22 de março de 2019

Trajetória [ou Modos de entrega]



Foi estranho o automático jeito que meu corpo reagiu aos primeiros acordes daquele som maroto e sombrio que vinha de lá. Era um reggae de facas, entende? Daquele que vinha com pausas deslocadas no tempo e que assim mesmo não tinha vergonha de parecer um samba. Os pés já estavam quentes em poucos segundos de movimento e o short não se segurava em pé, mostrando o elástico da cueca como pavão procurando sol. E era só um displicente dia sem a malícia dos versos de desejo. 

Com o outro braço apertou o botão - que nunca sabia se funcionara - na coluna do meio do ônibus ali nas mediações do monumento ao doutor nãoseiquem importante. Deu certo! Conseguiu porta aberta sem tropeços. Desceu quase dançando ainda sem titubear com aquele pacote cinza embalado sem esmero, pois foi o que deu pra fazer a contento pela pressa de fazer, de ir. 

A devoção pela malemolência da sonoridade o deixava sem critérios para o caminhar entre pessoas desconhecidas com rebolar de quadril espaçado por entre um roteiro. Também estava sem vergonha de oferecer (-se), pois era o que estava a fazer. O ritmo pouco veloz o inclinava pra frente mesmo sem peso nos ombros. Mais sinceramente, me desobrigava a lembrar do desvio que já causava dores verticais. Mesmo notório e bem possível que me declinasse qualquer interesse de cuidado alheio advindo do desejo. Mexer a pélvis no meio da rua passava distante desse pensamento, até chegar no portão. 

Cancela aberta por reconhecimento fácil do senhor que já tinha visto aquela cena anteriormente. Ele, que com seu quase sotaque espanhol da Bahia, solfejou um “boa noite” entre aquele riso displicente no meio da boca. Acho que ele me perguntou se eu tava feliz, mas eu ainda tava nervoso por chegar ali de novo e com vergonha por cantar junto com a cantora que ressoava na caixa dos peitos aquelas ondas de fo(m)es de ouvido. Eu ri como se entendesse, mas prestando atenção, perguntando-lhe sobre a malícia da noite, sobre como estava a família e quando chegaria de vez as chuvas de outono. Ele também riu, deve ter pensado: que simpatia misteriosa. Pegou o pacote dessa vez e pra fechar aquele ciclo fez a questão retórica: 201, né? 


Feito! O ponto era a mais ou menos 180 metros. O silêncio era inofensivo e valente. E a música era Coração Rastafári. 

30 de outubro de 2017

Café com bolo [ou deserto da saudade indizível]




O braço esbarrou displicente na alça da xícara sob a mesa. Derrame! A quentura passou o pano grosso da bermuda xadrez enquanto outra parte do líquido fazia um desenho disforme na parte inferior da camisa de botão branca. A ordem interna me fez llevantar e achar um pano úmido na pia da cozinha e imediatamente ir ao chão para limpar o estrago no limiar início da manhã. E aí foi inevitável o cair das lágrimas.


A raiva destinada ao piso escurecido e com a aquosidade preta que caia pelo tecido molhado, em verdade, tinha a mim mesmo como causa. 

Pranto ao acordar! O lugar de sonho seria em si lugar de aconchego tão grande que mover o corpo da inconsciência me causasse dor? De certo, a estranheza frente ao reflexo de si me acometia antes mesmo do café. 

Enquanto decidia atravessar o espaço sabia que carregava comigo só as memórias que me marcavam. Aquelas que sorrateiramente me envolviam, como se delas fizesse todo meu passaporte pelo caminho. Um bolo, por exemplo. Daquela vez que a massa ficou grudada, já que, na minha soberba, o detalhe da mão suja de farinha e óleo por untar a forma fazia pouco sentido. Até cresceu a olhos vistos, mas não sei era nada mais do a minha displicência marcada pelo que não foi feito. Não que eu soubesse fazer, nem sei, mas o que martela a memória deixou de ser o que deixei de fazer, mas o não ter um bolo em mãos.

Essa química que é misturar ingredientes com memórias é sempre uma surpresa. "Eu nunca aprendi", penso.

26 de setembro de 2016

Livro de cabeceira



É que o caminho desperto pelo cerco arrasta e perfilara os sentimentos um por um. Como se fosse pra uma apresentação sem lógica, mas que desmascara a estrutura desenhada de um objeto chamado corpo.

O primeiro que veio foi o desdesejo. Esse que só existe pelo outro sem prefixo. Sem atraso, disse que faz parte do olhar do outro pra si. "Se se olhar no espelho, bem no centro dele entenderá motivos de me oferecer de forma abjeta ao alheio", me disse com sinceridade.

