29 de dezembro de 2014

Liberdade em sete passos


Ela planejou a liberdade em sete passos. Em um determinado surto de ilusão, decidira argumentar com si mesmo para decidir como conseguiria continuar a caminhar. Pensou que não seria tão fácil, mas se não conseguisse planejar o mínimo possível, não teria estrutura para manter-se. Anotou, então, no caderninho dos desejos:

1) O corte

A liberdade é um corte áspero na disputa entre estar só e não estar. É preciso encarar a dor da fenda, até mesmo não ter medo do sangue que pode escorrer. Estanca-se e se sutura grosseiramente, pois tomar decisões parece movimentar os lastros das cicatrizes e marcas que devem ficar com o tempo. O tempo, alias, deve ser o motor da ruptura que livraria do espaço de solidão ou aprofundaria o temor. 

2) Silhuetas

Aprender a ver com sombras escribas. Algo como se pudesse ler sem obviedade as coisas do mundo para interpretar a si próprio. Sem deslealdades consigo, encarar verdades para além da luz certeira. Ampliar a sensação de sentimento abstrato para alavancar as estratégias de vida.

3)  Solitude

Encarnar com seriedade o lugar da aceitação sobre estar só. Compactuar com a lisura do medo de não completar-se em outrem, mas de se saber autêntica e impetuosa comigo mesma. Fora o rio que se derrama por dentro, ampliar o sentido de ser por si parece grandioso na destreza de ser livre.

4) Pensamento complexo

Mover no cotidiano a partir de simples deduções e significantes parece nada óbvio. Quanto mais simples as conexões feitas, mais complexas e não evidentes as deliberações sobre a caminhada do mar de dentro. As ilusões são imprecisas e ao mesmo tempo tangíveis nesse tópico, talvez aqui a mais difícil aquisição do ser.

5) Bifurcações

Deixar de lado automatismos imprecisos assim como bifurcações. Sair da reflexão puramente moderna da sua condição para afetar os binarismos comuns quando da escolha possível. Ampliar as condições da estrada, mesmo que me demore em tomar as decisões reais sobre o que deixar de fora. Tomar pra mim as responsabilidades de não serem outros os lugares de escolhas, mas que há muito o que narrar para me dizer vivente.

6) Os impropérios 

Gritar inverdades - mais para novas descobertas - por aí, de forma que seja convincente de que mais se vale a defesa do que se acredita do que a verdade propriamente como tal, já que ela não existe de fato. Isso significa abstrair ainda mais a minha relação com Deus, como se eu pudesse me redimir de todos os pecados insólitos, mesmo que a heresia seja um dos piores.

7) Desaquecer o fim

Esfriar a hora da partida para deixar tudo bem orquestrado. Deixar que o medo de não ser/ter mais provoque uma agonia média em um outro "vivant" e passante por esse caminho. Daí a liberdade toma ares de ainda mais convicta. O processo se dá com desburocratização dos melindres, destronar licitações para relações e orquestrar meu choro mais temido pra quando estiver plenamente sozinha.

O caderninho não tinha mais folhas. Parece que esse tom lúdico, transformou seu plano em mais um organizador de ilusão de si do que a convicção de mudança. Porém, se a ideia sempre foi não ser e esse esvaziamento por completo motivou o sono que se abatia. Apagou cada frase como um acalanto. No final, só uma borracha desgastada e um sorriso no canto de boca...

Ilustração: Vânia Medeiros

2 de dezembro de 2014

De estar no caminho desperto (2)*



Saí por aí pra não fazer sentido

Os lugares se orientavam impossíveis
O caminho esfusiaznte
Tudo era um porém,
Mas se emanava por uma linha sensata
Um destino multicolorido
Que fora destilável.

Era tarde e eu saia
Andava com expectativa
ampliava sentidos
Insinuava laços

Me estiquei por goles d'águas
amplitudes sofisticadas
Na espera de um rompante

Me liberei naquele abraço
Do tipo que nunca tinha se dado
Acarinhado no conforto
Como se flor fosse!
Reconhecendo espaços distraídos
Como abre-alas
Como cicerone
Ampliando espaços afetivos

Estava junto!
Conectando sentidos
Fantasia salientada
Sempre em boa companhia
Com danças desengonçadas
Liberando desejos

Fome de bola de fogo guia
Caminhada soturna
Por noite adentro
Por coragem de segredos revelados
Por intimidades entrelaçadas
Dos olhos infantis satisfeitos
Das inquietudes dos tempos que virão

Disfarçamos olhares
Deslumbramos destinos
Fechamos as portas
Dividimos a cama
Entrelaçamos as pernas

E continua...

