no chão da cidade e até música feita de sabor de coco e umbu. Essas mulheres que pintam me comovem, pensou o senhor à espreita. E, quando cansadas, continuaram a produzir aquela sensação de desapego.

Não tinha final, mas se assim o fosse, três desenhos corromperiam nossas visões, delas!

Ilustração: Vânia Medeiros

25 de setembro de 2012

Cama de gato [ou Dois!]


Foi um contratempo, um semblante desengonçado, um ligeiro e súbito instante de horas a fio. E então tranquei a porta com cuidado, arrumei o leito viril para voce deitar. Por teus destemperos e suas aflições, e por dentro deles mesmo, nos lambuzamos de malícia. Sua astucia não me incomodava, nem sua filantropia desmembrada de sentido. Acontece que tinha ali o agridoce desejo de ser eternamente o mesmo lugar de emoção. Dois!

Dai, a delicadeza agressiva toma conta e ambienta o calor que vinha de dentro, mesmo rangendo os ventos da cortina. Subestimado pelo tamanho desafio apropriou-se até mesmo das estranhas formas de estar. Sem calculo algum de massa, de estrutura. Logrou-se então vencedor em nenhuma competição, apenas do desejo saliente.

E fomos assimétricos que estávamos aos poucos nos desfazendo em suspiros ou sussurros (até mesmo no intercalar dos dois) abstraindo o vento que rangia a janela. Esquecíamos até a elocubração a despeito de haver amor nesses poros abertos ou se o instinto atuou ali naquele instante.

Foi quando adentrou o âmago sem pestanejar, pedindo que a carne voraz destroçasse menos a inquietude, pois, afinal, não acreditamos no pecado e desalojamos a culpa dos nossos peitos nus. Sobrepôs corpo a corpo, fluido a fluido, como se desistisse do ápice para que ficássemos assim, um e outro, dentro.

Inspirou o uivo externo e ficou ali, quietinho pra olhar sem vergonha nos meus olhos. Dormir não nos interessa, pensou. E aquela imagem tinha permanecido outrora desde a noite de ontem. Nem lembro mais se havia deitado outros por ali e de manha cedinho, aliança em punho e a espera por mais uma noite onde habite mais que um. Dois!

6 de setembro de 2012

poema do desapego (sem sentido)















E então os dois eram apenas um em vácuo
era uma única esperança
um único verso 
uma única solidão temperada de desassossego
era a sorte vazia
a intensidade camuflada
era a noite sem sentido

E então não havia conexão em duo
pois 1 + 1 não podia se somar
havia um parêntesis alocando o outro
se sobrasse, talvez teria uma antítese
equação sem sentido

E então tinha o medo
a vergonha do outro
o saber-se só sem estar tão só
sem coragem de dizer o não
sem memória de dizer da ilusão
e para a tristeza
sobra a criatura sem sentido

E então mais uma vez
titubeia em lampejos de vontade
e lembra que não há eco
não há reflexo possível
(talvez uma refração de leve)
para por limite ao encontro
para sonhar o impossível de casal
dormir pra esquecer
que mais uma vez escorrega 
na irrequieta e sintomática
criação de uma paixão sem sentido

Ilustração: Vânia Medeiros

20 de agosto de 2012

Fabulosas Iscas do Futuro #2012

Audaciosa. Nem esse adjetivo pode aferir tamanha arrogância e alguns até dirão prepotência por parte daquela pessoa. Dito isso, podemos seguir em frente com sua descrição. Ela era impositora de um elevado desbunde não pela proeza no andar, no passear tacitamente pelos lugares de pedra cotidianos; também não se pode dizer apenas que sua astucia se daria pela proeminência de sua rigorosa predisposição para a crítica do que lhe era desproporcional no mais comum; ela detinha a vigorosa propulsão do poder, invejada por praticamente todos, por que tinha um RABO!