Sufocou com um gole de água. Não era assim tão fácil assumir tal sentimento tão imponente de pronto. Talvez o segundo lhe fosse mais delicado.

Será então que daria pra encarar o desafeto? Ri baixinho pra que não se percebesse lágrimas. Mas é claro que em um corpo como tal, com uma alma como essa, o tal sentimento segundo não seria outra escolha. Me comprometi com o infortúnio sincero de não ser. E então, não poderia causar nada em outrem que não fosse o vazio. 

Tal qual comida indigesta que o espírito não metaboliza. Como água que descumpre sua própria função de matar a sede.

Talvez seja o caso jogar-me fora, antes de se apresentar o derradeiro sentimento. E de supetão lhe escancara o desamor. Me enfraquece as pernas, me escurece as vistas, me intoxica de verdades indiscretas. Nesse ponto, o nome exato que se pode dar ao futuro é solidão. Latejando o irreal sobre asas agora já devidamente cortadas. 

Devidamente exibidos, faz então necessário escolher não agredir quem quer que seja. Ora descrito como cara estranho, recolher-me embaixo da cama, atrás do sofá, mergulhado sem respiro, absorto no chão do quarto sem tapete. 

E o nome do romance auto-biográfico seria - Do homem evasivo de fé: desdesejo, desafeto e desamor. Sozinho na prateleira.

2 de setembro de 2016

Ladeira!



Foi então que ela desceu a ladeira entre suspiros e sussurros, amparada pela emoção e pela lembrança dos tempos há pouco vividos. Esboça um sorriso tímido, afinal, tinham transeuntes dividindo aquele caminho de paralelepípedos. Os passos marcavam a lisergia do cotidiano, surrupiando a graça de manter-se ereto o punho da franqueza e da sensatez. Coerência era enigma futurista, só previa alí o sincero solfejo em tom qualquer de seu poema favorito, das pornografias de Manuel Bandeira. Ele é solta nas ancas, livre nas pegadas e abjeto de qualquer crime. Era ele quem descia a ladeira, acariciando os olhares pra si como se pra ela.

Marchava firme em passos delicados por algumas quebras. Buracos inconstantes na calçada, fina gota que tangenciava o meio-fio, passeio escorregadio. Ele gostava de usar chapéu panamá em dias de chuva, rememorando sua extensa experiência em demonstrar elegância nas levantadas de abas. Sutilezas de uma quase personagem de um conto fútil sem leitura.

Quão obstante a ladeira emergia a cada passo, sua fúria em caminhar se exauria. Notava-se paisagem amena no caminho, até mesmo uma música acontecia dentro do universo do corriqueiro passeio pela cidade. Ela produzia qualquer coisa de surpresa em si ao se pensar em ambiente de normalidade aguda: "tenho mesmo um pau e um coração prontos para o amor", recorria ao ego pra se sustentar. Fora isso, faltava-lhe o vil metal e a carapuça desgarrada de empatia pela organização alheia.

Chegara em terra firme, ele. Desfilando inerte pela firula tênue da loucura de estar. Parte do seu pronto pouso era metáfora de partir para novas subidas porvir. Do alto, arrancou parte da roupa de cima, gotas de suor da testa e no espaço entre os seios e suspiros de quem chegara anteriormente. 

Receava desejar novamente. Mas estampou sorriso martelo e deixou-se levar pelo vento uivante nos seus cabelos poucos. O amor nada mais é do que a disposição, pensou sobre si mesma! 

Ilustração: Vânia Medeiros

24 de agosto de 2016

Carta de saudade com o lugar



Soterópolis, inverno 2016.

Caro amado,

De certo, tomo suas palavras como o mundo. É que ele em expansão não me responderia com tanta objetividade delicada. Da janela entrecortada de grades, não se tem notícias de raios de sol, mas períodos de amornação  parecem necessários para diminuir a velocidade. Ao passo que a meteorologia prevê instabilidade por essas ruas. Aqui chove, não consigo sair sem me afundar em águas solitárias, numa corrente de vontades inconfessadas.

Mas há a ilusão como bem guarda. Amansadas as películas de segurança, escrever é como sal grosso solúvel em água pra aliviar o cansaço do não querer quem se quer. Talvez no fundo, o mundo precisa ser lembrado das saudades pulsantes, das imaginações contidas, das liberdades sensatas, do amor contido.