*Trecho da música Martelo Bigorna de Lenine

24 de novembro de 2014

De estar no caminho desperto*



Saí por aí pra fazer sentido

Os lugares se apresentavam possíveis
O caminho era fascinante
Tudo tinha um porém,
Mas se encaixava no fato certeiro
Um objetivo claro
Que mobilizava pelas escolhas feitas.

Era noite e eu saia
Andava com esperança 
Surrupiava silêncios
Condicionava os passos
Me debrucei por sortilégios
Dizeres sofisticados
Na busca de um rompante

Me mobilizei pelas ladeiras
Famosas insinuantes que são
Rondando tambores ancestrais
Como se flor fosse!
Não tinha menino imaginário, nem girafas,
Mas ampliei a busca, agora nos sonhos
Um horizonte estampado
Um espaço imaginário e tátil

Comi as entranhas
Minhas origens, minhas buscas
Fantasia apimentada
Sempre em boa companhia
Satisfazendo o corpo em anseio
Provocando a alma de desejos

Andei sobre as pedras do lugar
Desorganizadas e convocadoras
Cheias de novas descobertas
Reluzentes de curiosidades 
Pleiteei sambas orquestrados lá no alto
Rodas dançantes lá embaixo
Descambando em café de baile

Talvez por desejo ou coisa igual
A imaginação do rosto estava em vários
A sensação do toque perseguia
A busca me agendou a alma
Mas, no final, não tinha você.

*Trecho da música Martelo Bigorna de Lenine

4 de novembro de 2014

Rompantes de silêncios


Éramos dois a sós. Um ao outro em fúria. Ilegítimos vestígios de sensatez para um casal malfeito. Éramos sós a dois, do tipo que não se reconhece em qualquer imagem desleal que passa no quadrado de moldura branca - a tal da janela. O devaneio se orienta por não ter um pressuposto contínuo entre um e outro e por isso não tem olhos nos olhos possível, não tem toque de mãos sensíveis, não tem ilusões ancoradas em tempo e espaço.

Foi quando percebi que, mesmo assim, mesmo depois do nada, meu corpo debruçava para o dele, talvez como pressuposto para me contrair pela vontade, me redimir de tal carência, me sucumbir de vez na liberdade de estar dentro do outro.

Era um desmantelo, um ofuscar do olhar. 

E a utopia se descrevia assim: cheguei atrasado/você me espera/sorri ao me ver/me pega pela mão/me fala alguma coisa sobre "s a u d a d e d e s s e c h e i r o"/comprei seu ingresso/eu compro a pipoca/toquei sua mão sem querer/aperta meus dedos em resposta/nos olhamos///

Rompantes sinceros de apatia e de silêncios se coordenava com o jeito longe de perto do qual ele falava sobre vidas alheias. É que era a justificativa para dizer-se impedido e eu era como um macarrão que cozinhou demais, sem saber onde colocar os gestos.

Afinal, estava alí com braços esticados e coração aberto. E estava só!

*Ilustração: Vânia Medeiros

30 de março de 2014

Você, a liberdade em passos.


E foste sensível passeando pelo ambiente que mais parecia sua própria imaginação. Roubou uns três sentidos pra não se sentir sozinho e inadequado, até por que nem tão longe ali poderia haver pontos de escuridão, daí então, o medo... Foste mergulhado à seco pela paisagem que se redistribuía passo a passo sem nem sequer janelas ao redor, agradecido por você ser atento. E quando você nem imaginava terminar o passo, estava ali na frente um grande desafio, a liberdade!

E não é que ela te paralisava, ao contrário, mas ela tava ali, contente, gigante, com um volume maior que todas as prisões que se conhecia. Só não era mais robusta que o amor que estavas a procurar, mas quem compararia o amor e a liberdade em sã consciência? Seu caminho não tinha escorregão, nem um tropeço sequer. Uma agonia isso, sem impulsionamentos compulsórios, mas também desviando de toda dor. Dito isso, ela ainda continuava ali e o fato era que estava sendo agora visto encarando a liberdade.

O que tirar da cartola? A ideia de que poderia realitivizar todo seu arcabouço afetivo para planejar da sua estrada o que quisesse tendo a liberdade como bicho de estimação? O interesse de dominar o estado de solidão sem qua haja alguém para dividir a decisão sobre seu próprio destino? Ou nada, não teria nada para ser subterfúgio para a magnitude desse seu possível encontro com o ae libertador que te enchia os pulmões nesse momento?

