19 de junho de 2015

Fabulosas Iscas do Futuro #2015.2 [ou antítese no limite]



A afirmação de que há vontades inconfessáveis, aniquila qualquer paz. Ora, não há vida morna com desejos rompantes, como se o próprio caminho fossem linhas tênues de qualquer literatura impetuosa e cheia de ápices incoerentes e pungentes. Como se fossem mapas sinuosos de um território chamado memória, cartografias de sensações fixadas em espasmos acentuados.

A prerrogativa que conforta é de que a estrada a ser percorrida tem pontos de paradas que remetem sempre a qualquer parte complementar de si. Daí a invenção de não ser quem se é amanhã pra reinventar um passado faz mais sentido do que um colonizar o presente para estar, simplesmente. 

Há uma falácia em curso, a ideia de que nunca foi tão complexa a identidade criada pra si. Já que desde sempre nunca mesmo soube me dar diretrizes quaisquer para os passos instáveis que poderia forjar. 

Não era qualquer um a essa altura, mas também faltava uma referência. Conexões possíveis para moldar afetos intangíveis. Simples: o amor é feito de vícios rebeldes que compreende desde o súbito querer bem até o apego pelos detalhes da vida tecida a mão. Marcas singelas de uma veste que cobre os mesmos vazios, desde sempre.

E então, como parte de um protesto de humanização dos patrimônios, a rua viva é o meu próprio corpo, mesmo em distração, mesmo estanque.

18 de maio de 2015

Continuará















- Obrigado
- Fico esperando, então...

- (...)
- Só espero que não demores pra voltar

Orgasmo sensorial

Enquanto me olhava, falava uma pá de histórias deslumbrantes, fazendo as palavras brilharem pela coerência, pela coragem, pelo deixar-se abrir. Era a liberdade como um toque sutil na alma, como um tornar-se acessível, porta aberta pra ser inundado e não obstante ter um leve sorriso como resposta.

(Saborearam juntos um desafio para dois, como se dividissem a mesma leveza de ser, o mesmo peso também)

Restavam toques satisfeitos de sentidos, ampliando a face externa de qualquer que seja o algoritmo do prazer, rabiscando futuros acessíveis, produzindo literatos sem critérios, corroborando das práticas do envolver-se diretamente. E ele me cogitava perito de um sem fim de fragilidade, enquanto distribuía sorrisos invisíveis, malícias eloquentes. Como produzindo um palco de mistérios e desejos torpes. 

Encaixou o bem estar como faz um ser afável, tão robusto quanto sorrateiro. Tão contundente quanto delicado. Ele era como um eu em profusão, só que agora dentro de mim.

Já não tinha alí mais vazios, era solitude dividida: solidão a dois.

Taça quebradiça, película em alta resolução, cama no chão, vento frio, ingredientes e fogão, fome e sede impecáveis, conversas descabidas e olhares compenetrados. 

"Ah! Que esse cara tem me consumido 
A mim e a tudo que eu quis 
Com seus olhinhos infantis 
Como os olhos de um bandido 
Ele está na minha vida porque quer 
Eu estou pra o que der e vier 
Ele chega ao anoitecer 
Quando vem a madrugada ele some 
Ele é quem quer 
Ele é o homem 
Eu sou apenas uma mulher"*


-Tô te esperando
- Você ainda me aceita?



* Música Esse Cara de Caetano Veloso - (en)cantada por Chico Buarque
Ilustrações: Vânia Medeiros (uma com Paloma Mariano)

2 de maio de 2015

Eu, desfeito em carmesim



Vermelho (um traço forte de azul piscando, quase roxo, quase cego de tão roxo). 

Vermelho de novo (longo vestígio de verde claro repousa num círculo que se abre até virar verde musgo). 

Mais vermelho (e toda tela não se sabia se laranja ou carmim, oscilando sempre). 

Tom de vermelhos (e o amarelo parece sangue escorrendo de um aparelho de televisão preto). 

Vermelho rubro (alguém cinza, muito cinza como a solidão de uma cidade). 

Batom borrado, vermelho. Perdendo identidade, vermelho sem graça (pequeno verme latino).

Vermelho final (marrom, quase liquido, quase nada, quase a morte).

Vermelho da cor do não te quero, vermelho rejeição.

Eu, rosa, pálido, furta-cor, ausente e branco.