Tinham dois pássaros apoiados na janela enquanto precipitava o céu. Tinham corpos brancos com uma faixa preta no peito. Suas cabeças vermelhas contrastavam o bico escurecido. Aspiravam medo, mas tinham decidido juntar asas. Não faz muito sentido, ao bem da verdade, mas não procuravam sorte, nem pesar. Como aves, talvez pela fome de um próximo néctar juntos eu escreva. A soltar um pensamento flor de se entregar, just like oil in my hands*.

Espero que chegues de volta a ti essa carta como um floreio de pássaros de face carmezim. Algo como um cobertor mais leve em dias sem sol, já que se ensaia uma estação adversa por essas ruas ribeiras; já que querer-te perto é um ensaio de banho de nuvem. Vem?

Pelo bem querer.

Do seu,

Lugar!

* Trecho da música Like a Star de Corinne Bailey Rae

23 de agosto de 2016

Linhas discretas [ou Carta de saudade com o tempo]

 
Soterópolis, inverno 2016.

Caro amado,

Ontem mergulhei tranquilamente em águas serenas. Lancei olhares para um um lugar tão longe de horizonte, tal espaço lúdico de cores inventadas, borradas como num blueberry nigths*. Um forte amarelo regurgitava uma linha tênue de calor que espairava querida serenidade. 

E é por isso, tão só por isso que lhe escrevo. Dentro desses descaminhos seu olhar era uma imagem simbiótica na minha emoção. 

Nesses dias, escrever tem sido trabalho inóspito de solidão. Como se as palavras me jorrassem folhas secas pela paisagem. A beleza alí estava no grotesco limiar da falta amarelada e seca de vida. Mas, bonito, então, dúbio. Como cada conjunção de discursos orquestrados. O chão amontoado com a textura desconcertante do movimento vento-árvore-terra. Mas é meu ofício operar nessa página branca, latente. 

Soube por vias de sensações que são dias nublados por aí. Por aqui também chove. São águas de agonia que vão desde a fragilidade da fé na coletividade até a saudade de algo que ainda não se teve por aqui. Mas a carta tem mesmo o objetivo de falar sobre como a distância pode causar tempestades que extrapolam toda pele. Escrever-te é tal tentativa de mitigar tua ausência.

E então, quando fores leitura, sejas o abraço tal desejo de retorno ou então esse sorriso que tentas esconder agora.

Pelo bem querer. 

Do seu,

Tempo. 

* referência ao título do filme de Won Kar Wai

11 de agosto de 2016

Sonho de Haikai


Foram tempos e tempos de caminhada por esse lugar. Entretanto se escondia nas sombras de tais pensamentos quando até mesmo parecia ter ido embora pra algum outro lugar. A tal deserção estancava qualquer boniteza dessa estrada, cheiro de pão queimado no forno - menos pelo odor em si e mais pela falta que fará um pão quentinho. A borda, crosta leve de desejo, massageia a aparência sutil de passeio pela sensação de cheiro de terra molhada.

Em algum momento a cena era adversa. Passava pela conquista de um novo olhar. A história tinha a capacidade de mudar o desejo, pensava, enquanto ria sozinho. Foi esse então o melhor devir, o tal do devir quereres. Pois daí só poderia dizer SIM! 

Mas tudo era dúvida. Passível de uma realidade cruel, devastadora de ilusões imagéticas. Modo sombrio de passadas. Encarando o fantasma do não, pão de sal preto, cheiro de fumaça. Mas ainda estava alí, potencial de carinhos com manutenção do lugar de cuidado, moldando literalmente a solitude ansiada.

É que esse lugar de caminho é o sonho. Sem pudores, ainda andas por aqui como um haikai:

Um ninho em mim
você na volta
saudade e fim!

Ilustração: Vânia Medeiros

22 de janeiro de 2016

Exercícios de descrição (I)

Pelourinho, 22 de janeiro de 2016.
21h40

3 homens encontrados na parede. Um com a tez mais pálida, um casaco no ombro e fumando um cigarro. O do meio é negro, camisa mostrando o tanto de barriga na frente e cabelos enredados, porém curtos. O outro mais amarelado, parece gringo, carrega uma sacola atravessada ao tronco. Olham sorrateiramente e comentam sobre as mulheres que passam. A parede do fundo é verde claro, contrastando com a porta e as janelas verde musgo que compõem o cenário em background. 

Na minha frente, um senhor usa farda com brasão do governo do estado da Bahia no braço direito conversa com um senhor de camisa listrada e sandálias. A conversa gira em torno de um possível "faz-me-rir", ao qual não consigo entender por qual motivo.