Você ali inquieto e eu a contemplar sua divertida agonia, torcendo pra que desse encontro escapulisse pelo menos um tantinho do seu olhar para um possível encontro das nossas caminhadas.

A verdade é que você é muito mais do que conjecturas e esse encontro com a liberdade, vejo de cá, foi apenas mais um momento de vivacidade do seu espírito. Trata desse passo como se lembrasse que ser é o grande desafio, marcado pelo não ser, em contraponto com o outro, delineado por uma identidade contextual, referencial.

Dai você simplesmente andou sem olhar pra trás.

29 de março de 2014

O caminho muda o sentido do poema


A intenção me fisgou
tal peixe grande num aquário
tal pescador em desalinho
tal liberdade - e desejo
assim como linha forte de atenção
só tem sentido se a captura
for de olhar com te(n)são.

E foi assim refeita a lógica
o real intento de sabedoria
fugiria de qualquer racionalidade
pra prestar um serviço ao sensível
aquele forte e coloquial sentido
um lugar de amplitude de sensação.

O destino se alargou com 
aquelas palavras dissonantes
que rimavam estritamente
fora de si, dentro de fora
como uma bifurcação sentimental
convocando escolhas em desafio.

E então, o querer mais que bem querer
se faz intenso
tão instável, quanto natural
me revela
tal pescador em aquário
tal liberdade em desalinho
tal peixe - e desejo.

E no fundo desse rio
a estrada só convoca
e, num ponto de beleza,
o caminho muda
o sentido do poema.


Para ele, o peixe!

*para ler ouvindo Itinerário - de Mart'nália

9 de março de 2014

Sujeito indefinido [ou carta à ilusão]



Sabia-se que havia um determinado sujeito oculto por aquelas bandas. Sujeito sisudo, não introspectivo, dentes amarelados, olhos fixos de tristeza para o infinito. Diziam por alí que era gente boa aquele rapaz, que cumpria ordem, tinha opinião sobre tantas coisas e que tinha uma órbita rondante que favorecia sistematizar seu olhar em fluidos ora coloridos para ser vibrante, ora preto e branco pra ser tocante. A lenda pontua que ele era inofensivo, mas que mergulhava de cabeça na sua rotina para espantar fantasmas e medos torpes. Até aí tudo normal, mas o que espantava mesmo nele era a capacidade de se iludir.

Seria possível alguém tão ingênuo - ou até mesmo tão punidor de si mesmo - que admitia romances imaginários, paixões vertiginosas sem possibilidade de retorno, delírios de amor sem afeição correspondida? Enquanto passava ostentando um drama individual criado pela própria vontade de sê-lo, não era visto com bons olhos pela vizinhança cansada dos mesmos tropeços do tal sujeito. 

"Ele não sabe não, viu?
E às vezes dá como um frio
É o mundo que anda hostil
O mundo todo é hostil"*

Vestia roupas comuns e tinha ojeriza a não ter cheiro. A ideia nunca foi chamar atenção, mas ser creditado pela sobriedade. Nada exagerado, mas intempestivo. Nada comum, mas disforme, como algo em pleno desmoronamento. Ele poderia ser comparado, inclusive, com um não ser, ameno, na medida exata de não ser oito, nem oitenta, um número como o 37, sem relevância.

Não poderia se incomodar publicamente com a ilusão tão desmembradora, já que lhe era natural que acontecesse. Se lhe coubesse um produto análogo, diria de uma novela sobre a qual a previsibilidade já incomoda os telespectadores. Sujeito dito comum, relativamente descartável, dispensável. 

Foto sobre ilustração: Vânia Medeiros

* Trecho da música De onde vem a Calma do Los Hermanos

5 de março de 2014

Carnavália VIII



No princípio era o mar... era assim como uma condição sui generis de expectativa para uma abstração emergente. E era só aquela imensidão que se perde de vista, verde ou azul, ou colorido. No início se fazia o mar que era gente. Como água perene e distribuindo fluidez escorregadia, salgada, saborosa. E fazia parte de um oceano de sensações que misturavam liberdade e disposição para o outro, no clima convocador de desejos. 

A ideia foi mergulhar nas profundezas do desatino feliz. Na grande ilusão de felicidade que se somava com a energia pulsante do prazer em coletivo. Tava tudo iluminado naqueles caminhos, convocando fisgadas ululantes, arriscando jogadas sonoras em redes mobilizadoras. 