21 de abril de 2015

Fabulosas Iscas do Futuro #2015 [ou Ofélia]



Líquida, ó quão desmedida ela se esmerava naquele banho intrépido de ilusões e signos abstratos. Ela, quem sempre sabia de si sólida, exalava por um canto um cheiro forte de água! Era como, em sortilégio, enfiasse todos os dedos na garganta para arrancar dali qualquer que fosse as entranhas de um ser em dissolvidão. Distraída em mergulhos em si mesmo, estava alí gritando como canto seu desalinho com pés firmes no chão, seu descrédito à quentura de de um fogo qualquer, seu desentendimento com a respiração ofegante. Ela, brilhante pasta aquosa corroía todas as partes de si, antes navegáveis.

Tinha luz própria e o corpo em devaneio, como se a frente de um gigantesco parque aquífero fosse ela mesma a imensidão a desbravar. Optava pela solitude como sugerência de subterfúgio, mas não submergia sem qualquer intensidade, tão profunda que estava inspirar era sem sentido. 

O som que coloria o ambiente era o estímulo principal para que ela fosse obstinada em desmedida, tão penetrante quanto envolvente, tal ponto que o calor que saia dela desidratava os corpos tocados em suor e lágrimas. E Ofélia não era santa, sua consistência liquificada só era imaginação dizendo verdades obtusas, criando imagens sensoriais ricas em transparências e sensualidade em mistério.

Morreu afogada em próprios prantos. Arrancando suspiros alheios, dilatando as visões mais ásperas, convocando aflições suaves e iluminando caminhos de imersão ilógicas. 

Acordou disposta depois do corpo entregue em água, de tal forma que precisava nadar, braçadas consistentes para continuar e dar sentido ao movimento. Depois da ilusão do canto da sereia, de puxar um rabo de baleia, de incorporar Oxum e Yemanjá, aprender a nadar e... hummmmmmm... respiro! 

Continuou...

5 de abril de 2015

Desalinho (parte 1)


- Você pode abrir sua mão pra mim?

- Nenhuma linha aqui pode alterar o compasso do meu ritmo de pensamento. Saber me ler exigirá um artefato um pouco mais complexo, infelizmente.

- Qualquer leitura é simbólica. Posso constatar então, o fato de que eu sou a figura complexa pra literatura de você. Mas não tem importância, a essa altura eu apenas estou interessado em saber por onde não passará o seu caminho, já que (foi interrompido com um susto e um olhar mais agressivo)

- Opa! Não sou literato, nem tampouco dado a signos qualquer. Queria te dizer de todo modo que não há sequer um passo que se dê a partir de agora que não se entrelace, inclusive os não caminhos. (gargalhou sozinho... de repente reverberou de lá uma risada tímida para acompanhar). [aqui deu um rompante e levantou como se fosse discursar] - De fato, o único lugar que eu quero estar é aqui dizendo essas baboseiras pra você.

- Eu já tinha percebido sua dúvida. Seus lampejos mesmo ao deitar aqui nessa esteira ao meu lado. [levanta também]. Mas e então, abrirás pra mim sua mão? Temes a leveza de um possível caminho junto?

- Olhe minha mão [abre a palma voltada para cima] e me diga se tem chance de amortecer o limite da mágoa? Não tem ai um invólucro criativo de não ser e é essa a questão aqui posta. O caminho nem sequer se faz mais importante do que o traço latejado da memória... me diz: supera aqui as barreiras do não saber-me? Do querer não ser muitas vezes? Não há, de fato, qualquer possível nesse ínterim de caminho junto.

- Estou triste com seu desdém. Um roteiro pré-formatado de agonia se permeia pelo seu desafeto. E é a única coisa que consigo ver na aspereza da sua mão, mesmo que tão delicada.

(   )
...
...
...
(   )

- Eu entendo tanto de previsão quanto de física quântica

- Então é nesse momento que você me beija?

3 de março de 2015

Jogo de cena


Na primeira cena, ele sentou na calçada respirando de forma ofegante. Culpa dos passos rápidos que precisou dar até chegar alí. Estava correndo mesmo, e até um pouco assustado com tudo aquilo, até por ter clareza do que se intermediava alí entre a emoção e o desatino. Tudo parece confuso, mas na verdade, como cena, ele estava mais uma vez interpretando personagem já conhecido pela platéia. Um robusto teor de naturalidade saía de suas expressões, envolto nessa realidade fantasiosa fruto também das escolhas que fazia nesse tom dramático. Engraçado que o tablado se constituia de seu próprio corpo em solavanco, nada de um palco em confete, já que o cenário era tão cru que mais parecia a cidade ao redor. Tinha que seguir o roteiro, estava alí marcado: no batente de uma rua qualquer ele chora por não conseguir fugir dele mesmo, ainda que tivesse corrido léguas tentando extirpar de si o demônio mais sofrível que era sua própria constatação de fracasso em ser/estar. Nos ensaios, fez tudo diferente, se via belo e capaz até mesmo de conquistar o desejo de outrem, mas no final de contas, tinha mesmo era que seguir o script.