Um menino passa saltitando e quase tropeça no paralelepípedo que funciona como pista. Do meu lado, sentada, uma moça com um celular de fundo azul petróleo. Aparenta ter terminado de tomar a cerveja da lada que tem na mão. Um homem que aparenta 28 anos no máximo pega a lata de sua mão enquanto ela mantém o papo que já dura dezenas de minutos. 

Uma criança come um salgado segurando a mão de sua, possivelmente, Vó. Ela é a própria mulher maravilha, já que continua perto das 22h usando tal fantasia. Enquanto isso, Zezito, negro, careca e com menos dentes na boca e acompanhado de pelos sobre os lábios abre um papo com mais 4 senhoras e um senhor. Este último, usa na cabeça um óculos escuros, camisa social e calça jeans. 

Um moço para em pé deste lado da rua. O mesmo do Largo Pedro Arcanjo. Em seus pés, sandálias com o nome Guga Kuerten. Ele está no mesmo lugar em que estava antes a moça que falava no telefone. Essa agora em pé ao meu lado direito exibe um vestido com imagem de Frida Khalo. Com seus cabelos curtos e alorados.

Foram algumas escolhas de visão e algum tempo com a cabeça baixa. Levantei-me...

17 de outubro de 2015

Fabulosas Iscas do Futuro #2015.3 [ou Finda o início]


(sons de martelo do lado de fora)


Para-raio de brinquedo. Antenas desconectadas. Árvores vermelhas em poda. Poderia ela se sentir diferente da cidade? Quando corroíam suas vicissitudes, sobrava o quê de concreto?  Talvez a esperança, pensara. Mas não tinha nenhuma vontade de desafios insólitos, ao contrário, esperava que a velocidade ampliada e os prazos irreconhecíveis se instalasse na sua pleura como parte da sua respiração cotidiana.

Voltou a se referenciar. Janelas espelhadas no alto do prédio. Manchas de peixes na borda da calçada. Telhados possíveis descoloridos. Ora, tudo não passava de descontentamento sombrio daquele sem mais interesse pelo passo apressado. As ruínas do seu próprio desejo afirmava em presságio: tudo que se molda, volta como carinho não recebido. E tudo virou-se do avesso, com o vento soprando na direção contrária do desalinho.

Cortava ainda mais aquele traço por entre suas pernas. Assaduras visíveis em sua virilha - parte da consequência do seu desprendimento com a mágica do corpo. De fato, era grade com redes para que não fujas; era rack monocromático para temperar salas; era via aberta para que a vantagem se desse em contínuo. Só não era a vantagem da solidão, que ainda procurara em todos os cantos daquela casa maior do que ele.

Mais ainda. Era o amor apavorado pela barata que voa. Era a expectativa como água na tentativa de ser empoçada em plena mão. Era a criação fomentada pela preguiça de se manter ativa. E andava pelo meio da rua querendo não ser absolutamente nada do que passava pela paisagem imaginária daquelas janelas.

- Tô destroçado, pensou ele. E o fez em voz alta pra que acreditasse que era findo o início. Sem nenhuma parcimônia, ela se viu no espelho. Continuar? Foi-se, assim, tal elevador panorâmico de lisergias. Ficou como piso tátil desalinhado no meio do poste. Sentou em areia pra ver o sol se pondo no mar da Baía.

30 de agosto de 2015

Noites [ou Noites de Bethânia]




Em pensamento grosseiro

A paisagem arbustiva se corrói
Parte de um limite de ser
Dentro de uma alegria de estar
Virado no momento de sensatez
Ancorado na vicissitude de sentir.

Ora, não sou eu quem sei de mim?
Por que, então descontrolo sensações
quando o passo é atravessado pelo desejo
que sinto de te ter por perto?

Atirado na prática cotidiana
Subtraio por instantes as colinas de fumaça
que definem horizontes abstratos.
E quando da presença da beleza em luz
Rasgo-me o peito
Pra não te responder nem com olhar

Desço as escadas pra fugir de mim
E lá está outro você
De surpresa pra me avisar que há mais sombras
que estrelas a seguir
Cabeça baixa em medo e reverência
Ao te ver passar

E então, no meu mundo
Em pensamento delicado
Tenho acolhido o universo em desalinho
E a tristeza vira beleza ao redor!
Ancorado na vicissitude de sentir
Virado no momento de sensatez
Dentro de uma alegria de estar
Parte de um limite de ser.

Ilustração: Vânia Medeiros
.