E íamos como cardumes em um grande fluxo com pulsações diferentes, com cores que se misturavam, com sorrisos exaltados e inspiradores, com corpos suados e/ou molhados em toques, com beijos sinceros em querência, no molejo que mais parecia uma redenção comum. Mas o melhor era os encontros. Ah! Como eles são lindos naquela avenida. Comandam abraços apertados, mesmo efêmeros. Invocam cantos em comum olhando nos olhos como cúmplices. Mãos que se apertam efusivamente. O calor do toque.

Mas também tinha uma paisagem de disposição, esse orgulho de ser, a leitura política de si mesmo, o desajeitado balançar de corpos, confetes, serpentinas, espumas. Travestimentos, criação de personagens que se entrelaçam num grande teatro de alegria. 

E a pulsação vibrante me tomou ao mar da Baía. Eu, simples pescador, na carnavália!


para o carnaval com amor! para minha liberação de corpo e mente. para a saúde. para luiz caldas e armandinho. para o cordeiro que me trouxe a emoção reacional. para os meus. para henrique, caio, mário, ewerton, iracema, jamile, digo e gil pela disposição e atenção. para zédi e talita, amores, sempre juntos. para karlene minha companheira e pelas risadas só nossas. para dora e iuri pela acolhida. para aline, como sempre na lindeza. para claudinha e flavinha pelas gargalhadas. para lulu pela completude e amizade. para simone e isa, queridas. para o peixe antônio que me tomou. para xotoko e diego pelas sempres boas conversas. para guilherme de surpresa. para dido com carinho. para o ilê e o povo do curuzu que me tomaram de emoção. para brown, bailinho de quinta. para o baiana system, arrebatador. e para todas e todos que optaram por me abraçar no circuito, na folia, no amor.

18 de fevereiro de 2014

Ritos cotidianos



Passava por duas pontes em seu roteiro cotidiano. A primeira estava lá sem grandes reflexões, apenas como um conector de um lugar a outro onde o desafio era apenas o atravessar simplesmente, curto processo, possível fazer sem grandes talentos. Já a segunda era um pouco mais complexa, aquele quase viaduto sobre a vida estava ali mais como um decodificador de transposição do que um catalisador de passagens. A transposição de um ambiente para outro por ela não existia sem um olhar difuso sobre o que poderia significar estar do outro lado, cotidianamente. A segunda ponte era torta. Isso mesmo, entortada para um lado. Sempre havia aquela desconfiança sobre seguridade e a partir daí o que fazer se acontecer dela se arrebentar e ele cair deitado sobre a rotina de outrem. 

Tentava sempre desligar do que estava a fazer: atravessar a ponte que ligava o lugar de antes para o lugar de depois por cima do confuso ambiente do requintado dia-a-dia. Ela [ele, depois que passava], conseguia o bem estar quase sempre por ouvir música. Sabia que se pensasse no tal ato de ser um e metamorfosear-se em plena passagem, talvez nem conseguisse passar. Era como tentar tornar habitual, como andar o era e, assim como no andar, pensar dificultaria o que poderia ser comum.

Logo, ela, não mais ele, olharia com parcimônia para o triunfo de mudar em passos largos pelo caminho. Era risível a forma como a primeira ponte nem lhe mobilizava, mas a segunda era como ultrapassar um arco-íris almejando tesouro dentro do seu próprio destino. Imagina* se teria um sorriso legítimo para dar agora. 

Era ele quem almejava o desafio e era ela quem transpunha a passagem. Uma imensidão de obstinação e paciência com suas próprias faltas inacessadas. Ilusão podia ser o adjetivo utilizado, mas naquele momento de falta de verdades absolutas sobre si, pensara-se como uma janela que se fecha ou um vidro que absorve a luz para outro lado de lá. Era um vazio penetrável. Ficara algum tempo indisponível depois de seguir em frente logo após transformada. E voltava a ser ele assim que o encanto pragmático se descompunha. Em outro dia de rotina, outras duas pontes esperavam ser desconstruídas e assim se dá o cotidiano.

Ilustração: escada de Vânia Medeiros

* Daniel Jobim diz que essa foi a primeira música feita pelo seu pai que não queria letra. Chico Buarque teimou e a fez. Cantou esse último com Mônica Salmaso lindamente.

11 de setembro de 2013

Resposta [ou quando a palavra é o silêncio desenhado]


Foi imperativa sua resposta ao meu amor...
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Quando não mais eu conseguia ficar assim, insuflava você a dizer que a resposta era o silêncio e o vazio. 