É isso mesmo. Ela tinha um RABO, uma cauda, uma extensão de si mesmo, ou o que queira chamar aquele filete descomunal que que se desenrolava de tuas ancas. Olhando bem, com aquela enorme cauda, difícil era identificar como ela, já que um homem evoluído sempre quisera ter um RABO pra se distinguir dos demais. E isso desde sempre. Não era rainha quem usava um enorme tecido para atronar um império, era ele. O que confunde é que até hoje, ela usa cauda pra ser distintas das solteiras, geralmente, na hora de tornar-se esposa.

Porém, voltemos ao que é principal. Ele tinha um RABO. E era tão escandaloso que os olhares eram atentos passo a passo que dava. O principal a dizer era que a cauda era mais um membro do seu corpo e isso lhe dava poderes para controlar seus movimentos em conjunto com os demais membros que tinha. Então, ao andar, o RABO passeava insolente pelos caminhos por ela desfilado. E com maestria repousava quando de sua parada. 

Ferramente de ousadia e beleza, o RABO o servia como uma espécie de captador de olhares atentos. Mais de desejo do que de curiosidade. E assim era pela rua, quando a pessoa que o tinha conseguia quebrar obstáculos com a força de uma cauda nobre e certeira. Ah! ter uma cauda era encantador. Objeto de ternura e de estranheza ao mesmo tempo. Pari passo, devastador. Não haveria uma outra criatura com tal poder senão esta que desfilava em praça pública um RABO. Cooptava até os corações mais fanáticos pela desfalecência das hierarquias, já que também estes gostariam de tal façanha.

E o que era a cauda, vista do ângulo solene da destemperança? Era o RABO, uma esperança de um apuro da revisita do ser humano à cordialidade intensa. E então, continuava aquele ente a rodar mundo com sua magnitude cabalística. Um homem em uma mulher e seu RABO.

para Vânia Medeiros

Ilustração: Vânia Medeiros*

 *assim que ela o fizer

14 de maio de 2012

Linhas e Pontos



Duas linhas não substituem o ponto, pensou constantemente entre tremores e desejos.

E era assim que estava, saliente dos vícios, cumprindo os prazos de todas as inconstantes vontades. Não se continha, cuspia no prato que nunca o deram para comer bem. Rasgou o leque em desterro, desafio, territórios de agonias impagáveis. Era um incompreendido, pensou os outros que não conseguia entender suas incoerências.

Era uma ave, com traços incontáveis e coloridos. Era uma mulher, com volúpia, com silhuetas nas janelas, com arte de fenda entre as pernas. Era ele quem assolava a vagareza das decisões alheias, era um touro charmoso, sem cabelos, com astúcia e uma cor de pele brilhante, saltando aos olhos.

Dois pontos constroem uma linha, bravejou sem identidade.

Deixou-se fotografar na tela, pintas eram vistas, um certo volume entre as pernas. Sem rigidez e com malemolência, ria de sua falta de paciência com o outro. Não o tinha em desejo, tinha em fraternidade, mas gostava de ser bajulado pelo traquejo, pela ilusão.

Gozou de si mesmo, insensível que estava, desligou-se da câmera que o acariciava como um símbolo de que não há conexão, não há apropriação do corpo alheio, nem em imaginação. Ele se bastava, era ela naquele momento de tão feroz. Era ele naquele sorriso tímido. Era o outro que o tinha em carícias, era a outra (o outro) que perdia sua dignidade pelo tempo em  constância.

Dois pontos e duas curvas irão se encontrar, bocejou insensato...

Foto: Caio Barbo

12 de abril de 2012

Ele, o peixe!

Andava pelas ruas em ritmo descompassado e sem sentido único. Disperso, exibia dentes cerrados, afiados na direção do seu desejo agressivo de produzir, nem que fosse sonho. Animava as sensações com o jeito de peixe, escamado de traços em contrastes de preto e branco. Quadros, retângulos disformes, cores preenchidos em tons opacos. Peixe-monstro, sem ruídos e com segredos.

