17 de agosto de 2009

carta de amor assinada



Santiago, Chile.
25 de maio de 2013.

Meu querido aprendiz,

ando muito por essas noites, comentando fatos livremente. Embora soubesse de mim andante, ainda precisva encarar o fato de que o caminhar não siginifcaria muito sem que viesse consigo a produção dos passos que deixaria legado. E seria total absurdo destinar o momento lírico para qualquer sentimento. Já diria o poeta que a emoção vem depois da palavra escrita e nela contida sem esmero. Portanto, NÃO PROCURO MAIS A BELEZA. Não me faz sentido o bem fazer. O exercício por si só nesse momento é igual ao que poderíamos convocar como sinceridade, esta a única possibilidade de ascensão espiritual. O experimentar como o próprio caminho, a rigidez como a mecânica do dar passos, a árdua e voraz missão de andar.

POIS QUE SE INSTALE A SENSAÇÃO como prática do meu processo criativo. Que o tato me guie pela compreensão das minhas argurias na vontade de expressar com traços uniformes e divergências de cores o que aparecer no papel em branco.

A desformidade é o que me excita no dia de hoje. Já que não posso prever nas minhas células o que me congrega de experiência no estado/tempo de amanhã. Quando vejo paisagens construída com esmero não me significa tanto quanto quando percebo a proeficiência na arte que se tem a dizer arduamente. É como se fizesse parte do meu esquema de sentido ter prazer com aquilo que em minha visão/paladar/audição rui em desagravo com a certeza absoluta ou a imedieata decifração.

Inexiste em minha agora visão de mundo a CONSTRUÇÃO ERETA DE INTELIGÊNCIA, mas sim há a desconstrução de ligações frágeis de conceitos, já que se proliferam imagens em detrimento de criatividade. Mas as imagens existem em liberdade e elas que se renovem em sua habilidade de compensar o vazio.



Já que eu tenho o que dizer, falarei somente pelo silêncio. E nada fique dito por dito. Se minha arte é a minha salvação, minha raiva desmascarada, minha ousadia de não ser, minha ILUSÃO secreta. Então, minha arte é o meu exato não entendimento.

Com carinho,
Ela.
P.S - se a palavra perfeição povoar indexamente essa carta ou lhe parecer próxima, me perdoe, estava com sono e nem fiz revisão antes de enviar-te.

Ilustrações: Hannap e Rebecca Budde

4 de agosto de 2009

Noturnas


Chegava não muito tarde de suas caminhadas noturnas. Alegrava-se em balbuciar sons solitariamente enquanto apreciava as literaturas que as ruas a inspirava. O argumento mais profundo que construia sobre continuar a andar baseava-se nos aromas agridoces das calçadas - o cheiro do azeite de dendê que queima com cebola próximo ao carrinho de pipoca na frente da escola denuncia as argurias que ela sentia na sua boa andada noturna. Mas não atentava muito para os detalhes essa mulher saída da adolescência, bem possível que ela nunca realmente tenha reparado muito para os detalhes, nunca fora tão caprichosa assim. Fazia boas articulações de pensamento, com boa memória chegava até impressionar, mas sua falta de atenção não permitia que passasse da média nove. Optava pela sorte, diria sem pestanejar seguida de uma gargalhada sozinha.

Exitava em chamar atenção, por isso planejava cada passo tão obstinadamente que parecia calculado até os sentimentos que deveria ter, como se pudesse supor aquilo que teria de emoção. Também deixava de ser sociável já que tinha facilidade em saber do outro e como estava quase sempre em posição de meio-termo era fixada por poucos.

Mas chegava o momento. De repente chovia por demais antes de chegar em casa. As árvores deixavam pingos caírem aos montes e com força sobre sua cabeça ao mesmo tempo que a protegia da queda torrencial de águas do céu. Continuava no meio-termo, se escondia com os pingos grossos e as vezes se molhava pra chegar mais rápido ao destino. Tinha o caminho traçado por sua mente enquanto a chuva dava tréguas aos andantes. Livrou-se das obsessões trazendo fone de ouvido às orelhas já molhadas. Parou para ver o tempo passar na garoa. Era bonito de se ver os carros adiantando seus percursos, as mulheres aos braços com seus companheiros, as crianças nas varandas das casas.

Os outros dois seguiam correndo para melhorar a forma física. Cogitavam parar em uma barraquinha na ponta da rua com intuito de refrescar-se mesmo depois de receber águas enquanto conversam de diversos assuntos. Sabiam pouco um do outro, mesmo com muito tempo de companherismo de corridas noturnas. Ela os via vindo e entendia que não se supunha visível, mesmo assim tratou de observá-los. Perto dela, um deles precisava amarrar o tênis e de sobressalto tinha pedido um tempo para o companheiro.

Em um instante ela pensou em filhos. Seria possível alguém amar assim tão repentinamente? Uma paixão avassaladora, algo que atropela o peito. Ela sabia que tinha alí um desejo muito forte por construir a coletividade da vida com outro e isso estava palpitando nas suas veias. Era ele. Tinha encontrado alguém que lhe tomaria a alma e que construiria todos os sentidos das cores que seus olhos iam misturando em ação. Suas poucas mentiras já não importaria, já que ela já o tinha em verdade. Sabia que o chamaria de amor na frente de seus amigos mais próximos e seus pais assumiriam que ela era mulher feita. Ele retribuiria com supresas em dias de trabalho, recados de carinho e afetos saudosos. Ela o tinha em compaixão e mistério. Já tinha o amor.

Ele não descuidou dos dois cadarços. Estava pronto para voltar a correr. O outro voltou a puxar qualquer assunto, deram risadas contidas e continuaram a correr. Ela não tinha ainda escolhido qual dos dois amara naquele momento. Eles já iam longe, quando ela decidiu assumir a chuva e foi ouvindo música pelas ruas à procura de um amor. Ela e sua sinuosidade distorcida sob as águas.

*A regurgitar Clarice Lispector e sua via-crucis do corpo

2 de agosto de 2009

dois quartos de leitura


A terceira página do livro ficou marcada durante vinte e sete dias. Foi quando tomoou coragem pra continuar a saber do que era fato. Mal acostumara as inverdades confusas, mas confortantes, puseram em suas mãos algo que o mobilizara sem intermédios; sem subterfúgios. E seguiu-se os dias com a promessa de que a tolerância não cabia mais numa existência com sentido. Corrompeu todas as liberdades que quisera e foi caminhar sem rumo para um lugar certeiro. Urge a necessidade de intuir a decisão de não estar, como se algum dia soubesse alimentar o desejo com migalhas de almas que ficam espalhados pelos cantos do que achou de beleza.

O cotidiano, seria ele mais orgulhoso, o destino. Mais perspicaz do que a simplicidade. E foi aceitando a sua própria imperfeição como limite.

Ora, faz parte da vicissitude do pensar coerente a ilusão de não ser em espaços comuns aos olhos? Se houver resposta, que não se concretize em ciência, basta o querer como alento, deixa que a literatura seja mais abragente que a imagem e então faça a verdade escorrer pelos olhos como assim o fez limpando lágrimas com papel toalha verde.

Há uma máxima do desejo, a de ser proporcional a dor. Como não se sabe da existência do cotidiano sem marcas doloridas, presume-se que se possa ir esquecendo alguns desejos menores (?) como pássaros que se esquecem em galhos urbanos, ou frutas que se esquecem nas calçadas de feiras livres. Mas o querer é mais que a simples decisão de não ter mais dor e a guerra entra paz e movimento sempre vai acontecendo para que a complexidade de criar sentidos se torne aprendizagem. Faz parte do caminho, propõe-se, que os livros [naturalmente aqueles que povoem o corpo riscando a pele por dentro] assumam seu papel carrasco e lisérgico.