25 de julho de 2015

"Les temps sont durs pour le rêveurs"*



Abri os olhos e qual a grande surpresa, estava impermeável a sonhos. A fantasia própria da imaginação não mais poderia penetrar os sentidos. Dormir era um ato impróprio, quase soberbo, no limiar da disfunção mental. Estava tudo praticamente inerte, a não ser o fato de que tudo em sua volta era pragmatismo. Tão objetivo e feito sem esforço de imagem além. Mas também não existia mais ilusão qualquer, não tinha esforço em esconder desejos intuitivos, já que a ideia utópica do prazer era tudo efêmero e racionalizado. 

O cotidiano tinha virado uma equação matemática razoável. Nesse momento, encaixar o fazer da vida em sentido era tão complexo quanto achar o valor de x. O mundo ficou decifrável como poemas lidos de forma semiótica... Ação e reação, tudo a um passo da habilidade de leitura metricamente analisada. Mesmo a relação entre tempo e espaço, era mensurada com relógios e fita métrica sem demais variáveis.

Tudo estava estanque, sem símbolos ou metáforas como parte do dia a dia, tudo preto no branco, todos os vazios a serem ocupados sem receios, todas as desilusões previsíveis e treinadas a não realizar.

E quando me acostumava a não ser traído pelas leituras desvairadas estreitadas por sentimentos disformes, percebi que estava em sonho. As peças continuavam a se desencaixar, os ritos se desmanchavam em águas de marasmos e então o cotidiano se baseavam em um-tal-lugar-possível-impossível. Assim, mais colorido... E então ri quando a moça citou:

"Les temps sont durs pour le rêveurs"*

*Citação do filme: O Fabuloso Destino de Amelie Poulin

19 de junho de 2015

Fabulosas Iscas do Futuro #2015.2 [ou antítese no limite]



A afirmação de que há vontades inconfessáveis, aniquila qualquer paz. Ora, não há vida morna com desejos rompantes, como se o próprio caminho fossem linhas tênues de qualquer literatura impetuosa e cheia de ápices incoerentes e pungentes. Como se fossem mapas sinuosos de um território chamado memória, cartografias de sensações fixadas em espasmos acentuados.

A prerrogativa que conforta é de que a estrada a ser percorrida tem pontos de paradas que remetem sempre a qualquer parte complementar de si. Daí a invenção de não ser quem se é amanhã pra reinventar um passado faz mais sentido do que um colonizar o presente para estar, simplesmente. 

Há uma falácia em curso, a ideia de que nunca foi tão complexa a identidade criada pra si. Já que desde sempre nunca mesmo soube me dar diretrizes quaisquer para os passos instáveis que poderia forjar. 

Não era qualquer um a essa altura, mas também faltava uma referência. Conexões possíveis para moldar afetos intangíveis. Simples: o amor é feito de vícios rebeldes que compreende desde o súbito querer bem até o apego pelos detalhes da vida tecida a mão. Marcas singelas de uma veste que cobre os mesmos vazios, desde sempre.

E então, como parte de um protesto de humanização dos patrimônios, a rua viva é o meu próprio corpo, mesmo em distração, mesmo estanque.

18 de maio de 2015

Continuará















- Obrigado
- Fico esperando, então...

- (...)
- Só espero que não demores pra voltar

Orgasmo sensorial

Enquanto me olhava, falava uma pá de histórias deslumbrantes, fazendo as palavras brilharem pela coerência, pela coragem, pelo deixar-se abrir. Era a liberdade como um toque sutil na alma, como um tornar-se acessível, porta aberta pra ser inundado e não obstante ter um leve sorriso como resposta.

(Saborearam juntos um desafio para dois, como se dividissem a mesma leveza de ser, o mesmo peso também)

Restavam toques satisfeitos de sentidos, ampliando a face externa de qualquer que seja o algoritmo do prazer, rabiscando futuros acessíveis, produzindo literatos sem critérios, corroborando das práticas do envolver-se diretamente. E ele me cogitava perito de um sem fim de fragilidade, enquanto distribuía sorrisos invisíveis, malícias eloquentes. Como produzindo um palco de mistérios e desejos torpes. 

Encaixou o bem estar como faz um ser afável, tão robusto quanto sorrateiro. Tão contundente quanto delicado. Ele era como um eu em profusão, só que agora dentro de mim.

Já não tinha alí mais vazios, era solitude dividida: solidão a dois.

Taça quebradiça, película em alta resolução, cama no chão, vento frio, ingredientes e fogão, fome e sede impecáveis, conversas descabidas e olhares compenetrados. 

"Ah! Que esse cara tem me consumido 
A mim e a tudo que eu quis 
Com seus olhinhos infantis 
Como os olhos de um bandido 
Ele está na minha vida porque quer 
Eu estou pra o que der e vier 
Ele chega ao anoitecer 
Quando vem a madrugada ele some 
Ele é quem quer 
Ele é o homem 
Eu sou apenas uma mulher"*


-Tô te esperando
- Você ainda me aceita?