Na minha insensatez, parecia dizer que qualquer coisa no mundo era mais interessante que minhas missivas, minhas intransigentes indelicadezas, meu corpo em desdesejo, meu destroçado pensamento sobre a beleza, minha superficialidade latente, meu ser em desengano.

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Tem mais um tempo no vazio, pra que eu me acostume ao silêncio.

2 de setembro de 2013

Meu amor não é meu!



Me vesti de um deslumbrante desatino. Uma túnica que cobria as minhas vergonhas sem dó. Era como uma contrapartida para que minhas insanidades estivessem palpitantes e destrinchadas em uma sintonia fina com o desejo. O lugar que eu estou só vejo interseções entre a imprevisível solidão e a robusta necessidade de estar só, tanto que não me parece sorte, mas hipocrisia interior.

Meu amor não é irrestrito, pensei. Mas dissolúvel e imaginário. Sempre que posso argumento que não preciso de vitaminas de olhares desejosos, mas sempre me contradigo em pensamentos. Continuei a refletir sobre como o contraponto me faz mais duvidoso.

Ora, não seria a ilusão o preço da conquista? 


Exonerado, a vicissitude corrompia as entranhas como sangue irrompendo veias não dilatadas. Ardia a incompreensão absurda do não viver. E mais que mais que fosse, geralmente só se sobrepõe ao gosto, o gesto simbólico do: "não te quero mais", na verdade nunca me quis mesmo. E então a fantasia era um ciclo sagrado de maus presságios e de insensatez.

Pra que então os pensamentos, questionou de forma ridícula em voz baixa. Ignorante que era, caberia mais algumas tentativas de saber para de fato chegar a conclusão de que sem o pensamento o vigor que é a vida estava chegando ao fim. Se assim fosse em pensamento, teria sérias consequências, avaliou? Não valia a pena continuar.

Nadaria uns 100 metros a frente sem coragem, descobriu que mesmo que se aprofundasse ao oceano de amor não tinha merecimento, tal qual de volúpia no olhar de outrem pra si. E o ego afundou...


 *Trecho da música A linha e o linho de Gilberto Gil
**Trecho da música Figura de Retórica de Gilberto Gil

29 de agosto de 2013

Ela era arara azul e pavão no rosto



O corte no asfalto tem gosto de cor. Uma cor agridoce e no final azedinho. Tão acentuado seu paladar que parecia carinho nas papilas gustativas em forma de intensidade de luz. É, porque cor é luz também! Isso se sabia pela reação que teve ao ver o chão: LAMBEU! Pôs a língua naquele lugar descartado como uma forma de protesto pela falta de qualquer coisa que fazia caminhar naquele lugar. E isso, no final, era desejo de ter arco-íris na boca e operou pela textura que tinha aquele prazer.

Ela desfilava uma cabeça de pena. Isso mesmo, uma cabeça penacho exuberante. Era um pavão com cauda na cara, exposta, maliciosa e colorida, tal forma parecia gostosa de tão vivas que eram os tons do seu rosto. Seus olhos eram dois grandes círculos formados no penacho de arara azul.

No fundo, se empenhou na virilidade desprotegida. Rebolava distraída como se os quadris deslocados fossem impeditivos para o caminhar. Parava em qualquer lugar para cuspir fogo, pintar postes ou suas unhas, ouvir o mar desformar ondas

Seduzida pela rua, comia a passagem tão irreal que gananciava tristeza em prazer. Como cores em gostos!

Ilustração: Flávia Bomfim

20 de agosto de 2013

Cartas a um jovem terapeuta (Parte I - sobre o sexo)