Minha leitura é a minha pátria, diria. E então minha compreensão de mim seria palavras em profusão.

27 de julho de 2009

E se foi falar de amor


Roda uma roda por dia essa ilusão de não estar. Aquilo nada mais é do que a brincadeira divertida de se apropriar da inversão lógica das coisas. Eu que não quero ser aprendi a gostar de me deslocar no "não estou". E para os que tem dificuldade de enxergar, aposto que ainda falta simplicidade no olhar para o movimento. Passou e é simples. Fácil mesmo é se namorar de sensações intelectuais, mais fácil ainda é apostar no que se costumou chamar de intuição e eu não estou mais uma vez.

E enquanto corria a roda do desafio, um mínimo de pessoas que não se conhecem parecem estar na velocidade instável. Passam por ruas e avenidas, entram caladas nos pequenos elevadores, ensaiam pedidos de felicidade aos outros. Como se nos outros se completassem e não tivesse a certeza que ainda faltava alí algo mais do que se espera.

Na coletividade há liberdade. Uma delicadeza irrequieta que não saboreia desamores, uma parcial seleção de interesses comuns.

Como se bastasse a ilusão, os sinais vermelhos não costumam ser pontos de encontro e a beleza, essa que almeja outros ares sempre que começa a fazer sentido, maqueia a construção de pontes poéticas entre o um e outro. Como a solidão não requer resposta alguma, ficamos imaginando quais as dúvidas que nos guiará sozinhos*. E então nos damos conta de que o desejo é uma construção do que pra nós a ilusão faz sentido.

Ilustração: Ceci Larea (Casimira Parabólica)


*Parafraseando Fabrício Carpinejar quando o escritor diz: "Nem o amor platônico tem direito de ser preguiçoso. Não requer resposta, mas é necessário formular a pergunta".

20 de junho de 2009

pensaminhando


O primeiro passo foi se convencer que nada tinha sido bruscamente se movimentado. Pronto, nem tudo mudou e os capítulos a seguir não pretendem ser licensiados por uma ruptura abrupta. Acabou-se os pontos e virgulas, nada de classificações.

O segundo passo foi entender o por quê de tudo estar tão diferente se nada mudou. Há um acre sabor na boca, daqueles pirulitos que vai modificando a coloração de seu paladar.

O terceiro passo não foi dado. Preferiu descansar um pouco de pensar no que se sucederia depois de aquele momento não ser o mesmo e também parecer novo. Uma confusão dos diabos, parecia que sua cabeça girava sem parar e por isso mesmo tinha que descansar.

O quarto e o quinto passos, perdeu o interesse por saber quais eram. "É fulero ficar pensando num destino traçado, sacou?"*

* Disse Ivete Sangalo alguma vez.

31 de maio de 2009

Por que era ela, por que era eu*


Muito pelo contrário. Tinha rasgado as desventuras da misericórdia. Alegara-se injustiçada pelo tempo e pelo tamanho adquirido da extensão espacial, se é que vocês me entendem bem. Ela não era simples, sabia, mas quem o dissesse de sua complexidade é por que não havia sequer chegado perto de suas intenções na vida. - As intenções que você tem no caminho, as suas intenções são muito sérias. Nada de planejar o destemido, tenha retidão no seu pensar e só isso lhe fará honesta com suas habilidades. Dizia a ela seu pensamento. E não vem ao caso discutir as habilidades dela, basta pensar que ela tinha rigor de viver e que não tem nada de abstrato nisso. Que história de veranear nas areias da praia macia. Ela queria mesmo era não esperar mais pelo coração acelerado e assistir de camarote o que construia aos poucos, o cotidiano, a prática da vida comum, mesmo que sentisse pulsar de felicidades momentâneas lhe convidando. Então, assistia televisão sem nem ao menos saber do que se tratava... chamava atenção as cores que tinha naquelas luzes velozes. E aqui tem um sentido de aparecer a televisão, por que ela construiu uma em casa com uma tábua de passar roupas bem antiga que não servia mais (não tinha roupas de algodão para desamassar). Também tinha uma lanterna, papel celofane, barulho de rádio relógio. Pornto! Faltava uma coisa: gente. Mas esse era difícil saber entender sua engenharia, então guardou o invento incompleto para quando soubesse todos seus "ingredientes". Ria sem parar das bobeiras que pensava.

Tinha paciência com crianças, de vez em quando. Só não gostava quando o comportamento delas era de gente que se sabia ingênuo demais. Ficava sem graça como brincadeira muito longa. Quando liguei pra ela, estava se arrumando para ir à praça brincar com algum infanto que estivesse por lá. Aí eu disse a ela que não tinha sentido e ela optou por me ouvir. - Se quiser ler o mundo enfrente meus medos, eles são muito parecidos com os seus, Nélia. E não dê risada tentando satirizar minha emoção, não vai servir de medida escapatória. Disse eu mesmo sem rigozijo, talvez temente dos pensamentos do outro lado. Nélia me disse que leu duas páginas de um livro que tinha guardado no armário de roupas, mas que estava meio sempaciência para poesias absurdas. Disse-me também que a diversão do seu domingo era fazer machucador de alho um microfone com sabor para adoçar canções que ela mesmo ia compondo com o eco da cozinha. - Se eu tivesse sabedoria de minha passagem pela alegria difusa ou pela minha oração, eu seria cantora, sabia? Me disse ela, também me acalmando.

Escreveu umas duas vezes no espaço virtual que seu filme preferido da nova geração era Madame Satã por que a liberdade estava alí posta na casa fúnebre e sexual da periferia do Rio de Janeiro em tempos atrás. Aquilo soava como jogo de sinal, quase que por acaso comentava rapidamente que gostava mesmo era do sorriso de Selton a qualquer momento. Recebeu treze comentários sobre isso que escreveu e quando lembrava ficava tensa pois não sabia se tinha verdade alí ou a necessidade de dizer qualquer coisa que viera a mente. Quando casnava de pensar, pensava mais ainda e isso era prerrogativa de sua paixão pelo universo de construção de sentido. Por acaso leu o jornal de sábado, pois não tinha o costume já que com o salário de secretária de médico homeopata mal dava para tomar a cerveja no domingo que, segundo ela, aliviava a tensão. No fundo, queria mesmo era saber do silêncio das coisas influenciada pelo que lera sobre um senhor chamado Smetak quando dizia que o sentido do som estava no silêncio depois que ele acontecia. Se ela fosse música, o que seria depois que ela fosse tocada?

Por sorte sobrara uns trocados para comer um daqueles congelados de supermercado. Era sempre uma alegria ter massa com verdura pronta para ser devorada com um suco de polpa de umbú. Em direção ao caixa achava que alguém deveria fazer fotografias daquele momento, cores e ilusões de ótica não faltariam para compor. Quando lembrei do trecho da música que tinha lhe dito antes ela já tinha saído de casa, como não tinha secretaria eletrônica não lhe pude deixar recado. Eu fico bastante envergonhado de ligar para seu celular, então guardei o trecho pra mim como se ela fosse pra mim nesse instante o silêncio promissor, esperançoso. Em outro momento pra mim, Nélia era o silêncio e só.

Imagem: Nina Neves
*Música de Chico Buarque, também tema do filme A Máquina.

Acho importante falar que os diálogos dentro da sequência do texto, anunciado com travessões devem ser visto como um elemento qualquer da narrativa. Minha proposta era dar velociadade ao texto, mas ao mesmo tempo penso que pode dar margem à qualquer interpretação de sentido. Que bom!

14 de maio de 2009

Leitor


Quando escrevo é como se um desenho opaco fosse escrito sem fantasia.
A palavra fica turva em um momento e aí então começo a não saber mais dos símbolos.
É quando paro de pensar no encadeamento e então surge o texto, como desenho concreto ou risco certeiro.
O texto é fora de mim, como se isso tivesse algum sentido óbvio, que não tem nenhum.