* Música Esse Cara de Caetano Veloso - (en)cantada por Chico Buarque
Ilustrações: Vânia Medeiros (uma com Paloma Mariano)

2 de maio de 2015

Eu, desfeito em carmesim



Vermelho (um traço forte de azul piscando, quase roxo, quase cego de tão roxo). 

Vermelho de novo (longo vestígio de verde claro repousa num círculo que se abre até virar verde musgo). 

Mais vermelho (e toda tela não se sabia se laranja ou carmim, oscilando sempre). 

Tom de vermelhos (e o amarelo parece sangue escorrendo de um aparelho de televisão preto). 

Vermelho rubro (alguém cinza, muito cinza como a solidão de uma cidade). 

Batom borrado, vermelho. Perdendo identidade, vermelho sem graça (pequeno verme latino).

Vermelho final (marrom, quase liquido, quase nada, quase a morte).

Vermelho da cor do não te quero, vermelho rejeição.

Eu, rosa, pálido, furta-cor, ausente e branco.

21 de abril de 2015

Fabulosas Iscas do Futuro #2015 [ou Ofélia]



Líquida, ó quão desmedida ela se esmerava naquele banho intrépido de ilusões e signos abstratos. Ela, quem sempre sabia de si sólida, exalava por um canto um cheiro forte de água! Era como, em sortilégio, enfiasse todos os dedos na garganta para arrancar dali qualquer que fosse as entranhas de um ser em dissolvidão. Distraída em mergulhos em si mesmo, estava alí gritando como canto seu desalinho com pés firmes no chão, seu descrédito à quentura de de um fogo qualquer, seu desentendimento com a respiração ofegante. Ela, brilhante pasta aquosa corroía todas as partes de si, antes navegáveis.

Tinha luz própria e o corpo em devaneio, como se a frente de um gigantesco parque aquífero fosse ela mesma a imensidão a desbravar. Optava pela solitude como sugerência de subterfúgio, mas não submergia sem qualquer intensidade, tão profunda que estava inspirar era sem sentido. 

O som que coloria o ambiente era o estímulo principal para que ela fosse obstinada em desmedida, tão penetrante quanto envolvente, tal ponto que o calor que saia dela desidratava os corpos tocados em suor e lágrimas. E Ofélia não era santa, sua consistência liquificada só era imaginação dizendo verdades obtusas, criando imagens sensoriais ricas em transparências e sensualidade em mistério.

Morreu afogada em próprios prantos. Arrancando suspiros alheios, dilatando as visões mais ásperas, convocando aflições suaves e iluminando caminhos de imersão ilógicas. 

Acordou disposta depois do corpo entregue em água, de tal forma que precisava nadar, braçadas consistentes para continuar e dar sentido ao movimento. Depois da ilusão do canto da sereia, de puxar um rabo de baleia, de incorporar Oxum e Yemanjá, aprender a nadar e... hummmmmmm... respiro! 

Continuou...

5 de abril de 2015

Desalinho (parte 1)


- Você pode abrir sua mão pra mim?

- Nenhuma linha aqui pode alterar o compasso do meu ritmo de pensamento. Saber me ler exigirá um artefato um pouco mais complexo, infelizmente.

- Qualquer leitura é simbólica. Posso constatar então, o fato de que eu sou a figura complexa pra literatura de você. Mas não tem importância, a essa altura eu apenas estou interessado em saber por onde não passará o seu caminho, já que (foi interrompido com um susto e um olhar mais agressivo)

- Opa! Não sou literato, nem tampouco dado a signos qualquer. Queria te dizer de todo modo que não há sequer um passo que se dê a partir de agora que não se entrelace, inclusive os não caminhos. (gargalhou sozinho... de repente reverberou de lá uma risada tímida para acompanhar). [aqui deu um rompante e levantou como se fosse discursar] - De fato, o único lugar que eu quero estar é aqui dizendo essas baboseiras pra você.

- Eu já tinha percebido sua dúvida. Seus lampejos mesmo ao deitar aqui nessa esteira ao meu lado. [levanta também]. Mas e então, abrirás pra mim sua mão? Temes a leveza de um possível caminho junto?

- Olhe minha mão [abre a palma voltada para cima] e me diga se tem chance de amortecer o limite da mágoa? Não tem ai um invólucro criativo de não ser e é essa a questão aqui posta. O caminho nem sequer se faz mais importante do que o traço latejado da memória... me diz: supera aqui as barreiras do não saber-me? Do querer não ser muitas vezes? Não há, de fato, qualquer possível nesse ínterim de caminho junto.