Mesmo com sol, tinha chuva. E ele não experimentava mais nada além do seu próprio jeito inquieto de viver sozinho. Estava em um longo exercício do atuar que se chama exaustão. Repetindo o mesmo gesto, corroborando com o mesmo argumento até entranhar de forma persuasiva no corpo como reação comum do outro que se valhe do seu corpo para ter vida. Era muito trabalho - físico até - e muita leitura para se aprofundar nessa conquista de ser o que não queria e convencer xs espectadorxs.

Todos os subterfúgios foram usados, desde lágrimas secas, até mesmo o rosto maltratado, cabelo não cortado (o personagem precisa ser ainda mais feio e acabado), olhar perdido para o mundo, entonação de voz que insinue uma fraqueza de espírito e falta de iniciativa. No palco, ainda tinha uma luz bem fraca, daquelas que a silhueta parece ter vergonha do objeto que está em cena. O som, uma captação de ruídos do ambiente da rua, tão nítido que as buzinas do carro assustavam-no de vez em quando. O grande problema daquele palco era a ausência da coxia, motivo pelo qual ele nunca podia sair do personagem, mesmo sem plateia. 

E então, quando na inteireza do sentimento do outro - que é ele, deu o texto, que mais parece um bordão: "sentado nesse pedaço de chão, no abismo da ilusão de estar em qualquer lugar que não em desejo, posso dizer que agora mais do que nunca, e como sempre (por qualquer tal incompetência que seja) - estou sozinho! 

29 de dezembro de 2014

Liberdade em sete passos


Ela planejou a liberdade em sete passos. Em um determinado surto de ilusão, decidira argumentar com si mesmo para decidir como conseguiria continuar a caminhar. Pensou que não seria tão fácil, mas se não conseguisse planejar o mínimo possível, não teria estrutura para manter-se. Anotou, então, no caderninho dos desejos:

1) O corte

A liberdade é um corte áspero na disputa entre estar só e não estar. É preciso encarar a dor da fenda, até mesmo não ter medo do sangue que pode escorrer. Estanca-se e se sutura grosseiramente, pois tomar decisões parece movimentar os lastros das cicatrizes e marcas que devem ficar com o tempo. O tempo, alias, deve ser o motor da ruptura que livraria do espaço de solidão ou aprofundaria o temor. 

2) Silhuetas

Aprender a ver com sombras escribas. Algo como se pudesse ler sem obviedade as coisas do mundo para interpretar a si próprio. Sem deslealdades consigo, encarar verdades para além da luz certeira. Ampliar a sensação de sentimento abstrato para alavancar as estratégias de vida.

3)  Solitude

Encarnar com seriedade o lugar da aceitação sobre estar só. Compactuar com a lisura do medo de não completar-se em outrem, mas de se saber autêntica e impetuosa comigo mesma. Fora o rio que se derrama por dentro, ampliar o sentido de ser por si parece grandioso na destreza de ser livre.

4) Pensamento complexo

Mover no cotidiano a partir de simples deduções e significantes parece nada óbvio. Quanto mais simples as conexões feitas, mais complexas e não evidentes as deliberações sobre a caminhada do mar de dentro. As ilusões são imprecisas e ao mesmo tempo tangíveis nesse tópico, talvez aqui a mais difícil aquisição do ser.

5) Bifurcações

Deixar de lado automatismos imprecisos assim como bifurcações. Sair da reflexão puramente moderna da sua condição para afetar os binarismos comuns quando da escolha possível. Ampliar as condições da estrada, mesmo que me demore em tomar as decisões reais sobre o que deixar de fora. Tomar pra mim as responsabilidades de não serem outros os lugares de escolhas, mas que há muito o que narrar para me dizer vivente.

6) Os impropérios 

Gritar inverdades - mais para novas descobertas - por aí, de forma que seja convincente de que mais se vale a defesa do que se acredita do que a verdade propriamente como tal, já que ela não existe de fato. Isso significa abstrair ainda mais a minha relação com Deus, como se eu pudesse me redimir de todos os pecados insólitos, mesmo que a heresia seja um dos piores.