11 de maio de 2009

Encantamentos


Enquanto estava esperando o sinal abrir nem imaginava que a sensação de não estar me vigiava. Nem entendia das razões, mas já que estava parado em frente a carros precisava fazer alguma coisa, então decidi pensar e pensar nessas sensações que não conhecia de perto. Foi quando avistei a moça se aproximando e aí queria mesmo era que as cores alí se transformassem para eu ganhar uma maior liberdade. Isso não se ganha, poderiam dizer sem argurias, mas eu, tal ignorante que sou vou aproveitar minha possibilidade de ingenuidade para acreditar nisso. Balbuciei algo resmungando da solidão na estrada para ninguém ouvir, como se fosse possível viver sem licensa para ouvidoria alheia - risquei aqui minha sensibilidade partindo o sonho das minhas abruptas mãos. - licensa! Pediria ela chegando bem perto para abrir um leque de possibilidades; talvez conversa, espera em comum, risada daquele desajeito que via ou outra coisa de seu pensamento. Ainda bem que eu a reconheci antes disso tudo.

Cansa-me esta toda sequência de... do que nem sei mencionar. Como ritual de re-conhecimento. Se ela soubesse que sabia de mim perguntaria o que sou hoje e então nada disso teria sentido. Menos sentido teria a minha resposta. De certo diria que sou um cantor. Que faço dos tons meu universo de poesia para expressar minha calma e minha lisergia. Mas isso não era uma justificativa cabível, pensei agora. Como justificaria que usava do meu som para o viver da canção? Minha filosofia não teria símbolos concretos em palavras para ser assim sincero nessa argumentação, então não serviria. O que diria então? A que posso atribuir minha vã existência?

Ela nada escutara e eu nem ao menos a conhecia. Pensei que o nada que eu poderia ser, nem esse, eu poderia justificar. Diria - não sou, e tenho certeza que ela me responderia com outra questão como: E se faz o quê quando não é?

Não a poderia deixar chegar tão perto. O medo desse questionamento me fazia suar frios nas mãos que segurava o caderno e a agenda. Quis andar, mas precisava atravessar aquele caminho do qual o sinal me soava vermelho como paralisia. Por que eu teria vontade de chorar? Tinha me atirado sem certezas? Deixaria ela chegar para não me entender? Fiquei pensando em outras respostas desesperadamente, precisava ter um significado lógico para o que diria a ela. Até descobri que dessa forma não poderia ser nada. Poderia conjecturar algo simbolico o suficiente para dizer o que era. Pensei em me dizer crente, mesmo assim não entenderia toda a minha idéia sobre isso. Foi quando lembrei de alguém ter dito algo sobre ser apenas quando não o é, quando se morre. Mas eu consegueria justificar a morte ou algo depois disso? Pensei em desenhar algo no chão para falar de mim. - Sou intérprete, disse sem pestanejar e com medo. Mas ela ainda não tinha chegado tão perto para ouvir antes de perguntar. Até que o sinal abriu e eu não conseguia saber se o andar era de nervoso ou se era justamente a liberdade que ganhara. Falei tão alto que eu mesmo tinha me escutado dizer que interpretava a existência, então pelo menos pude rir antes de caminhar. - Mas olhe bem, eu não sou ator, sou intérprete. Ainda pensei assim, lembrando de Maria Bethânia no cinema. - É por isso que estou tentando desenhar e que as imagens me aceleram as batidas do pensamento, além disso sou sensível ao que não posso fazer bem feito, fazendo mesmo assim para continuar a ser. E ri, novamente. Quanta besteira pensava enquanto a luz enverdecia.

Seria muito perigoso pensar muito sobre isso constantemente. Viveria por escrever frases de efeito em bilhetes de amor ou até mesmo fazer um bem arrogante ao alheio. Prefiro ser alguma coisa, pensei. Mesmo assim dei um sorriso pontou e atravessei a rua nos minutos que faltava. Ela devia pensar no que estava sendo e isso bastaria.


Ilustração: Vânia Medeiros

21 de abril de 2009

Conversas de pé de ouvido


Ocultaram-me as divagações alheias e eu, que não sei de meia dúzias de palavras, estava no mensageiro instantâneo, sabendo de tudo rapidinho e manêro. Foi isso então, o saber que estava alí estabelecido tinha a ver com a identidade alinhada, nada mais me pertencia se não a emoção de me ver sabendo de si mesmo, em outrem. Quanto mais as digitais digitavam [mesmo tendo aparecido sapos na sala, mesmo não tendo visto o filme na tv], mais palavras como semânticas avançadas me fugiam de mãos. E tudo não passava de imaginação de conhecer o outro lado como eu mesmo não o sabia de mim. E podiam voltar enxurradas de letras depois de aberta a represa de luz que continuava ali despertando a emoção de não se saber ignorantemente exdrúxulo. Moraria na filosofia dela ou dele, lamberia a própria emoção transitória, salvaria com respiração boca-a-boca o tom robusto dos argumentos proferidos. Meio confuso, suspirou para si mesmo várias vezes sem ter microfones para ampliar a voz, tinha também que saber do tempo e isso era limite. Sempre fica no final das contas como aquele insaciável pela conversa como se para se sentir pertencente ao mundo alheio. E então não tem mais limites. Nem queimar por dentro, nem pertubar o sono. Também estava disposto a parar de ouvir o que viria pela frente - eles que disseram tanto num dia grande, um dia cinzento - e as referências que ficassem em seu devido lugar do pensamento. Tentativas de continuar livre, interrompido e cinético. A vivacidade e o estar complexo nunca foram assim suas grandes fortalezas. E, pra finalizar tudo, não sabia se entendia muito bem o que lhe falara, pois, para ser sincero, não sabe de nada sem modéstia nenhuma. Graças a Deus.

ilustração: meu lugar de imagem

20 de abril de 2009

Mistério de quem tentou pensar sem palavra.

Anuciava o começo, concordo - acho que não mais do que sinceras promessas há de puritanismo cartesiano. Corta-se os laços e derrama sentido no que não se escapa! Corte! há a liberdade e sim todo o positivismo. Tem um momento, pensou ele, que nada se começa com um ponto... tudo vem de antes e há até um espaço para se pensar e aí rosnou paciência sem pensar em como o leria outros [e se os leriam outros, imaginava]. Esperava por ninguém, essa era a sua grande missão e se completa a serventia nesse processo tinha passado de inteligência a fio para intolerância irônica. Resultado, ia perdendo os amigos ao longo do caminho, já que queria exercitar a simplicidade.

- Calma aí, indagou,
tudo o que se produz de sensibilidade vai parar onde? Estava acostumado a tentar usar menos o "não" no pensamento, mesmo sem saber se ia dar certo. Para se socializar, não administrava idéias complexas, absurdos imaginativos e assim por conseguinte, teria o entendimento alheio como produto de vida. Massa, já sabia do que não queria e ousou gritar que não era mais o mesmo nesse exato instante. Ainda queria ser mais simples, chamar para perto Antônia da livraria e até fazer poesia para Zé.

"O que tomaram não era seu, José,
que de ninguém nada se tira"*,

mas isso de exercitar a poesia do cotidiano era pra quem já tinha evoluído. E ele mal sabia administrar seus desejos, podendo até ser convocado ao réu de superficialidade. Era mais gráfico que cantante
[tossiu duas vezes para exercitar o coração, beats de silência alterado em compassos e só asism musical se podia tornar, como tambores do Olodum ritmados no qual mais se prestava atenção nas cores do som. E estava unido ao som do timbau.] e assim era mais insinuante, mesmo que fingisse sabedoria excessiva. Tinham outros que viera nessa vida para ser e ele tava na vontade ainda de querer ser...
[...] emancipara o pensamento. Leitura de outros contos que não sordidos e mais profundo que a própria palavra de leitura.