Voava por um céu colado por pedaços e recortes de revistas, saturados e com marcações de símbolos sem significado original. Ainda continuava a dormir em chita fina de algodão, com fiapos desordenados. Seus olhos eram duas bolas pretas com um rabisco branco desenhado para olhar com vontade.

Não era nenhuma sereia, pois não tinha metade humana, apesar de aquele peixe voador ser um homem incompreendido, rouco de salivar por outros homens e mulheres, todos tão belos que sempre o ignoravam. Nem medo ele produzia em outrem, aberrações já não mais eram novidades em épocas de normatividades descartáveis, sugeriu ele para aliviar sua tristeza.

Peixe pensante, homem escamoso, tanto fazia! Mais importava entender razões em sentidos e desejos inconfessáveis dentro daquela pele e respirando por guelras. Naquela cidade aquário, era possível que fosse mais do que imaginação.

Ilustração: Vânia Medeiros

25 de março de 2012

Dos vícios e outros caminhos...



E andou mais alguns minutos de espaço certo que curado de desatenção, certo de que experiente em desilusão, escolheria tal caminho de não olhar as paisagens mesmo rasgadas. Vultos expressionistas que sempre o encantara. Mesmo concordando da não existência de antídoto, decidiu continuar, inclusive por não ter coragem alguma de desistir. Estava mais forte, tinha trabalho a realizar, cortar as arestas, preparar os pés, embelezar o caminho com as pegadas sincronizadas moldando o chão de terra.

Era mentira. Era uma verdade tão incólume que parecia real. Tão ilógico. Então, encantado com uma nova visão, querendo deixar a estrada solitária, embarcou na corrente sombria e iluminada ao mesmo tempo. Em princípio a esperança o inspirava visão de cores atraentes. 

Mas era simples olhar pra trás e perceber que construíra um falso trajeto, daqueles que só existe em imaginação.

A paisagem continuava lá, inalcançável, pelo menos pra ele, identificado por ele mesmo como um tal sem possibilidade de rumar outras vias. E sim, sedimentado em razão, sabia que tinha que sublimar o amor como paisagem, era algo a se fazer a duo e ele não conseguia ser mais do que um só. 

Perdia o fatalismo para encontrar os velhos trabalhos naquela antiga estrada que pelo menos o fazia caminhar em alguma direção. Mais arestas pra cortar, mais respeito aos pés, mais caminho pra embelezar por si.

21 de março de 2012

O pintor destraído



"Me perdi mais uma vez, mesmo tendo a bússola apontada para o caminho. Insatisfeito por andar sempre só, me entranhei naquela selva árida onde o horizonte turvo mais me parecia estradas reluzentes. E caminhei insensato, inadvertido. Me feriu o tempo, me humilhei pela falta exacerbada, pelo exagero, pelo drama. Infortunado, que sou, tinha que entender que era mais um passo em falso, mais uma armadilha própria. Queimei as folhas em volta por ciúme do tom de verde ruborizante, deixei me furar pelo espinho daquela flor pra sentir o sangue derramando. Barroco, intransigente com as criatividades, míope estava de uma desavença endógena. Me perdi e não sei aonde foi que larguei a sensatez, a coerência. Pois sabia da minha perda e dos motivos. Não sei como voltar e como criança tenho mesmo que chorar de desesperança, orvalhando o drama cartesiano pelos poros destraçalhados. Um ritmo brega, rasgado, uma balada sem cerimônia*, um descontentamento. E eis que assim estou. E construo essa arte piegas, arvorada em desejos imagéticos de me convencer do contrário. Estou no caminho certo da perdição, queria eu", trecho extraído da carta de intenções do grande pintor barroco** do século XXI, que se esconde em fantasias baratas e palavreados inconstantes. 

Autor desconhecido.
**sem prejuízos ao barroco como escola artística.

19 de março de 2012

Choras?





