
Alguém pode perguntar acerca da melancolia que não existe na roda e que em mim parece uma constante, mas nisso não me apego mais. Apesar da também semelhança com os olhos cansados da senhora da lata, do "rir para não chorar", das vontades inconfessadas no pandeiro.
"O meu samba é de vida e não de morte
Meu samba vem pra cá e traz a sorte
E celebra tudo o que é bonito
Meu samba não despreza o esquisito
Meu Samba vai tocar no infinito
Meu Samba é de bossa e não de grito"*
Sou também o sorriso da menina que entra na roda, a sandália arrastando o barro do chão, o toque do garfo no prato de porcelana, as notas delicadas do cavaquinho. Ah! eu sou sim uma roda de samba. Daquelas que as moças bem vestidas de chita gargalham satisfeitas. Das que os rapazes cantam abraçados o refrão. Do beijo e do respeito por toda a ancestralidade. Cada vez mais flexível, me embrenho pelas mesas de bar madrugada a fora. No couro do terreiro, nas latas tocadas por "minha tia", dos dedos miúdos na pele do pandeiro, do velho sapato branco, do chapéu costumeiro, da cerveja gelada no copo e da preta a se requebrar. Aí, sou ponto de encontro de bons amigos, escuta para dores de amor...

E então, o samba é meu corpo inteiro. Um pagode arrastado, um chorinho de viola, uma cadência com esmero, bandolim e surdo ligeiros. Senhoras do recôncavo, eu sou também... Os poemas de amor versados para o meu bem com harmonia e contratempos ritmados. Então, pego meu pandeiro discreto e, com minha marra sorrateira, me transformo lentamente num bamba. Na mais gostosa roda de samba.
"o couro comeu na casa de noca, nêgo
não teve jeito
na casa de noca, quando o couro come,
é sinal que a dona quer respeito"**
Foto: Carol Garcia e coletada na Internet
* Trecho da música Samba Meu de Rodrigo Bittencourt (cantada por Maria Rita)
** Trecho da música Casa de Noca de Serginho Meriti, Nei Jota Carlos e Elson do pagode (cantada por Maria Rita)