Nunca tinha sido mais feliz sozinho e, no futuro, pensava em viajar para entender isso ainda melhor. Até convites foram feitos. Viajar é escrever junto com palavra de cor, sonhando-se pintores de mapas letrados.

* Trecho do poema An-dar de Raíça Bomfim
* Ilustração: Igor Souza

- ouvindo Olha o Menino de Caetano e lendo Aprendizagem ou o livro dos prazeres de Clarice
- para Raíça, pela saudade.

11 de abril de 2009

Eu que não sou artista, imagino...



Ele não sabia muito bem da arte do traço. Apostou na sua sensibilidade para tentar criar. Isso por que não tinha uma causa para que o fizesse e assim tornaria sua propensão criativa um pouco mais sincera. Algo que não envolvesse uma lógica perniciosa ou carregada de um sentimentalismo que operasse na vontade do belo. Tudo o que queria era fazer existir a partir de pensamentos simbólicos e liberdade nas mãos. O que teria como consequência, pensava que não queria muito saber, mas tinha aí uma concreta realidade criada, ou seja, um desafio de se fazer criador. Então não se tinha muitas alegrias, mas também nem muita dor. Apenas uma concentração fatidica, como a paixão sugere. Percebeu aí que o ato de criar se ligaria (re-ligare) ao que se chama "desejo", a volúpia ardente da vida.

O papel em branco, metáfora bem desgastada, não lhe dava nenhum medo. Muito pelo contrário, lhe ensinava a operar, como num ato cirúrgico. Tinha tranquilidade em pensar o espaço e os passos que daria pra desenvolver o que se queria alí nquele ambiente. Rasgou de ponta a ponta aquele lugar com a grafite do lápis fino até dar o tom da estrutura, a base. Argumentou antes a idéia pra si mesmo antes de escolher cores e tinta.

Esboçou algum desenho, ficou lá sentado a produzir e não se arrependeria de nada até o final. Talvez de algum traço mal feito ou inacabado, mas mesmo esse fazia sentido. Como se em algum momento relutasse por pensar não em palavras, mas em sensação de cores em desordem, manipulou seu objeto final sem saber se tinha realmente chegado no fim.

Pensando melhor, não podia se chegar a nenhum final alí. Não teria sentindo se aquele trabalho se reduzisse a contemplação única daquele criativo que compôs. Lembrou dos grupos de Jazz livre que da improvisação faz uma obra sem necessariamente prever o fim, não que ele não seja importante, mas é que o fim não seria a obra. E concordou.

Esperou um tempo para secar, fumou um cigarro na varanda depois que tomou um banho e se preparava pra pagar as contas quando o telefone tocou. Conversou com ela durante um tempo, falou que estava conhecendo uma galera nova que queria que ela conhecesse. Uns músicos diferentes, tinha também uma galera meio pop que conseguia falar da política administrada pelo governo de centro da europa ocidental. Na verdade ficou querendo um convite, não veio. Daí aproveitou pra falar de sua composição e que quando tivesse tempo e desvio de solidão acompanharia numa cervea num bar novo que tinha aberto perto do centro da cidade. Saiu de casa com as contas e depois do banco foi pro cinema descobrir que ainda faltavam coisas a serem criadas. Ficou com vontade de voltar pra casa e assim o fez, andando. Acabara de se apaixonar de novo pela vontade de criar.

14 de março de 2009

Saudade e aléns...



Upload feito originalmente por Ingrid Klinkby












Então eu vi a saudade.

Como se ela aparecesse em cristais sem muito sentido. Eu vi a saudade aparecer nada embassado, tudo bem articulado aparentando uma liberdade que se dissovle pelos cantos e não ignora o que vem escrito como futuro ou destino. Saudsade não é palavra somente é composição de canção legítima, é sentido de caminho, é fantasia imagética. Como se a vontade de estar se limitasse ao desafio de se surpreender pouco a pouco. E então nada além do desejo e da memória te ajuda a viver em paz.

Eu vi a saudade em desenho amarelo, como tinta em água formando objetos inclassificável. Nem realismo, nem abstração puramente. Um quadro que não se esforça em si, é o próprio olhar, o complemento da ilusão em cores singelas. Saudade não é real, mas também não é somente criação. Saudade é.

E quando não mais me espantar pelos deslizes do tempo que obriga a formar imagens de um outro lugar de sensação, lá vem a saudade como uma invasora me dizer que eu preciso mais de mim do que eu penso. É que a fotografia que vi me disse que a saudade se forma como quebra-cabeça das emoções que me completam, como se os outros soubessem de minha solidão e me acompanham em lembranças. Como se eu fosse e eu sou.

Para e de Ingrid Klinkby

8 de março de 2009

Longas cartas pra ninguém I*


Ontem o dia foi longo. Não deu para sentar em uma pedra na beira do mar, ou embaixo da sombra de alguma árvore para ler, nem mesmo ir ao cinema. O dia foi longo, durou mais do que os dias anteriores e isso foi bastante diferente. Significa que me preocupei em sentir a respiração para ver se continuava ou de contar os passos na rua para ver se o sol não me pegava tão rápido nas costas. Uns pensamentos que ficam se movimentando e de repente paralisam o tempo. Duro mesmo foi o momento de pensar no tempo, o porquê ele e dinâmico, qual o motivo de acrescer os desafios e trazer cada vez mais a responsabilidade de se cuidar sozinho. No fundo é tudo fruto de muito medo. O medo alonga o dia.


Em verdade, estava querendo dizer que há os dias e eles devem ser bem vividos, como parafraseio a da Lis no peito.


Ontem também foi um dia que pensei bastante. E pensamentos são sempre um mistério, a gente começa com algo que nos chama atenção mas nunca sabe mesmo onde vai parar. Ah! Esses pensamentos que não superam as sensações. Sempre acho que vou ter respostas e as dúvidas aumentam cada vez que algum conceito vai se firmando. Como pré-conceito talvez, mas como algo sedimentado. Eu não acho lógico a idéia de que não teremos certezas, mesmo entendendo que só vivemos mesmo pelas perguntas que nos movimentam. Talvez por isso não consiga abandonar o acho quando as frases saem de forma afirmativa.


*Alguns trechos de cartas pra...

Bilhete


ide ir mais fundo

ide sempre

de sol a sol

de luz em luz

a dobrar os castelos

retos e curvos aos barracos

e deixar para trás os caminhos

e não olhar pro ontem

muitas são as noites

diversos os luares

e suntuosos os palácios de promessas

e incrédulos os absurdos da ilusão

onde - meu deus!

Quem – meu deus!

espinhos esgueiram-se lépidos e traiçoeiros

radicais promovem uma corrida infâme

ainda assim

e então

para o caminhante há de sempre o destemor

os buracos da estrada são visões

o olhar sereno, resoluto – a beirar o tempo

a visão atribulada, tórrida – esperando os momentos

o centro da dança das fogueiras em festa

a alegria do fogo não queima

alegria!

Toca!

ide ir mais fundo

ide sempre

de sol a sol

de luz em luz

a ouvir de sinos o eterno chamado

falando dos sinais a seguir

em cada longínquo campanário

no amor do canto de outrem

e só

e continua...


Texto (ou vice-versa)
Rosa - Ismael
Verde - Niltim

28 de fevereiro de 2009

One Tree Girl


Um certo dia você se dá conta. E isso é muito importante. Dar-se conta é entender o que não se pode deixar para trás assim, como superado. Cair a ficha é ir com bastante intensidade em seus desafios mais profundos, como um diálogo mal escrito e inacabado, como esse texto que não se tem em objetivo superar a si mesmo em contexto. Pelo menos sabe muito bem o que quer dizer esse escrito e vai tentar fazer você entender até quando se completar em sua mente.