- Você saberia a tal resposta? - Perguntou alguém (inter)ferindo (em) seu pensamento
- Não, seria desgastante demais deixar as perguntas. - Respondeu achando que enganava a si próprio
- Pois então se deixe questionar. A primeira das dúvidas vai: "é fácil cair de amores, de pensamentos e vontades de outrem e continuar sozinho?"
- Não me farás vulnerável com essa piadinha tortuosa, meu caro. Sei inclusive quais as vicissitudes de seus argumentos falhos. Não obstante, continuo afirmando preferir as dúvidas.
- E por que choras então?
(...)


Não se ajudou por um momento. Mais agendamentos de cordialidades, mais indelicadezas com seu reflexo. Caminharam até a porta e desligaram a luz.  Vai um ouvir as sonoridades descompassadas e vai outro tentar achar uma brecha no barulho. Enfim, concentrado em arranjar perguntas mais evasivas, prefere a arte. 


Em tempo, enviou uma daquelas mensagens sem sentido para depois receber carinho em troca. Queria inverter a ordem, mas não tinha amor pra esperar, só as dúvidas que certamente estavas a cultivar.


- Perguntarei o quanto for preciso. Quero meu passo de dúvidas, quero a liberdade em teus braços.
- Obrigado, respondeu sem pensar.


E se entregaram ao sono, ele e seus pensamentos.


Foto: Paulo Lima

O outro em semitom



Andou alguns metros depois que fechara a porta sem solenidades, sem delicadezas. Tinha encontrado uma esquina, dessas onde o romantismo passa longe. Esquina suja de passadas largas, originalmente feita para encontros desavisados, já que o que vai não poderá saber, com visão, quem vem. Era o lugar certo de sentar-se e acolher os desapontos. Mastigar as enfermidades da alma. Ou simplesmente estar para pensar se ir ou esperar que alguém venha. Voltar não. Imaginou uma folha em branco para rabiscos e palavreou em sua mente alguns destinos torpes. O desafio estava posto: aguçar a insanidade para conseguir respostas pacificadoras.

Aquele exato ponto era o voadouro. Voadouro não é palavra inventada, mesmo que não exista. Vem da língua imaginária qualquer, que alguém já adivinhou antes: lugar de saltar para as nuvens de sensações. As podadas asas de todas as pessoas, forçavam nele passos incompreendidos entre o solo e a cruzada pelos ares. Cadeiras, pássaros, moleques desinibidos. Coisas que não o deixavam fixar cerimônias, alongar perenes satisfações.

Para modificar o pensamento da ancoragem, decidiu continuar a andança. Passou por cores vibrantes reluzentes do sol sem aguçar o olhar para enquadramentos, ouvia pouco os barulhos do pensamento para não se indispor consigo mesmo.

E migrou os tópicos de tempo. Faltava similares para arredondar as anormalidades. Faltava afeto, também. Magro que era, passava com afã pelas azeitadas sensações de indiferenças que tanto procurava. E a sua individualidade era tão gritante que mais parecia uma solidão desesperada, um tal vazio de si que regurgitava, como refluxo. Obcecado pela estrada, lembrou que não tinha como ir e precisou voltar. Estava atrasado, pensava, estava sonhador sem dormir direito.

Ele não era tão velho, era envelhecido pelo discurso, pela hipérbole. 

17 de março de 2012

Das flores nas luzes



Apontada a flecha naquela direção e lâmpadas se acenderam
Correu na mata verde a luz 
No emaranhado de um fundo tal azul
Como as rosas das roseiras mais reluzentes
Abrupta, tal como delicada.

Ora, não me parecem singelas
Mas assusta
Susto de constrangimento

De um olhar sensível
Aponta um relampejo de focos
Antecipando o grito
Anunciando a vida
Amputando o horizonte pelo primeiro plano

E conquistou meu nada aguçado olhar
Singelo, talvez
Pela cor daquele jardim no quadro.

14 de março de 2012

Carta a um futuro amor



Caro, boa noite!