7) Desaquecer o fim

Esfriar a hora da partida para deixar tudo bem orquestrado. Deixar que o medo de não ser/ter mais provoque uma agonia média em um outro "vivant" e passante por esse caminho. Daí a liberdade toma ares de ainda mais convicta. O processo se dá com desburocratização dos melindres, destronar licitações para relações e orquestrar meu choro mais temido pra quando estiver plenamente sozinha.

O caderninho não tinha mais folhas. Parece que esse tom lúdico, transformou seu plano em mais um organizador de ilusão de si do que a convicção de mudança. Porém, se a ideia sempre foi não ser e esse esvaziamento por completo motivou o sono que se abatia. Apagou cada frase como um acalanto. No final, só uma borracha desgastada e um sorriso no canto de boca...

Ilustração: Vânia Medeiros

2 de dezembro de 2014

De estar no caminho desperto (2)*



Saí por aí pra não fazer sentido

Os lugares se orientavam impossíveis
O caminho esfusiaznte
Tudo era um porém,
Mas se emanava por uma linha sensata
Um destino multicolorido
Que fora destilável.

Era tarde e eu saia
Andava com expectativa
ampliava sentidos
Insinuava laços

Me estiquei por goles d'águas
amplitudes sofisticadas
Na espera de um rompante

Me liberei naquele abraço
Do tipo que nunca tinha se dado
Acarinhado no conforto
Como se flor fosse!
Reconhecendo espaços distraídos
Como abre-alas
Como cicerone
Ampliando espaços afetivos

Estava junto!
Conectando sentidos
Fantasia salientada
Sempre em boa companhia
Com danças desengonçadas
Liberando desejos

Fome de bola de fogo guia
Caminhada soturna
Por noite adentro
Por coragem de segredos revelados
Por intimidades entrelaçadas
Dos olhos infantis satisfeitos
Das inquietudes dos tempos que virão

Disfarçamos olhares
Deslumbramos destinos
Fechamos as portas
Dividimos a cama
Entrelaçamos as pernas

E continua...

*Trecho da música Martelo Bigorna de Lenine

24 de novembro de 2014

De estar no caminho desperto*



Saí por aí pra fazer sentido

Os lugares se apresentavam possíveis
O caminho era fascinante
Tudo tinha um porém,
Mas se encaixava no fato certeiro
Um objetivo claro
Que mobilizava pelas escolhas feitas.

Era noite e eu saia
Andava com esperança 
Surrupiava silêncios
Condicionava os passos
Me debrucei por sortilégios
Dizeres sofisticados
Na busca de um rompante

Me mobilizei pelas ladeiras
Famosas insinuantes que são
Rondando tambores ancestrais
Como se flor fosse!
Não tinha menino imaginário, nem girafas,
Mas ampliei a busca, agora nos sonhos
Um horizonte estampado
Um espaço imaginário e tátil

Comi as entranhas
Minhas origens, minhas buscas
Fantasia apimentada
Sempre em boa companhia
Satisfazendo o corpo em anseio
Provocando a alma de desejos

Andei sobre as pedras do lugar
Desorganizadas e convocadoras
Cheias de novas descobertas
Reluzentes de curiosidades 
Pleiteei sambas orquestrados lá no alto
Rodas dançantes lá embaixo
Descambando em café de baile

Talvez por desejo ou coisa igual
A imaginação do rosto estava em vários
A sensação do toque perseguia
A busca me agendou a alma
Mas, no final, não tinha você.

*Trecho da música Martelo Bigorna de Lenine

4 de novembro de 2014

Rompantes de silêncios


Éramos dois a sós. Um ao outro em fúria. Ilegítimos vestígios de sensatez para um casal malfeito. Éramos sós a dois, do tipo que não se reconhece em qualquer imagem desleal que passa no quadrado de moldura branca - a tal da janela. O devaneio se orienta por não ter um pressuposto contínuo entre um e outro e por isso não tem olhos nos olhos possível, não tem toque de mãos sensíveis, não tem ilusões ancoradas em tempo e espaço.

Foi quando percebi que, mesmo assim, mesmo depois do nada, meu corpo debruçava para o dele, talvez como pressuposto para me contrair pela vontade, me redimir de tal carência, me sucumbir de vez na liberdade de estar dentro do outro.

Era um desmantelo, um ofuscar do olhar. 