Esse certo dia de se dar conta muito tem a ver com os encontros. Quando aparece durante a estrada alguém que não apenas siga os passos, mas que entende de percauços, parece como o acender da luz quando menos se espera. E essa menina me veio assim, como uma lâmpada que se acende pela estrada. Chegou, mais que no seu canto, chegou alimentando esperanças e sendo forte. Estava diferente do retrato da parede, muito diferente. Agora vinha com uma borboleta e o sentido de que há os dias e eles hão de ser bem vividos, sempre! Estava escrito em seu obstinado pulso. Não tinha apenas caras e bocas, tinha liberdade. E da sua beldade estonteante, delineava-se toda a destreza da menina mulher sabida de seus grandes desafios. E então, era enfim uma educadora de milagres. Mais a saber, era lutadora como referência.


E então seu sorriso [difícil e belo] foi me ensinando. Seu choro pela fome alheia era tão verdadeira que me arrastava. Sua fala sobre o destino da humanidade me apresentava uma revoluta paz. Sua simplicidade elegante me resolvia crises. Sua ambição por sempre mais amor me fazia entender mais um pouco o por quê. Então, por seu abraço e sua atenção, se tornava minha mestra.

E saltitante pelos mistérios desse nosso mundo, o que ficava nítido era que "girls just wanna have fun" e que ela apostava na melancolia dos sorrisos tipo "Vogue Itália". Gosta de prazer nos brilhos dos globos da boite ou da dança secreta de "Stick and Sweet".
Ela é uma diva, uma estrela que aprendeu dos olhares, das carícias, das discretas intuições. Que entende de nunca desviar dos carinhos e de se apaixonar a todo o momento. De lembrar que as dificuldades devem ser resolvíveis, que as faltas devem ser preenchidas. A beleza marcada no seu corpo é absolutamente compatível com as inteirezas marcadas em sua alma, ela é importante para o mundo!

O que ela ainda não sabe é que como minha referência, tem agora um ser humano no mundo que, com todos os defeitos e com todas as fraquezas, a ama e a entende.
A confissão está em quando aquele lindo ser humano dizer de sentir medo e de ser frágil, este simples educando nutriu uma esperança de também ser forte assim, mesmo que com menos potencial. Ela agora roda nos lençóis do destino como uma roda de samba colorida. Os pés que bailam pelo salão são de uma simetria de como se conhecesse o caminho da liberdade e da imaginação. E sim, ela sabe.

No toque do pandeiro que vai continuar, ela samba e roda em outras tantas direções, como uma boa baiana que vai iluminando o caminho alheio por ser, em si, a própria beleza da vida. Como uma árvore na colina a crescer. One Tree Gril.


*Para a menina árvore, minha referência, Juliana Lima.

26 de fevereiro de 2009

Carnavália IV



Chovia na noite da quarta-feira nas ruas de Olinda. Chovia de duas formas, a primeira delas é das águas rolando nos paralelepípedos daquele lugar e a outra é das lágrimas de pierrots e columbinas, anjos e demônios, pessoas e pessoas que viveram toda a experiência com o corpo e as sensações durante os dias que se passaram. Chovia assim dubiamente por que não era uma quarta qualquer, acabou-se o carnaval. A chuva (e as lágrimas) lavavam o chão como se exorciza-se cada pedacinho de momento que produziram a magia da entrega e a vivacidade da leveza imagética nos rostos alheios.

Os sentimentos continuam perpassando mas, como era carnaval, era nítido que a liberdade de sentir estava pontuado como eixo central dos olhares. E então, se molhavam de água, se enxarcavam de perfume, se lambuzavam de lama. Aquelas ruas permitiam mais. Bem mais. Então, se vestiam com capas de super-heróis, se infiltravam nos contos de fada, eram personagens da caixinha mágica de luz, se protegiam com máscaras ornamentadas e outras tantas criatividades. No auge, quando se olhava pra trás, descendo ou subindo ladeiras, uma multidão de cores se formava. Energizava. Emocionava!

O outro te sorria sempre. Quando em coletivo se dava "olares/oiê/ahan", quando se passava de timbaleiro, quando a espuminha pairava pelo ar, quando a água era jogada sobre o corpo. E tudo ia acontecendo como se em um outro lugar do espaço/tempo, como se outra dimensão acercasse, como em outro mundo.

Por outras ruas alí por perto, em um lugar não tão mais antigo, outros sonhos de momo. Frevos e passinhos acompanhavam a decoração de desenhos de beleza e delicadeza, além de confetes e serpentinas. A sinceridade da rabeca rangia os acordes junto a notas suaves de guitarra; os tambores de Naná com a Luz de Tieta de Caetano; a verdade nos olhos de um moço lírico; o povo acompanhava madeira do rosarinho com mãos pro alto; e sambas em alto-astral.

Tinha também sucesso pra quem quisesse e água pra beber. Macaxeira com charque a rodo. Lugar inflável de deitar. Tinha desejos diferentes, corpos juntos todo tempo, corpo querendo descansar, também. Teve sempre Hino ao elefante, orquestra de rua, povo de beijo e troça de coveiro. E não acabava por aí, mas como diz a letra da canção: "É de fazer chorar/quando o dia amanhece/e obriga o frevo acabar/ó quarta-feira ingrata/chega tão depressa/só pra contrariar"*

Para o afago, as carícias e as alegrias das solidões juntas de quem esteve perto no carnaval. July [gatinha], Gina, Amandinha, Emanoel [bebê], Victor, Zé[Dinho], Pat e Ramon [com carinho todo especial pelo cuidado], Celis e Rafa [com prazer de estar junto], Miloca e Lari [e seus olhares carinhosos,] Diogo e Franklin. Também para o povo da Lhama! Radamés e família com sua hospedagem. E todos que foram achados, vistos e queridamentes tocados por esse olhar que se resume aqui.

* Trecho do frevo
Quarta-feira ingrata (é de fazer chorar) de Luiz Bandeira

4 de fevereiro de 2009

Prêmio

De forma inédita, publico aqui uma brincadeira, que na verdade diz respeito a uma prática de aliança entre blogueiros. Isso me pareceu importante por que a escrita no mundo virtual não se difere do mundo real no que tange a construção de pares que acompanham o trablaho literal alheio. Como iniciante, recebo [e publico] com bom grado o selo dado por Larissa a esse blog.

abaixo segue o texto que vem com o selo e a lista de inciações de blogs a recebê-lo. O selo ficará no layout do blog.


"Com o Prêmio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro(a) emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os(as) blogueiros(as), uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web."

blogs que indico o selo:

A caminho de um outro lugar possível - Um relato do Fórum Social


Andando. O verbo no gerúndio para começar essa trajetória tem todo o sentido. É que pode não parece, mas um olhar sensível entre nós (leia-se, seres humanos) está em desenvolvimento. Contínuo, estamos em passos largos em direção a diferentes caminhos, alguns convergentes, muitos díspares, mas uma boa parte com destino ao bem-estar e à evolução. Esses trechos parecem positivistas, e os são na realidade, mas, de fato, uma marcha de cores, olhos, desafios, gritos e bandeiras diferentes pelas ruas de Belém nos fazem acreditar no que se acostumou chamar em Belém, na semana de 27 de janeiro à 1º de Fevereiro, de “um outro mundo possível”. É bem verdade que as notícias, o cotidiano, as perspectivas político-econômicas de futuro não parecem tão animadoras, mas a fé e a paixão daquelas pessoas pelos seus ideais me fez acreditar também.