Esta carta está datada por isso mesmo, porque me apareces à noite com um ar de cansaço do dia. Aparece calmo e sem cerimônias para acalmar os ânimos de um abrupto e acelerado pensamento de adivinhação. Tudo parece uma aberração de tão severo, gritante, mas nada seria mais torturante para um olhar ingênuo do que rumores de um amor a porvir. Então, apareces em palavras como poesia concreta, reta, sem muitas acentuações e os pontos pingados de desenho no papel de luz.

Aproveitando a porta aberta, não lhe pedi licença de propósito. Quero que meu amor guardado em parcimônia na espera de outrem seja digno de ser seu em compasso. Rastro decifrável de emoção quando você rir dessa parte da carta com o pensamento: "que loucura tanta vontade". Eu também estou rindo aqui, para dizer que não há intenção do autor. 

Isso mesmo, não há vontade de que sejam recíprocas essas palavras, há vontade de emoção. Mas sei que nem isso se pode desejar. Qualquer que seja o susto, está valendo. 

Argumentei dois ou três coisas sobre o cotidiano para chamar atenção, naquela intenção avassaladora de que a reação fossem signos de cuidado. Aquele prazer do mistério das palavras, aquele talvez ouvir o que ensaiou como resposta na frente do espelho. E riu mais uma vez de tal inconveniência. Ah! Nem está parecendo uma carta de amor com tantos desconfortos, mas não poderia ser de outra forma se não a tocar na obscuridade do desejo alheio para você mesmo.

É por isso que as ideias continuarão entrecortadas por parágrafos tortos. Até porque a carta de amor não vai servir para amor nenhum. Ao contrário, deve servir para o tempo dizer que quando éramos jovens tínhamos uma mania antiga de escrever palavras para convocar nossas vontades de estar junto para mais perto. Um querer aliviado, até mesmo inconfessável, de você e eu. 

E então, muito boa noite, meu caro. Meu caro tempo. Que me ame no futuro, como a você, homem!

Foto: Tiago Lima

2 de março de 2012

Segunda Pele*



Invadiu-me a alma tantinho assim com presteza e sensatez. Nenhuma coerência até então, só desbunde de uma beleza estonteante. Me sambou, com esse verbo que relativiza a condição de ser íntegro, racional. Transportou-me para a leveza imprevisível. Ela, travestida em cores que vibram e se locomovem tão repentina quanto vertiginosamente. 


"solta, vestida de lua na nuvem
dança como se dançasse pra ninguém,
ou só pra mim
ainda bem"**


Tinha exalado tal perfume que envolve e enebria. Cai do céu correntes fortes, novelos de lã em nó cego, rígido e coeso. Brilhantes, salientes, carentes de uma luz possível de tanta paz na guerra de sortes. ora, estava lá a balbuciar cânticos que nada servia, a não ser pra acompanhar seus passos firmes e sutis naquele tablado. Ela me guiava com parcimônia e energia vibrante, tão doce, tão reluzente.


"Ele não é dado pra ciúme,
mas encabulado assume que prefere até que eu não vá.
Digo que meu jogo se resume a um rastro de perfume
que eu deixo nos ares de lá"***


Dançou para minha solidão, como se a recusasse. me tocou em um lugar de segredos com aquele suave voz. Potente, similar a um toque sutil na nuca deslizando para o pescoço e desembocando no coração. Esse amaciado até o momento da instabilidade de sensações. poltrona vazia do lado gritava, mas ela parecia balbuciar no meu ouvido "Você não poderia surgir agora" e eu chorei.


"Eu tava aqui pensando em tudo mais menos você
e achei tão engraçado ter prestado atenção
na sua distraída intenção de me entender
como se já soubesse a chave da minha prisão"****


Daí fui ficar pertinho do seu sapateado, ver trocar uma pele por uma saia rodada de cor. Rodopiou, sorriu na minha frente e esbravejou um samba seguro, um frevo dobrado, curvando-se no final.


"Deixa o mar ferver
deixa o sol despencar
deixa o coração bater, se despedaçar
chora depois, mas agora deixa sangrar"*****


E eu entendi que tinha que deixar sangrar, amado como uma segunda pele.


Uma homenagem a Roberta Sá!