E a utopia se descrevia assim: cheguei atrasado/você me espera/sorri ao me ver/me pega pela mão/me fala alguma coisa sobre "s a u d a d e d e s s e c h e i r o"/comprei seu ingresso/eu compro a pipoca/toquei sua mão sem querer/aperta meus dedos em resposta/nos olhamos///

Rompantes sinceros de apatia e de silêncios se coordenava com o jeito longe de perto do qual ele falava sobre vidas alheias. É que era a justificativa para dizer-se impedido e eu era como um macarrão que cozinhou demais, sem saber onde colocar os gestos.

Afinal, estava alí com braços esticados e coração aberto. E estava só!

*Ilustração: Vânia Medeiros

30 de março de 2014

Você, a liberdade em passos.


E foste sensível passeando pelo ambiente que mais parecia sua própria imaginação. Roubou uns três sentidos pra não se sentir sozinho e inadequado, até por que nem tão longe ali poderia haver pontos de escuridão, daí então, o medo... Foste mergulhado à seco pela paisagem que se redistribuía passo a passo sem nem sequer janelas ao redor, agradecido por você ser atento. E quando você nem imaginava terminar o passo, estava ali na frente um grande desafio, a liberdade!

E não é que ela te paralisava, ao contrário, mas ela tava ali, contente, gigante, com um volume maior que todas as prisões que se conhecia. Só não era mais robusta que o amor que estavas a procurar, mas quem compararia o amor e a liberdade em sã consciência? Seu caminho não tinha escorregão, nem um tropeço sequer. Uma agonia isso, sem impulsionamentos compulsórios, mas também desviando de toda dor. Dito isso, ela ainda continuava ali e o fato era que estava sendo agora visto encarando a liberdade.

O que tirar da cartola? A ideia de que poderia realitivizar todo seu arcabouço afetivo para planejar da sua estrada o que quisesse tendo a liberdade como bicho de estimação? O interesse de dominar o estado de solidão sem qua haja alguém para dividir a decisão sobre seu próprio destino? Ou nada, não teria nada para ser subterfúgio para a magnitude desse seu possível encontro com o ae libertador que te enchia os pulmões nesse momento?

Você ali inquieto e eu a contemplar sua divertida agonia, torcendo pra que desse encontro escapulisse pelo menos um tantinho do seu olhar para um possível encontro das nossas caminhadas.

A verdade é que você é muito mais do que conjecturas e esse encontro com a liberdade, vejo de cá, foi apenas mais um momento de vivacidade do seu espírito. Trata desse passo como se lembrasse que ser é o grande desafio, marcado pelo não ser, em contraponto com o outro, delineado por uma identidade contextual, referencial.

Dai você simplesmente andou sem olhar pra trás.

29 de março de 2014

O caminho muda o sentido do poema


A intenção me fisgou
tal peixe grande num aquário
tal pescador em desalinho
tal liberdade - e desejo
assim como linha forte de atenção
só tem sentido se a captura
for de olhar com te(n)são.

E foi assim refeita a lógica
o real intento de sabedoria
fugiria de qualquer racionalidade
pra prestar um serviço ao sensível
aquele forte e coloquial sentido
um lugar de amplitude de sensação.

O destino se alargou com 
aquelas palavras dissonantes
que rimavam estritamente
fora de si, dentro de fora
como uma bifurcação sentimental
convocando escolhas em desafio.

E então, o querer mais que bem querer
se faz intenso
tão instável, quanto natural
me revela
tal pescador em aquário
tal liberdade em desalinho
tal peixe - e desejo.

E no fundo desse rio
a estrada só convoca
e, num ponto de beleza,
o caminho muda
o sentido do poema.


Para ele, o peixe!

*para ler ouvindo Itinerário - de Mart'nália

9 de março de 2014

Sujeito indefinido [ou carta à ilusão]



Sabia-se que havia um determinado sujeito oculto por aquelas bandas. Sujeito sisudo, não introspectivo, dentes amarelados, olhos fixos de tristeza para o infinito. Diziam por alí que era gente boa aquele rapaz, que cumpria ordem, tinha opinião sobre tantas coisas e que tinha uma órbita rondante que favorecia sistematizar seu olhar em fluidos ora coloridos para ser vibrante, ora preto e branco pra ser tocante. A lenda pontua que ele era inofensivo, mas que mergulhava de cabeça na sua rotina para espantar fantasmas e medos torpes. Até aí tudo normal, mas o que espantava mesmo nele era a capacidade de se iludir.