Seguimos pelos ares de nosso país para outra região. Vôos complexos e difíceis de entender, chegamos na capital do Pará. O povo receptivo daquele lugar foi, para nós, representado por duas figuras atenciosas que se chamavam Marcio e Cíntia, donos da casa que alugamos (achei via Orkut a indicação dessa casa, entrei em contato via MSN e fechamos negócio com eles) e que nos foi buscar no aeroporto, sem nunca ter nos visto antes, demonstrando uma simplicidade e uma abertura para o outro de forma tal comovente. Bairro do Marco, entre a Av. João Paulo II (antiga 1º de Dezembro) e a Av. Almirante Barroso, estava lá a casa na travessa Curuzu (do Ilê - ?), nos fundos do Salão de beleza Maria Bonita. Uma arquitetura interessante com cores deslumbrantes nos acomodaram.


Chegamos em Belém dois dias antes do Fórum. Isso para podermos participar do I Fórum Mundial de Mídia Livre, no qual, comunicadores, pensadores e ativistas do mundo inteiro discutia, antes mesmo do Fórum maior começar, o que podemos fazer para que o direito humano à comunicação previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos fosse respeitado e fortalecesse o respeito aos outros direitos fundamentais. Uma grande roda foi aberta, inclusive ostentando o banner que indicava a I Conferência Estadual de Comunicação do Pará. Muitas experiências interessantes e muitos pensamentos de futuro da comunicação como integradora e alicerce do desenvolvimento dos países latino-americanos foram expostos. Saldo de demandas e articulações a acontecerem 2009 afora.


E então começa o Fórum. Do mercado Ver-o-peso, uma caminhada de quase 100 mil pessoas colorem cada avenida. Gritos de ordem, camisas e faixas com dizeres, fotógrafos, câmeras e jornalistas de línguas bastante diferentes na tentativa de tornar memória aquele momento. O que nos rodeava, além dos olhares atentos das janelas de prédios, bancos, Mcdonalds entre outros, era a arquitetura pomposa daquela cidade. Nessa hora a emoção do estar junto já contaminava até a Praça São Braz, onde os jovens, os povos, os mundos de cultura povoaram o palco armado. No ápice do dia, diversas tribos indígenas da região amazônica tomaram o microfone e, em coro, cantaram o Hino Nacional Brasileiro, na língua deles. Nós? Acompanhamos em melodia e no choro nas faces. Outras tribos passavam pela gente no chão e o mundo rodou em nossas mãos. A bandeira do arco-íris estendida e a banca que vendia livros em cabides também foram exemplos marcantes. A cor amarela da luz indicava noite e estava aberta a liberdade de expressão e o desafio da convivência por um lugar melhor pra viver neste planeta.


As portas das salas das Universidades Federal Rural e Federal do Pará escondiam uma imensidão de questões que povoavam esferas de discussões tão próximas quanto absolutamente distantes de nossas realidades. A escolha era uma questão séria. Ir para a discussão sobre a comunicação para o desenvolvimento ou para questões de políticas públicas de juventude? Era tudo ao mesmo tempo e agora. Ao longo do caminho era encontrar pessoas, saber do outro de tão longe, agora tão perto. Era experimentar linguagens, comidas típicas (açaí com charque, maniçoba do Pará, Tacacá no Tucupi), olhares, artes e artesanatos, experimentar a sensação de descobrimento de si mesmo em que você tenta não se esbarrar.


No meio da estrada, entre uma sala e outra, era calor em princípio, até que, em qualquer momento no meio da tarde, uma chuva torrencial caia sobre nossas cabeças com direito a trovoadas e relâmpagos.


Molhados, continuávamos sedentos por mergulhar fundo naquela imersão sócio-cultural que nos convidava a conhecer mais profundamente rios de conhecimento do mundo inteiro. Então fui escolhendo aos poucos. Políticas públicas ibero-americanas de juventude, direito à comunicação, criminalização dos movimentos sociais, ouvir Marina Silva, entrar no stand dos 50 anos de Revolução Cubana... e outras tantas experiências.


Há muito também a se criticar do Fórum, é claro. Ainda não consegue ser propositivo, a organização desorganizada dos ambientes, a falta de concentração e dispersão que atrapalhava algumas atividades e algumas outras de ordem filosófica. Mas, o saldo foi positivo!


Como lembrou Frei Betto, fomos lá pra recarregar a pilha da vontade e nos acender mais forte o desejo da utopia agora e pra frente. Das quase 24 horas de viagem (quase 12h de ida e 12h de volta), ficou a mala de papéis, a visão da floresta amazônica do alto, a memória dos rios caudalosos, o samba do Ver-o-peso na chuva, a banda que se desloca no porto, o presidente anunciando a I Conferência Nacional de Comunicação, ritmia no Hangar, sucos de cupuaçu. E então, um outro mundo tem que ser possível. E continuamos caminhando...

para Sarah (Maria), Mônica (Raquel), Flávia ( - )...

15 de janeiro de 2009

Risos do vento


Plácido e acidulante. Caído da liberdade ressentida, ri-se de asneiras sem som. profusão de pulos de um pé só não lhe atinge. Quem de fato será ele na frente de vidro e espelho, igualmente límpidos? Nada lhe faltava, além da saudade que deveras voltara a te procurar e lhe dizer que não existe sem memória. Tava lhe faltando vento de outroras, então. Mas, como fazer para voltar a um passado passado, não podia, com certeza extrema, fazer parte de um ciclo de pensamentos. Regurgitou solitariamente: "preciso parar de pensar assim, aonde vai chegar esse relutar contra o tempo?" Decidiu por um banho demorado nesse dia de calor intenso dentro de si.

Cerveja gelada seria o esquema para, além de aliviar o pensamento, esfriar a quentura interna. Sentaria numa praça qualquer se não tivesse se sentindo tão extremamente só para sentar em uma mesa de bar rodeado de gente. Prometeram caminhada a ele, lembra-se, prometeram até carícias sexuais talvez, mas de fato tinha mesmo era livros à mão cheia.

Então, estava amando. Só podia ser isso. Amava estar no lugar que era a imaginação profunda e assim, estava certo do caminhar vivente. Era esse o mistério? Saber que seguir em frente é criar as imagens sem precisar fechar os olhos como holografias de uma vila amarela e rosa? Era mais do que isso, e não se atreveria tentar acertar, vai que o chute dá certo e a vida não vale mais a pena depois e etc etc etc.

"Ele pensa que faz do amor sua profissão de fé
só que faz da fé profissão
aliás em matéria de vender paz, amor e axé
ele não está sozinho não"*

Rodante que ainda não sabe se é, preferiu ficar só pensando. Ele é ingênuo esse menino. Se perguntar de suas grandes experiências tropeça em seus míseros vil metais. Esvaziou a mala perdida pelos cantos da casa para ter surpresas, tomara que encontre mesmo algo. Quem sabe um grande amor! Oxalá!

Liberou as estradas para ser pisado pelos pés alheios, como forma de prazer e castigo, ou os dois fazem o mesmo sentido em algum momento. Por enquanto distribuia sorrisos pra todas que passavam em vão. Ela mais real, outra mais introspectiva, ela (quando se olhava no epelho). Ainda vai sorrir mais, deixou escapolir agora essa frase de um canto da boca olhando o mar do alto daquela colina!