*Nome do álbum e do show da cantora Roberta Sá
**Trecho da música Pavilhão de Espelhos
***Trecho da música O Nego e Eu
****Trecho da música Você não poderia surgir agora
*****Trecho da música Deixa Sangrar

22 de fevereiro de 2012

Carnivália VII


Lá segue a multidão pela coragem que lhe invade o peito. Lá vai a fé! Correndo pelos espaços ermos, pelos becos e ladeiras, pelas liberdades com cor. E foram todos diversos, saltitantes em um salão aberto, verdadeiro, sem eira nem beira, sem amarras. E lá foi com o carinho que lhe é primordial, mas com a vontade de passar saliente, desapegado de âncoras, inebriados. E nós estávamos alí, correndo o perigo de misturar os corpos pulsantes com tantos outros. Vulneráveis a uma tal felicidade instantânea que nada tinha de vazio, ao contrário, do que tinha de efêmero tinha de intenso e absorto. 

De especial tinha aquela magia do som naquele grotesco e brilhante carro que move o asfalto e a vida latente. Ah, esse caminhão e sua potência mobilizadora, inspira tantos movimentos aleatórios e que fazem sentido, alimenta uma tal fantasia até com passos combinados, mas tranquilamente sem roteiros.

E então circulou uma paixão exacerbada pelas veias todas... como utopia coletiva que movia os joelhos de formas tantas, estranho mesmo, acariciados todos/todas por uma emoção admitida, acelerada, com gosto de roda, com a sensação dos olhares trocados e até com aquela saudade e vontade de estar junto mesmo separado. Chame gente do amor e do desejo que nos une em júbilo.

Nessa grande panela do prazer, somos todos pipocas do desejo. Mesmo aqueles sui generis entre cordas retumbantes ou enaltecidos pela exclusividade de ser/estar. Mesmo estes que nunca sentiram a energia da relação entre pares desconhecidos, há que se ter a carne na festa de um e tantos outros. Mesmo indignados, alertando por vaias, ressaca do medo, protestos e manifestações de carinho pela cidade!

E sufoca o peito uma emoção lisérgica, ao pé do poeta, com a poesia dele, com a guitarra  eletrizada, em um encontro futurista do passado. Eles lá e nós nas lágrimas derramadas sob a mamãe sacode nos braços. Foi um absurdo de energia e imagem memorável! E teve mais, teve a brincadeira com os olhos, a malemolência dos corpos, a beleza do tapete branco, a fobica acolhedora, o tato e o paladar, liberdade e libertinagem juntas, o respeito e o calor! Teve um arrastão de alegria sob o céu azul de uma cidade mar, com uma carícia e um olhar que essa terra nos dá e essa cultura nos empresta com magia e cor. Agora, "imagina só que loucura essa mistura"*. 

E então, carnaval há de chegar para continuar com a vontade de povo!



*Trecho da música "Chame Gente" de Moraes Moreira e Armandinho

Pela linda festa de momo, pelos desejos de caretas e paixões! para Carlinhos Brown pelo andar com a gente. Armandinho e seus irmãos pelo pau elétrico dos sonhos. Para Gilberto Gil todo meu amor. Saulo e a Banda Eva com Moraes e Caldas. Para o reencontro com a beleza saltitante do amor canceriano de Aline. Para o cuidado e carinho de Lipe, Vini, Léo Aguiar, Mile, Mariana, Zédi, André e Franklin. Pedro e Richardson pela epifania juntos. Para @s lind@s Álvaro, Valter Tonhá, Munira, Clarissa, Dan Caribé, Ana Camila, Dedeco, Xotoko, Rick, Mino, Vitinho, Raoni, Lucas, Vinicius, Léo, Déia Franco, Melina, Digo, Nilton Correia, Gabriel Braga Nunes e Bianca, povo da Lhama e tantos outros dos encontros pelo caminho. Pelas belezas reveladas, pelos belos recomeços e pelos fluidos de trocas de energia e amor.