Seria possível alguém tão ingênuo - ou até mesmo tão punidor de si mesmo - que admitia romances imaginários, paixões vertiginosas sem possibilidade de retorno, delírios de amor sem afeição correspondida? Enquanto passava ostentando um drama individual criado pela própria vontade de sê-lo, não era visto com bons olhos pela vizinhança cansada dos mesmos tropeços do tal sujeito. 

"Ele não sabe não, viu?
E às vezes dá como um frio
É o mundo que anda hostil
O mundo todo é hostil"*

Vestia roupas comuns e tinha ojeriza a não ter cheiro. A ideia nunca foi chamar atenção, mas ser creditado pela sobriedade. Nada exagerado, mas intempestivo. Nada comum, mas disforme, como algo em pleno desmoronamento. Ele poderia ser comparado, inclusive, com um não ser, ameno, na medida exata de não ser oito, nem oitenta, um número como o 37, sem relevância.

Não poderia se incomodar publicamente com a ilusão tão desmembradora, já que lhe era natural que acontecesse. Se lhe coubesse um produto análogo, diria de uma novela sobre a qual a previsibilidade já incomoda os telespectadores. Sujeito dito comum, relativamente descartável, dispensável. 

Foto sobre ilustração: Vânia Medeiros

* Trecho da música De onde vem a Calma do Los Hermanos

5 de março de 2014

Carnavália VIII



No princípio era o mar... era assim como uma condição sui generis de expectativa para uma abstração emergente. E era só aquela imensidão que se perde de vista, verde ou azul, ou colorido. No início se fazia o mar que era gente. Como água perene e distribuindo fluidez escorregadia, salgada, saborosa. E fazia parte de um oceano de sensações que misturavam liberdade e disposição para o outro, no clima convocador de desejos. 

A ideia foi mergulhar nas profundezas do desatino feliz. Na grande ilusão de felicidade que se somava com a energia pulsante do prazer em coletivo. Tava tudo iluminado naqueles caminhos, convocando fisgadas ululantes, arriscando jogadas sonoras em redes mobilizadoras. 

E íamos como cardumes em um grande fluxo com pulsações diferentes, com cores que se misturavam, com sorrisos exaltados e inspiradores, com corpos suados e/ou molhados em toques, com beijos sinceros em querência, no molejo que mais parecia uma redenção comum. Mas o melhor era os encontros. Ah! Como eles são lindos naquela avenida. Comandam abraços apertados, mesmo efêmeros. Invocam cantos em comum olhando nos olhos como cúmplices. Mãos que se apertam efusivamente. O calor do toque.

Mas também tinha uma paisagem de disposição, esse orgulho de ser, a leitura política de si mesmo, o desajeitado balançar de corpos, confetes, serpentinas, espumas. Travestimentos, criação de personagens que se entrelaçam num grande teatro de alegria. 

E a pulsação vibrante me tomou ao mar da Baía. Eu, simples pescador, na carnavália!


para o carnaval com amor! para minha liberação de corpo e mente. para a saúde. para luiz caldas e armandinho. para o cordeiro que me trouxe a emoção reacional. para os meus. para henrique, caio, mário, ewerton, iracema, jamile, digo e gil pela disposição e atenção. para zédi e talita, amores, sempre juntos. para karlene minha companheira e pelas risadas só nossas. para dora e iuri pela acolhida. para aline, como sempre na lindeza. para claudinha e flavinha pelas gargalhadas. para lulu pela completude e amizade. para simone e isa, queridas. para o peixe antônio que me tomou. para xotoko e diego pelas sempres boas conversas. para guilherme de surpresa. para dido com carinho. para o ilê e o povo do curuzu que me tomaram de emoção. para brown, bailinho de quinta. para o baiana system, arrebatador. e para todas e todos que optaram por me abraçar no circuito, na folia, no amor.

18 de fevereiro de 2014

Ritos cotidianos



Passava por duas pontes em seu roteiro cotidiano. A primeira estava lá sem grandes reflexões, apenas como um conector de um lugar a outro onde o desafio era apenas o atravessar simplesmente, curto processo, possível fazer sem grandes talentos. Já a segunda era um pouco mais complexa, aquele quase viaduto sobre a vida estava ali mais como um decodificador de transposição do que um catalisador de passagens. A transposição de um ambiente para outro por ela não existia sem um olhar difuso sobre o que poderia significar estar do outro lado, cotidianamente. A segunda ponte era torta. Isso mesmo, entortada para um lado. Sempre havia aquela desconfiança sobre seguridade e a partir daí o que fazer se acontecer dela se arrebentar e ele cair deitado sobre a rotina de outrem. 