"Me ocorria que era uma divindade o corpo. Um universo de milagre entrelaçado pelo medo e pelo desejo. Porto estratégico de vontades, ele ditava as regras da consumição, da excitação. E enquanto tateava pela inexperiência, ocupava-me de saber se esse tal que eu possuía alertava outros pelo exalar sutil de convocações, pela sua forma moldada para olhos alheios ou pelo jeito que se deslocava no universo. Só assim, claro que também com as memórias e marcas dele (o corpo), poderia merecer o toque e o gozo. O pintava, o comia feito ruptura, alimentava ele de vícios e de vazios, além de saborosos afetos, claro. No meu caso e na maioria das vezes sempre o achava imperfeito. O problema foi acha-lo demasiado incapaz de atrair outro. E por isso muitas mudanças foram feitas. Sinapses reestruturadas, alegrias pré-moldadas, corretivos desenhados especialmente para tal coisa. E vamos testar. Levei-o a bailes para que mostrasse desenvoltura, levei a conversas que estimulasse a construção harmônica de posicionamentos com conexões bem encaixadas, argumentei por leve o levando pelas caixas de bits (algumas vezes iluminando-o para fios). Antes de dizer-lhe rechaçado, admito que o enchi de esperanças de que havia desejo puramente em descobrir-lhe. Posto que de experiências, notou-se sua incapacidade de interessar. E tudo que lhe houve de toque até aqui resulta em ansiedades e vontades desproporcionais. Acometeu-se de uma vergonha assustadoramente prazerosa e não me libera sem restrições pra agendar novas tentativas. Melhor que não as tenha!"

19 de agosto de 2013

Sold out



Comprei duas doses de tédio no supermercado vizinho à minha casa. Desdenhei algumas vezes da minha condição de procrastinador, relutando contra a preguiça de mudar minha postura sobre mim mesmo. Afinal, para eu descobrir se algo tinha saído do lugar no mundo lá fora, no mínimo tomaria um banho, escolheria uma roupa apresentável, me veria melhor. Tudo isso às custas de uma visível revolução que nesse momento se chamava deixar pra lá as cobertas que me protegiam do frio e a cama que me davam prazer em me ajudar a reclamar de mim com sabedoria de mestre. Pois então, decidi comprar uns quilos de alegria e até mesmo quem sabe uns tortos litros de desejo.

O que faltava de libido, ardia de uma esperança fatídica de que eu não mais soubesse os caminhos de fazer tudo da mesma forma como fazia anteriormente. Até busquei promoção que me animasse. Até pesquisei texturas, sabores como projeção e impulsionador. Tava decidido! Abriria aquelas portas para sentir de perto aquela alegria que eu levaria ao caixa orgulhoso. Num súbito pensamento grotesco afirmei pra mim que o preço que pagaria pela peça adquirida seria muito maior que a do arrependimento do gosto não absorvido. Era notório que me perdia na escolha, mas eu andaria alí sem me proteger.

Desci ofegante as escadas para não topar com outro possível comprador nos elevadores. Tudo enlatado, talvez. Eu mesmo nunca deixei de ser. E depois, prateleira por prateleira fui seduzido mais uma vez por caras sensações de conforto sem desfaçatez. Comprarei, pensei. O risco nem era tão grande assim. Ao que pese o rótulo que eu mesmo produzi, tinha mais uma vez consumido um punhado de ilusão aparente sem prazo de validade a vencer. 

No final, se existe um desses pra vender, quem não valia nem um centavo era eu. Que aliás nem teria comprador. 

31 de julho de 2013

Dislexia emocional



"Estava a te observar", disse ela a empenhar um tom reflexivo. Continuou: "e parece que mesmo que não assim o fizesse com tanta frequência, me parece que, repito, mesmo assim, conseguiria diagnosticar esse estimulo repetitivo que te acomete, seja para gozar de si, seja para se sentir equitativamente belo".

Eu só ouvia, atento!

Foi então que gritou impiedosamente: "SUA PASSIVIDADE ME AGRIDE!" E retomando com mais calma, "não vê que esse castelo de cartas tende a desmanchar como de tantas outras vezes? Vai me dizer que tolera o descaso com o carinho que eu poderia te dar se não fosse essa sua irreversível precisão de solitude...". E parou para ouvir qualquer reação

(...)

"Há alguma liberdade nessa sua falta de transgressão? Deve haver um prazer inóspito em ser envolto em ciclos onde a carência afetiva impõe lugar de destaque na reação frente a qualquer ato de carinho alheio. Não vê que esse é o pior tipo de traição, a dislexia emocional ancorada num ridículo mal estar com a autoestima?". Ela estava decidida a virar o jogo nesse momento, como se quisesse dizer que em determinada idade as desilusões amorosas não passavam de inconsequentes imaturidades.

Não queria ouvir essas palavras torpes. De forma alguma via legitimidade nela que já irritadiça. Qualquer remediação para viver é uma ilusão vexatória, ele pensava! 

"Há o amor em mim?", perguntei quase chorando. Ela parou de falar!

Foto: João Milet Meirelles

30 de julho de 2013

Atraídos pelo sonho


(...)

Corre, vem pros meus braços feito criança em sorte.