* Trecho da música Guerra Santa de Gilberto Gil
ouvindo Waiting in vain na voz de Gil

11 de janeiro de 2009

Cenas de limites


Quarto de hotel. Duas mulheres sentam em pontas diferenciais da cama. As pontas são lugares extremos, partos e rupturas a postos. Crack! Um barulho de ambiente se faz e provoca a sensação de desconforto. Olhar uma para outra? Enquanto sentadas e em silêncio tinha um reconforto aparente, nada como um pensamento revolto para saciar e aguçar a visão e suas riquezas de detalhes. Não há salvação aparente no pensar, tudo se esvai para uma lógica que desconcerta, mas talvez apropriada no controle de pensamentos fulgazes de esperança. Há possibilidades, somente isso! O barulho, ainda não se tinha falado dos motivos, advinha do abajour [slow motion - Won Kar Wai]. Aquela luz meio amarela e morna tinha esquentado aquele objeto de tal forma que a consequência não poderia ser diferente a um som de quebrar, afinal era essa a ambiência. Que fazer agora que o silêncio e o conforto foram alterados? Nervosa, uma das mulheres de uma das pontas (extremidades), levanta-se, pega a bolsa que escapole de sua mão. Um ruído maior, mas agora tem preocupações artificiais para criar o sentido do conforto. Rímel, carteira de identidade, camisinha, moedas, papel do cartão de débito, batom vermelho e gloss estão no chão. O desespero para reorganizar tudo era sim uma falácia, não era real a preocupação de ter de volta a bolsa seus pertences: fuga anunciada. Agachou e em uma velocidade mínima rastejou no chão [cores vibrantes - Pedro Almodóvar]. Desistiu de catar, deixou uma lágrima cair e deitou no chão com braços abertos. A outra mulher, a do outro lado extremo da cama, levantou-se e, ainda em pé, sorriu.

Um carro de cor mostarda atravessa a rua. Vidros abertos para circular o vento, janelas para criar composições da cidade. Enquanto em movimento, fotografias vão se formando lá fora. Menino caminha no passeio acompanhado pelo pai, bicicletas também circulam com seus motoristas, pontos de ônibus vazios naquela tarde. Parece que há uma assiduidade no limite do estar em algum lugar indo a outro lugar. Pára-brisas e retrovisores a postos. A visão adelante e traseira também, então. Alguém mexe no volante como se soubesse do destino ao longe. Agora seria o momento no texto no qual se sugereria ao autor que dissesse certas verdades sobre o destino e o tempo. Não que as perguntas estejam
demodé, mas há uma demanda de leituras com algumas certezas inquietantes. Mas quem dirige esse carro não sou eu, sento no banco do carona e espero qualquer tipo de reação do tipo: "Me leve para seu desejo mais profundo de destino, assim estarei mais perto de entender a longevidade dos anseios e das dúvidas". Por enquanto me calo, sem respostas. Para desgosto dos leitores.

E então, passeando pela maré, sentiu a irrealidade de tudo aquilo que compõe a paisagem. Nada daquilo podia ser real. Seriam imagem borradas que só de longe poderia ter algum sentido [expressionismo - no jardim de Monet]. Se arriscou a molhar os pés com cuidado e olhou com agonia para o reflexo das águas como se um ente espiritual lhe encomendasse tal reflexão sobre a vida, sobre a incessante vontade de viver e mais imagens iam sendo criadas sobrepostas pelo balanço do mar. Nada parecia tão confuso, era uma arte esmiuçada pela vergonha de não se sentir inteiro ou pela incerteza do fazer parte. [surrealismo - transcendência de Dali]. Sentou na areia para contemplar a si próprio ao olhar para o ambiente. Mensurou suas necessidades e tirou a camisa para se sentir mais a vontade (ou desejado, quiçá). Entendeu que tinha orgulho de permanecer e ao ver os corpos que passa em sua frente, estava conectado.


Foto: João Meirelles

28 de dezembro de 2008

Um homem de sonho - parte IV


E o homem, na altura dos seus 26 anos, esqueceu-se que ao ter como objetivo o andar deveria tomar cuidado com as pedras, pedregulhos, paralelepípedos ou qualquer sólido em boa quantidade a atravancar o seu caminho (na paródia do Quintana, a pedra pode sim ser eufemismo de homem). É excelente o pensamento recorrente de que os tropeços acontecerão e que mesmo assim o movimento de caminhar deva continuar. Como tem passos e passos, ele sabe que tem tombos e tombos, algunas mais difíceis de se recompor. Tem alguns que mesmo com seu corpo fincado no solo, te deixam sem chão. Nada pode ser tão óbvio quanto pedras no caminho e os tropeços são incessantes. Equação do caminho que se abriria em fórmula tal qual química orgânica. Pior quando são as mesmas pedras sempre... Seria melhor cair com as pedras ou tê-las na cabeça, quetionou-se distraído. Não há um chão tão límpido de alguém a ponto de convergir para um levitar no andar, o atrito é muito importante e para isso o concreto deverá sempre prencher a sola da sua sandália. Inteligente seria o moço quando ao passo de sua idade conseguisse relacionar atrito à sola dos pés com caminhada pelo espaço sutil e machucados menores com os tropeços. O moço ainda chora quando cai (em si!)

26 de dezembro de 2008

Um homem de sonho - parte III


Eram braços e pernas em sincronia, como coreografia marcada. Nem queria prestar atenção nesses passos, mas nos movimentos da respiração ou dos desvio de ganho de tempo. Tempo é uma coisa já que já tinha pensado, mas se aprofundar nisso era orgulhar-se de um estar diferenciado que ainda não o podia fazer. Deixara então para aprofundar suas leituras sobre momento, horário, velocidade, mais tarde. Como era de praxe pela cidade em que anda, tinha sol no céu sobre sua cabeça. E quando está assim paira no ar um desejo de fazer, mais do que do ser e do fazer juntos. Seu corpo tinha uma determinada malemolência e é disso que queria prestar atenção, o fazer com gingado preciso. Se prestasse bem atenção nunca corria para atravessar a pista, se possível ainda tocava nos capus do carro há pouco em movimento. Quem diria que pela adrenalidade estava enganado, mas pelo estado de eloquência que acaba tendo com as relações cotidianas. Motoristas e pedrestes nessa cidade são parceiros de conduta, as vezes se desentendendo politicamente, mas nada tão grave. Este homem descia a ladeira que poderia muito bem dar no mar com bastante destreza. Para isso tinha seu próprio rebolado, balançava os quadris sem distinção dentro da sua masculinidade [ou do que isso poderia significar]. A ladeira é um traço bastante específico pelo caminho, ela suntuosa carrega desafios constantes e modela o corpo. Braços e pernas agora estão mais diferentes, pensa ele, sem parar de caminhar, já que enquanto há sol há muito o que se cumprir de atividade. A ladeira bem que poderia dar em um museu com suntuosa pompa. E esse homem já apreciava com contemplação o próprio ambiente, disso tinha começado a ter consciência. E praça e cinema e casa e ruas. Ah! as ladeiras dessa cidade o consumia de desejo. Se o objetivo agora não fosse apenas o andar, talvez ainda o fizesse mais...

12 de dezembro de 2008

possível parágrafo


Eu nem queria estar aqui, mas é conveniente. solidão em prosa é como verso sem medida, como livro sem dedicatória, como mar sem bicicleta ao redor. como se não existisse temporal, eu não queria estar aqui, mas o que fazer se há a vontade e o desafio em contrapartida? Se há tudo de vontade e de desesperança, diria que não é mais possível pensar em outro lugar, mas eu não queria estar aqui. ontem eu até pensei nisso como a segurança dos passos e até fiquei mais feliz por ver escolhas pro destino do outro. seria então eu egoísta? se sim, eu não queria estar aqui. E mais... faltam-me outros passos a dar. querer ficar, beijar o menino mais doce que me propuser um beijo e ligar sem destinatário para usar o móvel falante bonito. Que me propõe quem me lê? sim, querer pode ser não desejar, às vezes. tem mais passos a ouvir no chão.