Tentava sempre desligar do que estava a fazer: atravessar a ponte que ligava o lugar de antes para o lugar de depois por cima do confuso ambiente do requintado dia-a-dia. Ela [ele, depois que passava], conseguia o bem estar quase sempre por ouvir música. Sabia que se pensasse no tal ato de ser um e metamorfosear-se em plena passagem, talvez nem conseguisse passar. Era como tentar tornar habitual, como andar o era e, assim como no andar, pensar dificultaria o que poderia ser comum.

Logo, ela, não mais ele, olharia com parcimônia para o triunfo de mudar em passos largos pelo caminho. Era risível a forma como a primeira ponte nem lhe mobilizava, mas a segunda era como ultrapassar um arco-íris almejando tesouro dentro do seu próprio destino. Imagina* se teria um sorriso legítimo para dar agora. 

Era ele quem almejava o desafio e era ela quem transpunha a passagem. Uma imensidão de obstinação e paciência com suas próprias faltas inacessadas. Ilusão podia ser o adjetivo utilizado, mas naquele momento de falta de verdades absolutas sobre si, pensara-se como uma janela que se fecha ou um vidro que absorve a luz para outro lado de lá. Era um vazio penetrável. Ficara algum tempo indisponível depois de seguir em frente logo após transformada. E voltava a ser ele assim que o encanto pragmático se descompunha. Em outro dia de rotina, outras duas pontes esperavam ser desconstruídas e assim se dá o cotidiano.

Ilustração: escada de Vânia Medeiros

* Daniel Jobim diz que essa foi a primeira música feita pelo seu pai que não queria letra. Chico Buarque teimou e a fez. Cantou esse último com Mônica Salmaso lindamente.

11 de setembro de 2013

Resposta [ou quando a palavra é o silêncio desenhado]


Foi imperativa sua resposta ao meu amor...
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Quando não mais eu conseguia ficar assim, insuflava você a dizer que a resposta era o silêncio e o vazio. 

Na minha insensatez, parecia dizer que qualquer coisa no mundo era mais interessante que minhas missivas, minhas intransigentes indelicadezas, meu corpo em desdesejo, meu destroçado pensamento sobre a beleza, minha superficialidade latente, meu ser em desengano.

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Tem mais um tempo no vazio, pra que eu me acostume ao silêncio.

2 de setembro de 2013

Meu amor não é meu!



Me vesti de um deslumbrante desatino. Uma túnica que cobria as minhas vergonhas sem dó. Era como uma contrapartida para que minhas insanidades estivessem palpitantes e destrinchadas em uma sintonia fina com o desejo. O lugar que eu estou só vejo interseções entre a imprevisível solidão e a robusta necessidade de estar só, tanto que não me parece sorte, mas hipocrisia interior.

Meu amor não é irrestrito, pensei. Mas dissolúvel e imaginário. Sempre que posso argumento que não preciso de vitaminas de olhares desejosos, mas sempre me contradigo em pensamentos. Continuei a refletir sobre como o contraponto me faz mais duvidoso.

Ora, não seria a ilusão o preço da conquista? 


Exonerado, a vicissitude corrompia as entranhas como sangue irrompendo veias não dilatadas. Ardia a incompreensão absurda do não viver. E mais que mais que fosse, geralmente só se sobrepõe ao gosto, o gesto simbólico do: "não te quero mais", na verdade nunca me quis mesmo. E então a fantasia era um ciclo sagrado de maus presságios e de insensatez.

Pra que então os pensamentos, questionou de forma ridícula em voz baixa. Ignorante que era, caberia mais algumas tentativas de saber para de fato chegar a conclusão de que sem o pensamento o vigor que é a vida estava chegando ao fim. Se assim fosse em pensamento, teria sérias consequências, avaliou? Não valia a pena continuar.

Nadaria uns 100 metros a frente sem coragem, descobriu que mesmo que se aprofundasse ao oceano de amor não tinha merecimento, tal qual de volúpia no olhar de outrem pra si. E o ego afundou...


 *Trecho da música A linha e o linho de Gilberto Gil
**Trecho da música Figura de Retórica de Gilberto Gil

29 de agosto de 2013

Ela era arara azul e pavão no rosto



O corte no asfalto tem gosto de cor. Uma cor agridoce e no final azedinho. Tão acentuado seu paladar que parecia carinho nas papilas gustativas em forma de intensidade de luz. É, porque cor é luz também! Isso se sabia pela reação que teve ao ver o chão: LAMBEU! Pôs a língua naquele lugar descartado como uma forma de protesto pela falta de qualquer coisa que fazia caminhar naquele lugar. E isso, no final, era desejo de ter arco-íris na boca e operou pela textura que tinha aquele prazer.