E assim o sonho rebateu o diálogo:

Ele - Não mais faz sentido a ilusão de querer, sobretudo em tácito presente de compaixão. Lânguido, não sou mais tão disperso quanto deveria...

(interrompeu o outro)

Ele (outro) - Calma aí, não me peça nada além do que você mesmo não pode me prometer. Veja só esse arrepio todo da pele, signos insolentes de um desafio demarcado pelo carinho. Vê se pode voltar atrás assim de tudo!(?)

Ele - (esbaldando-se em gargalhadas) As palavras nem sequer parecem tão risíveis, mas eu estou a te olhar profundamente nos olhos e interpretar um futuro sem sentido.

Ele (o outro) - Isso só pode ser masturbação mental. Um rodopio imerso em um contingente solitário de vícios passados, nada mais. Só pode ser desejo, só pode.

Ele - E daí que fosse? Eu não quero a sorte natural de braços apertados frente aos meus... quero a pluralidade da paixão sobre minha alma soberba e impaciente, tentando raptar qualquer que seja a vontade plástica de suas entranhas.

Ele (o outro) - Como se eu realmente fosse livre...

Ele - Como se você optasse pela paixão desmedida usual. Se deixasse levar pela rasteira do passo em falso que é o encontro.

(Tinha uma outra pessoa, Ela, que não conseguia falar, mas que atentamente se deixava levar pelos argumentos)

Ele (o outro) - Eu sei, eu sei! Minha angústia é assumir que estou melhor do que antes, mesmo sendo antes o melhor pra seguir. Não dá pra disfarçar.

Ele - Você está como eu.

Ele (o outro) - Eu estou assoberbado, na verdade. Não tenho mais tanta voz, tenho confissões intermináveis e desabafos constantes a produzir. Nesse caso, acho que não sei mais se me atrai o novo.

Ele - Nesse caso, meu amor, o que me atrai é um novo par de calçados comum. Uma boa cerveja gelada e um pensamento complexo sobre as coisas simples. Me atrai você.

Ele (o outro) - Me atraia!

(Ela continua a ouvir atentamente, e só.)

Tudo isso, como se fosse sonho....

Ilustração: Vânia Medeiros

29 de julho de 2013

Cheiro de parque [ou magnetismo em tato]



Um gosto de verde me pegou. Leve e refrescante sabor me apalpava os sentidos. Ora, se a brisa do mar amparava os arbustos, de certo era daí a sensação de apego a matas tão vivas. E foi assim que foi, os dois alí amparados pelo vento, vertiginosamente sutil em desejo. Era ali um entrecorto, um desequilíbrio, um olhar atento e um amparar firme. E ainda que tivesse sentido tudo aquilo, nada poderia ser descoberto senão o poliamor, um amor múltiplo transfigurado em corpo tomado de ardilosa sensação.

Foi um cheiro de mato, um lago tão extenso quanto a visão poderia alcançar. Foi alí nessa paisagem de janela que um braço tomava o outro de prontidão, sem soltar, com seu único desafio de prender a chama acesa para que não afetasse o limiar externo. Tudo isso em pleno arrebol, assuntado.

E então, ponto por ponto de desejo os prendia. Embebecido de doce vinho fresco, partilhado de carícias que entoavam sons abundantes. E então fez-se o toque, como parte de um alvoroçar. Descobertas sensoriais, deslumbres desformes, corpos em retidão malemolente, exalando odor de suor e toque. E antes que pergunte por eles, eram dois, ele, ela e tantos outros, um por dentro de cada um, como um só!

O ápice apontava para a descoberta de pontos de sensibilidade. Se apressava para que apontar para o lugar certo em tato colaborasse para um contorcer e arrepio do corpo de outrem (visto que eram tantos alí incitados). Cruzou-se as pernas em coreografia, desfigurou golpes de prazer, ampliou os toques em desalinho constante, desgovernou sentidos. E o olfato agora mergulhado em literaturas e chuva artificial pedia gozo deslumbrante e gosto de pêra espumando todo corpo.

E então, como se um magnetismo viril acompanhasse os sentidos, tava alí, no caminho com cheiro de parque e lagoa em poros.

16 de julho de 2013

As Pintantes


Eram disformes em solidão. Ora, para quê tanta envergadura e tédio, se se podiam mais obtusas? E foi assim que acolheram pedras e poeira no cotidiano. Uma mais que a outra, de fato, sem perenidades vacilantes, sem agonias ou vícios falidos. Um dia se embrenhou pelo campo de matas irreconhecíveis como se não tivera medo, mas era mesmo um amarelo ouro de cidade sitiada que a prendia. Uma sem medo, como se fosse um, uma travestido de linguagem. Outra "sujismunda" de rudes alegrias pululantes. A outra mais normal mesmo, sem saber tanto de si.