- Estou triste com seu desdém. Um roteiro pré-formatado de agonia se permeia pelo seu desafeto. E é a única coisa que consigo ver na aspereza da sua mão, mesmo que tão delicada.

(   )
...
...
...
(   )

- Eu entendo tanto de previsão quanto de física quântica

- Então é nesse momento que você me beija?

3 de março de 2015

Jogo de cena


Na primeira cena, ele sentou na calçada respirando de forma ofegante. Culpa dos passos rápidos que precisou dar até chegar alí. Estava correndo mesmo, e até um pouco assustado com tudo aquilo, até por ter clareza do que se intermediava alí entre a emoção e o desatino. Tudo parece confuso, mas na verdade, como cena, ele estava mais uma vez interpretando personagem já conhecido pela platéia. Um robusto teor de naturalidade saía de suas expressões, envolto nessa realidade fantasiosa fruto também das escolhas que fazia nesse tom dramático. Engraçado que o tablado se constituia de seu próprio corpo em solavanco, nada de um palco em confete, já que o cenário era tão cru que mais parecia a cidade ao redor. Tinha que seguir o roteiro, estava alí marcado: no batente de uma rua qualquer ele chora por não conseguir fugir dele mesmo, ainda que tivesse corrido léguas tentando extirpar de si o demônio mais sofrível que era sua própria constatação de fracasso em ser/estar. Nos ensaios, fez tudo diferente, se via belo e capaz até mesmo de conquistar o desejo de outrem, mas no final de contas, tinha mesmo era que seguir o script.

Mesmo com sol, tinha chuva. E ele não experimentava mais nada além do seu próprio jeito inquieto de viver sozinho. Estava em um longo exercício do atuar que se chama exaustão. Repetindo o mesmo gesto, corroborando com o mesmo argumento até entranhar de forma persuasiva no corpo como reação comum do outro que se valhe do seu corpo para ter vida. Era muito trabalho - físico até - e muita leitura para se aprofundar nessa conquista de ser o que não queria e convencer xs espectadorxs.

Todos os subterfúgios foram usados, desde lágrimas secas, até mesmo o rosto maltratado, cabelo não cortado (o personagem precisa ser ainda mais feio e acabado), olhar perdido para o mundo, entonação de voz que insinue uma fraqueza de espírito e falta de iniciativa. No palco, ainda tinha uma luz bem fraca, daquelas que a silhueta parece ter vergonha do objeto que está em cena. O som, uma captação de ruídos do ambiente da rua, tão nítido que as buzinas do carro assustavam-no de vez em quando. O grande problema daquele palco era a ausência da coxia, motivo pelo qual ele nunca podia sair do personagem, mesmo sem plateia. 

E então, quando na inteireza do sentimento do outro - que é ele, deu o texto, que mais parece um bordão: "sentado nesse pedaço de chão, no abismo da ilusão de estar em qualquer lugar que não em desejo, posso dizer que agora mais do que nunca, e como sempre (por qualquer tal incompetência que seja) - estou sozinho! 

29 de dezembro de 2014

Liberdade em sete passos


Ela planejou a liberdade em sete passos. Em um determinado surto de ilusão, decidira argumentar com si mesmo para decidir como conseguiria continuar a caminhar. Pensou que não seria tão fácil, mas se não conseguisse planejar o mínimo possível, não teria estrutura para manter-se. Anotou, então, no caderninho dos desejos:

1) O corte

A liberdade é um corte áspero na disputa entre estar só e não estar. É preciso encarar a dor da fenda, até mesmo não ter medo do sangue que pode escorrer. Estanca-se e se sutura grosseiramente, pois tomar decisões parece movimentar os lastros das cicatrizes e marcas que devem ficar com o tempo. O tempo, alias, deve ser o motor da ruptura que livraria do espaço de solidão ou aprofundaria o temor. 

2) Silhuetas

Aprender a ver com sombras escribas. Algo como se pudesse ler sem obviedade as coisas do mundo para interpretar a si próprio. Sem deslealdades consigo, encarar verdades para além da luz certeira. Ampliar a sensação de sentimento abstrato para alavancar as estratégias de vida.

3)  Solitude

Encarnar com seriedade o lugar da aceitação sobre estar só. Compactuar com a lisura do medo de não completar-se em outrem, mas de se saber autêntica e impetuosa comigo mesma. Fora o rio que se derrama por dentro, ampliar o sentido de ser por si parece grandioso na destreza de ser livre.