Ela desfilava uma cabeça de pena. Isso mesmo, uma cabeça penacho exuberante. Era um pavão com cauda na cara, exposta, maliciosa e colorida, tal forma parecia gostosa de tão vivas que eram os tons do seu rosto. Seus olhos eram dois grandes círculos formados no penacho de arara azul.

No fundo, se empenhou na virilidade desprotegida. Rebolava distraída como se os quadris deslocados fossem impeditivos para o caminhar. Parava em qualquer lugar para cuspir fogo, pintar postes ou suas unhas, ouvir o mar desformar ondas

Seduzida pela rua, comia a passagem tão irreal que gananciava tristeza em prazer. Como cores em gostos!

Ilustração: Flávia Bomfim

20 de agosto de 2013

Cartas a um jovem terapeuta (Parte I - sobre o sexo)



"Me ocorria que era uma divindade o corpo. Um universo de milagre entrelaçado pelo medo e pelo desejo. Porto estratégico de vontades, ele ditava as regras da consumição, da excitação. E enquanto tateava pela inexperiência, ocupava-me de saber se esse tal que eu possuía alertava outros pelo exalar sutil de convocações, pela sua forma moldada para olhos alheios ou pelo jeito que se deslocava no universo. Só assim, claro que também com as memórias e marcas dele (o corpo), poderia merecer o toque e o gozo. O pintava, o comia feito ruptura, alimentava ele de vícios e de vazios, além de saborosos afetos, claro. No meu caso e na maioria das vezes sempre o achava imperfeito. O problema foi acha-lo demasiado incapaz de atrair outro. E por isso muitas mudanças foram feitas. Sinapses reestruturadas, alegrias pré-moldadas, corretivos desenhados especialmente para tal coisa. E vamos testar. Levei-o a bailes para que mostrasse desenvoltura, levei a conversas que estimulasse a construção harmônica de posicionamentos com conexões bem encaixadas, argumentei por leve o levando pelas caixas de bits (algumas vezes iluminando-o para fios). Antes de dizer-lhe rechaçado, admito que o enchi de esperanças de que havia desejo puramente em descobrir-lhe. Posto que de experiências, notou-se sua incapacidade de interessar. E tudo que lhe houve de toque até aqui resulta em ansiedades e vontades desproporcionais. Acometeu-se de uma vergonha assustadoramente prazerosa e não me libera sem restrições pra agendar novas tentativas. Melhor que não as tenha!"

19 de agosto de 2013

Sold out



Comprei duas doses de tédio no supermercado vizinho à minha casa. Desdenhei algumas vezes da minha condição de procrastinador, relutando contra a preguiça de mudar minha postura sobre mim mesmo. Afinal, para eu descobrir se algo tinha saído do lugar no mundo lá fora, no mínimo tomaria um banho, escolheria uma roupa apresentável, me veria melhor. Tudo isso às custas de uma visível revolução que nesse momento se chamava deixar pra lá as cobertas que me protegiam do frio e a cama que me davam prazer em me ajudar a reclamar de mim com sabedoria de mestre. Pois então, decidi comprar uns quilos de alegria e até mesmo quem sabe uns tortos litros de desejo.

O que faltava de libido, ardia de uma esperança fatídica de que eu não mais soubesse os caminhos de fazer tudo da mesma forma como fazia anteriormente. Até busquei promoção que me animasse. Até pesquisei texturas, sabores como projeção e impulsionador. Tava decidido! Abriria aquelas portas para sentir de perto aquela alegria que eu levaria ao caixa orgulhoso. Num súbito pensamento grotesco afirmei pra mim que o preço que pagaria pela peça adquirida seria muito maior que a do arrependimento do gosto não absorvido. Era notório que me perdia na escolha, mas eu andaria alí sem me proteger.

Desci ofegante as escadas para não topar com outro possível comprador nos elevadores. Tudo enlatado, talvez. Eu mesmo nunca deixei de ser. E depois, prateleira por prateleira fui seduzido mais uma vez por caras sensações de conforto sem desfaçatez. Comprarei, pensei. O risco nem era tão grande assim. Ao que pese o rótulo que eu mesmo produzi, tinha mais uma vez consumido um punhado de ilusão aparente sem prazo de validade a vencer. 

No final, se existe um desses pra vender, quem não valia nem um centavo era eu. Que aliás nem teria comprador.