Tomou o rumo fora de mim as três, mesmo que uma delas fosse homem. Era como se eu não fosse tão elas, personagens principais de uma trama de veludo. Estampando gravuras com sobreposição de imagens cortadas sem rito, sem pressuposto. Um descompasso de linearidade, sem intenção, com problemática!

Elas ovulavam juntas, como se o desejo proeminente de um tato hormonal sobressaísse sem cabimento. O argumento era de que não tinham nada em comum, além do tesão ao mesmo tempo. Repito, uma delas nem ela era como queria que fosse, até ser. Mesmo ovulando. Mostrou detalhes do seu sexo para provar-se indecisa e as outras sarapintavam as esquinas da ilusão de ser. E riam, absolutamente sem nexo.

Um dia, foram as três imbuídas pelas dúvidas ao mesmo caminho do traço. Uma mais veloz que a outra. Pelo caminho, ergueram torres de sustentação, riscos em um verde singular, tecidos rasgados com as mãos de forma a deixar um corte assimétrico por vontade, pinturas no chão da cidade e até música feita de sabor de coco e umbu. Essas mulheres que pintam me comovem, pensou o senhor à espreita. E, quando cansadas, continuaram a produzir aquela sensação de desapego.

Não tinha final, mas se assim o fosse, três desenhos corromperiam nossas visões, delas!

Ilustração: Vânia Medeiros

25 de setembro de 2012

Cama de gato [ou Dois!]


Foi um contratempo, um semblante desengonçado, um ligeiro e súbito instante de horas a fio. E então tranquei a porta com cuidado, arrumei o leito viril para voce deitar. Por teus destemperos e suas aflições, e por dentro deles mesmo, nos lambuzamos de malícia. Sua astucia não me incomodava, nem sua filantropia desmembrada de sentido. Acontece que tinha ali o agridoce desejo de ser eternamente o mesmo lugar de emoção. Dois!

Dai, a delicadeza agressiva toma conta e ambienta o calor que vinha de dentro, mesmo rangendo os ventos da cortina. Subestimado pelo tamanho desafio apropriou-se até mesmo das estranhas formas de estar. Sem calculo algum de massa, de estrutura. Logrou-se então vencedor em nenhuma competição, apenas do desejo saliente.

E fomos assimétricos que estávamos aos poucos nos desfazendo em suspiros ou sussurros (até mesmo no intercalar dos dois) abstraindo o vento que rangia a janela. Esquecíamos até a elocubração a despeito de haver amor nesses poros abertos ou se o instinto atuou ali naquele instante.

Foi quando adentrou o âmago sem pestanejar, pedindo que a carne voraz destroçasse menos a inquietude, pois, afinal, não acreditamos no pecado e desalojamos a culpa dos nossos peitos nus. Sobrepôs corpo a corpo, fluido a fluido, como se desistisse do ápice para que ficássemos assim, um e outro, dentro.

Inspirou o uivo externo e ficou ali, quietinho pra olhar sem vergonha nos meus olhos. Dormir não nos interessa, pensou. E aquela imagem tinha permanecido outrora desde a noite de ontem. Nem lembro mais se havia deitado outros por ali e de manha cedinho, aliança em punho e a espera por mais uma noite onde habite mais que um. Dois!

6 de setembro de 2012

poema do desapego (sem sentido)















E então os dois eram apenas um em vácuo
era uma única esperança
um único verso 
uma única solidão temperada de desassossego
era a sorte vazia
a intensidade camuflada
era a noite sem sentido

E então não havia conexão em duo
pois 1 + 1 não podia se somar
havia um parêntesis alocando o outro
se sobrasse, talvez teria uma antítese
equação sem sentido

E então tinha o medo
a vergonha do outro
o saber-se só sem estar tão só
sem coragem de dizer o não
sem memória de dizer da ilusão
e para a tristeza
sobra a criatura sem sentido

E então mais uma vez
titubeia em lampejos de vontade
e lembra que não há eco
não há reflexo possível
(talvez uma refração de leve)
para por limite ao encontro
para sonhar o impossível de casal
dormir pra esquecer
que mais uma vez escorrega 
na irrequieta e sintomática
criação de uma paixão sem sentido

Ilustração: Vânia Medeiros