8 de dezembro de 2008

G(D)ramático











ponto de exclamação


ainda não se sabia se era susto ou era algum outro movimento diferente em seu ser. poderia se contentar com pouco, com um dito sentimento qualquer, mas prometia averiguar profundamente o que lhe ocorria nesse instante.

ponto de interrogação

Aqui há de se demorar mais um pouco. Por que, você sabe, quando se há dúvida a vã interpretação do ser traz a necessidade de interpretar. Nesse caso a dúvida pairava sobre a composição do que há por vir na produção humana. Mas isso é uma questão muito longa, duvidou de sua capacidade e de sua querência no resolver esse enigma e então ficou na simples tentativa de saber se teria a possibilidade do ato criativo estar ligado à uma função simples de decodificação do universo, como tarefa técnica. Fazer uma peça de teatro como se constrói a cadeira da sala é possível? Pensou sem relutar! Não quis dar resposta, é óbvio, afinal tinha que ocupar sua tarde com algo que fizesse sentido e o pensar... Ah! o pensar.

dois pontos

Isso por que o pensar não é ocupar um lugar no tempo. É o próprio tempo da humanidade. Orgulhou-se de ter ponto em comum com o ambiente, a vontade de pensar, de se decobrir na descoberta que talvez pudesse fazer com aquela reflexão toda. Também não abria mão de questionar os passos simples que dava. Tal como a música que escolhia no mp3 ou se a cor da capa de seu livro favorito combina com seu conteúdo e vice-versa. Mas ia parando por aqui já que a explicação não deve ser maior que a dúvida.

e ponto de continuação

30 de novembro de 2008

carta à Banda Larga Cordel


A pretensão desse texto é a rede. Talvez seja uma pretensão enorme, mas penso que o posso por aqui. Esse é o maior desafio dele por que não dá mais pra deixar de dar atenção ao que nos circundeia: a rede. E a rede não como lugar de apenas descanso (mas ele também, e seu balanço contínuo), mas como seu lugar de pontos de encontro. A rede é como se fosse a costura dessas palavras e não seria outra coisa senão uma pretensa e sonora ilusão de que estejamos em outro ponto de história no qual as palavras escritas tendem a se formar símbolos interconectados. Nesses tempos (e tempo é uma palavra contínua, como gerúndio) tende-se a pensar que não andamos - ou que a pura estética solitária nos redimirá, estes não se atentaram para a potência da rede. Há os que temem em prever que as classes se rebelarão no fechamento das fábricas, nas greves sindicais. Estes também não ligam pra conectividade entre os povos.

Eu ligo, ou melhor, eu conecto!

Há algum tempo, recorre o pensamento de que a continuidade da história e a prórpia construção dela se baseia no desenvolvimento dos conceitos de política, cultura e desenvolvimento. Mas hoje há a imagem e a criação dela que nos insere no mundo, pelo menos na história deste. Não se trata de romantismo a liberdade de criar e isso está muito claro quando Gil (o estopim de uma revolução) nos faz pensar que viver em comunidade hoje se trata de ligar-nos em ciência e espírito em infovias libertas, onde o copiar é sincero e potencial e as palavras vão se acrescentando em sentido. Esse texto é uma cópia, assim como tem a pretensão de rede (como se disse no começo). E você poderia clicar aqui para desvendar as imagens que se passa pela vanguarda desses pensamentos, mas é bom mesmo que você crie - ainda estou aprendendo.

A criação de subterfúgios e de metáforas para dizer o que vem a seguir seria mais simples, porém esse quer se dizer uma carta para agregar outros a esse mesmo pensamento: de que só a conexão nos libertará!


Uma série de pensamentos se abrirão e eu não me furtarei do pensamento de um movimento novo onde a arte e a criação artística é um ponto pungente para nos emancipar. Onde a política de nos fazer cultura junto, a nossa dimensão territorial, o nosso ser-tão Brasil, a mobilização e ação política e uma Banda Larga Cordel se constitua dinâmico e vivo para que a gente fale de si, produza novos caminhos com outros lados do espaço/tempo e participe ativamente da história!

O movimento de 22 e o tropicalismo está renovado nesse momento. Que encontremos a chave que nos tire da imagem de inércia e nos movimente em coletivo e conectados!

pela aula-espetáculo Banda Larga Cordel de Gilberto Gil e para as mentes pensantes de Sarah, Vavá, Maria Eugênia, Zé Diego, Vânia, Raíça, Tom Zé, Mônica, Patrícia, Juliana Lima, Franklin, Regina Casé, tantos outros e você se quiser assine embaixo!

Foto: Gilberto Gil e Banda Larga

24 de setembro de 2008

Um homem de sonho - parte II


Nem sequer pensaria no simples ao chegar lá. Lembraria que batentes não são obstáculos em si, mas a própria decisão de alcançá-lo. sorriu ao sugerir um fugir da realidade, mesmo já estando do outro lado, mesmo escolhendo sem ao menos ter qualquer certeza de que naquele outro espaço oposto saberia, leria, viveria mais outras experiências inovadoras. Bem verdade que facilitaria caminhar por este lado, levantou essa ressalva, mas o que poderia encontrar nesse novo caminho? apenas uma estrada? Outros tantos de beleza? Aguçado desejos de ter? Distraiu-se com a própria calçada, com o sincornismo dos pés que passava (também olhando onde pisava). Podia voltar, mas não mais interessava o antes, apenas como um soluço de vontade de saber o por quê de estar caminhando. Movia-se pelo caminho acelerando mais cada passo, sem ter tanta pressa. Corre-se pelo tempo nas vias da cidade e o tempo não parece sequer se preocupar com esses presságios de vontade voláteis e correntes. Para saber, o tempo lançaa enigmas maiores do que a própria matemática e a filosofia juntas, já que nele tem os espaços e os outros contidos em um conjunto metafórico. Liberou os braços pra fazer movimentos maiores sem atropelar o andar alheio. Assim poderia olhar mais suas próprias mãos, suas próprias delicadezas no seguir, suas sensibilidades. Andar, pra ele por dentro da cidade, tornou-se rio em si. Como um desaguar límpido e taciturno ao saltar as pedras e desviar-se do que vem adiante. Pelo movimento, ainda pensaria um pouco mais antes do chegar contínuo.

Ilustração: Igor Souza

22 de setembro de 2008

Um homem de sonho - parte I*


Ele estava do outro lado da rua. Tinha seus 26 anos. Nem parecia querer atravessar a pista. Queria mesmo era contar o tempo que o sinal de trânsito estaria se movimentando. Isso porque ele não precisa de mais nada do que o pensamento circundante. Não lhe falta movimentação. E, enquanto pensava nisso, ele deu passos a cruzar aquela estrada. Muito menos sinuosa e mais destemida do que em qualquer outro momento que já tinha vivido. caminhou por um tempo com aquela sensação de liberdade nos peitos. Nada de especial parecia soar daquele desafio de sair de um lado pro outro. Apenas ele era especial e ninguem, realmente, tem alguma certeza sobre ser assim, sozinho e exclusivo. Atravessar a rua é olhar para tantos lados for necessário. É como viver. Por que viver, não é apenas tempo para escolher caminho, mas coragem dos passos e cuidado com o que há por vir. De certo não há um viver somente, assim como não há um apenas fechar o sinal. Entre a pista, carros e as pessoas, tem o pensamento. E como tinha dito, ele não precisava mais de outra coisa enquanto não andava, a não ser o pensamento. Agora que tomava propulsão chegaria ao outro lado depois de pensar e depois de gente, de sol, de vento de outras vontades e ainda mais pensar. E se tivesse alguma dúvida no meio do caminho? Sorriu ao aguçar essa possibilidade da dúvida... Até por que os caminhos não tem asfalto de verdade, um pé não empurra os ideais pra poder seguir com o outro. É quase involuntário aprender e seguir. Como equação onde a divisão do refletir e a estrada é sempre a dúvida, só se falta multiplicar pela coragem e pronto... certo de que não há ciência exata, chega ao outro lado da rua ainda com as mesmas questões que se fizera no meio do caminho. E o outro lado começa a existir.

* conto dividido em frações de vontades
Ilustração:
Vânia Medeiros