4) Pensamento complexo

Mover no cotidiano a partir de simples deduções e significantes parece nada óbvio. Quanto mais simples as conexões feitas, mais complexas e não evidentes as deliberações sobre a caminhada do mar de dentro. As ilusões são imprecisas e ao mesmo tempo tangíveis nesse tópico, talvez aqui a mais difícil aquisição do ser.

5) Bifurcações

Deixar de lado automatismos imprecisos assim como bifurcações. Sair da reflexão puramente moderna da sua condição para afetar os binarismos comuns quando da escolha possível. Ampliar as condições da estrada, mesmo que me demore em tomar as decisões reais sobre o que deixar de fora. Tomar pra mim as responsabilidades de não serem outros os lugares de escolhas, mas que há muito o que narrar para me dizer vivente.

6) Os impropérios 

Gritar inverdades - mais para novas descobertas - por aí, de forma que seja convincente de que mais se vale a defesa do que se acredita do que a verdade propriamente como tal, já que ela não existe de fato. Isso significa abstrair ainda mais a minha relação com Deus, como se eu pudesse me redimir de todos os pecados insólitos, mesmo que a heresia seja um dos piores.

7) Desaquecer o fim

Esfriar a hora da partida para deixar tudo bem orquestrado. Deixar que o medo de não ser/ter mais provoque uma agonia média em um outro "vivant" e passante por esse caminho. Daí a liberdade toma ares de ainda mais convicta. O processo se dá com desburocratização dos melindres, destronar licitações para relações e orquestrar meu choro mais temido pra quando estiver plenamente sozinha.

O caderninho não tinha mais folhas. Parece que esse tom lúdico, transformou seu plano em mais um organizador de ilusão de si do que a convicção de mudança. Porém, se a ideia sempre foi não ser e esse esvaziamento por completo motivou o sono que se abatia. Apagou cada frase como um acalanto. No final, só uma borracha desgastada e um sorriso no canto de boca...

Ilustração: Vânia Medeiros

2 de dezembro de 2014

De estar no caminho desperto (2)*



Saí por aí pra não fazer sentido

Os lugares se orientavam impossíveis
O caminho esfusiaznte
Tudo era um porém,
Mas se emanava por uma linha sensata
Um destino multicolorido
Que fora destilável.

Era tarde e eu saia
Andava com expectativa
ampliava sentidos
Insinuava laços

Me estiquei por goles d'águas
amplitudes sofisticadas
Na espera de um rompante

Me liberei naquele abraço
Do tipo que nunca tinha se dado
Acarinhado no conforto
Como se flor fosse!
Reconhecendo espaços distraídos
Como abre-alas
Como cicerone
Ampliando espaços afetivos

Estava junto!
Conectando sentidos
Fantasia salientada
Sempre em boa companhia
Com danças desengonçadas
Liberando desejos

Fome de bola de fogo guia
Caminhada soturna
Por noite adentro
Por coragem de segredos revelados
Por intimidades entrelaçadas
Dos olhos infantis satisfeitos
Das inquietudes dos tempos que virão

Disfarçamos olhares
Deslumbramos destinos
Fechamos as portas
Dividimos a cama
Entrelaçamos as pernas

E continua...

*Trecho da música Martelo Bigorna de Lenine

24 de novembro de 2014

De estar no caminho desperto*



Saí por aí pra fazer sentido

Os lugares se apresentavam possíveis
O caminho era fascinante
Tudo tinha um porém,
Mas se encaixava no fato certeiro
Um objetivo claro
Que mobilizava pelas escolhas feitas.

Era noite e eu saia
Andava com esperança 
Surrupiava silêncios
Condicionava os passos
Me debrucei por sortilégios
Dizeres sofisticados
Na busca de um rompante

Me mobilizei pelas ladeiras
Famosas insinuantes que são
Rondando tambores ancestrais
Como se flor fosse!
Não tinha menino imaginário, nem girafas,
Mas ampliei a busca, agora nos sonhos
Um horizonte estampado
Um espaço imaginário e tátil

Comi as entranhas
Minhas origens, minhas buscas
Fantasia apimentada
Sempre em boa companhia
Satisfazendo o corpo em anseio
Provocando a alma de desejos

Andei sobre as pedras do lugar
Desorganizadas e convocadoras
Cheias de novas descobertas
Reluzentes de curiosidades 
Pleiteei sambas orquestrados lá no alto
Rodas dançantes lá embaixo
Descambando em café de baile

Talvez por desejo ou coisa igual
A imaginação do rosto estava em vários
A sensação do toque perseguia
A busca me agendou a alma
Mas, no final, não tinha você.

*Trecho da música Martelo Bigorna de Lenine