27 de dezembro de 2009

Por uma noite apenas


Nossas mãos se encontraram num similar toque. Algo tão inesperado como um episódio inédito daquele seriado na madrugada de sábado quando nada se tem a fazer. Felicidade espontânea. E tudo mais era um glorioso sentimento de mistério e de sorte. Havia muita coisa a ser dita e antes de mais nada havia pouco a ser proposto. Ufa, ainda temos as noites para passar em claro só para enaltecer a nossa companhia. E eu que não mais me imaginava no impulso do amor sem contenção, estava lá a admirar o momento como magia ímpar. Queria que a solidão tivesse ali a me ver naquele momento, morreria de tédio e ligeiramente se sentiria rejeitada. Particularmente, estava inteiro ali, com um palpitar sensível e uma vontade de que o olhar se ampliasse e de forma crescente como assim queria nosso pensar.

E assim continuava. Sem teto para vôos inseguros, sem chão para lisergias irrisórias. Cartas de baralho eram fichinhas, o que estava em jogo era o estar imerso um no outro. E não mais bastava, estávamos dentro um do outro, tão entranhados que se libertava de concretudes amenas. Que os outros ouvissem os nossos ruídos de emoção não nos importava, embora poderíamos incomodar com a altura da nossa falta de limite, da nossa zoada simbólica, do nosso despir-se. Desnudos, éramos só o sexo! Puro equilíbrio, tesão sem nostalgia, tensão com prazer. Encarnados na madrugada afora.

Quanto mais se ia a escuridão lá fora para um lugar descompromissado com a agonia, mais neblina torneava a luz amarelada que penetrava amena pela fresta da porta entrecortada pela persiana. Iluminava parte do rosto dele que de vez em quando se transformava em sorriso ou em rusga de apaziguamento. Observamos que não tínhamos mais relógio possível e que também não podíamos deixar de pensar que haveria de chegar o momento do sonho. Mesmo assim a nossa esperança de cumplicidade nos impedia de sair Dalí, por desejo.

Mais se colocava o toque como pincelada de palavras vãs e conversas rasteiras do que a noite nos propunha. Éramos profundos demais para requerer uma vida desassistida de encontro. Mal se podia parar de pensar no próximo momento e como era divertido passear pela simples capacidade de compreender. Era o amor ali, como paixão pelo discurso. Um beijo na alma. E tinham ali mãos encontradas, certas de que mesmo vindo o depois, sempre estará ali aquele momento como a realidade mais possível. E então, sem radicalismos morais, com alteridade assistida, rodeado por um relativismo sensato, nos amamos como carrossel em parque de diversão. E como roda, segue a vida, agora em comum.

Pela convresa que tivemos e pelo amor ampliado

4 de dezembro de 2009

confusa


confusa
Upload feito originalmente por Niltim

30 de novembro de 2009

O homem que me queria


Ele me olhou de longe e com uma saudade nos olhos argumentou qualquer coisa que fizesse um sentido para nós. Quis me dizer palavras bobas e irrequietas, na condição de liberdade saliente. Mais do que querer, ele ansiava por um olhar qualquer, sem perder nenhum sentido. Eu bem que quis tentar desviar a sutileza, mas me contentei com o abdicar. Deixou de me querer de forma efêmera.

Ele me olhou de longe com o interesse de obter mais informações, muito menos do que o carinho necessário. Quando estava a ser observado, entendi que ele me queria mais do que o tempo, menos do que o espaço em volta, como se quer a uma história coerente. Eu bem que tentei disfarçar a minha insegurança naquele momento, já que não estava a contento de suas expectativas. Deixou de me querer de jeito paciente.

Ele me olhou de longe na inventividade de um olhar para me exigir o direito de ir e vir. E eu que tanto prezo pela liberdade de outrem. Assim que ele deu uma brecha no olhar, cuidei de ter um óculos escuros, uma nova imagem a me fixar. Pensando bem era como se eu mesmo me quisesse e não conseguisse absorver o querer.

Ele, então, nunca tinha estado a me querer. Passou despercebido mais uma vez. Deixou de me querer.

10 de outubro de 2009

cotidianos desejos


Ato 1

Estava pronto. Parado em frente ao portão principal, estava na hora de mostrar a que veio nessa vida. Era completamente legítimo a sua investida, sua empreitada. Consegueria desde então se provocar no intuito de assumir outros papéis. Surpreendente, falaria em público sobre desenvolvimento de diretries políticas mais íntimas. Queria ter se preparado mais, mas sim, estava pronto - dizia. Sorria delicadamente por que tinha o interesse de evoluir e estava na hora exata para isso. Migrou seu destino para a razão que masi lhe importava, acreditava que saira do lugar no exato momento da emoção conflituosa, abriu o ferrolho, ouviu o zom trêmulo das grades se tocando, seus passos. Entrou...

Ato 2


Encostou os lábios atrás do lobo da orelha, pouco antes de chegar ao pescoço. Tinha suspirado. Arriscou um leve toque no rosto como se dissesse: quero sem muitas dúvidas. Deixou-se ser mordiscado de leve no queixo com poucos pêlos, enquanto mão direita firme na sua coxa. Então sua mão conduzia carícias nas costas por dentro da camiseta que subia automaticamente. Sentia volume em sua roupa de baixo, o outro também. Sangue. Movimento. Tronco nu, de costas, fungadas pela nuca, apertos e gemidos sutis. Agora nariz próximo ao umbigo...

Ato 3

Torcia para qualquer que fosse a falha no seu computador. Isso já que
as vezes vem consertar hardware, mas seu sorriso parece vírus que confunde meu software pessoal e mais íntimo. Sempre o vejo com olhos de virtude e ele, com jeito tímido, entende que toda vez que o chamo é como se abrisse um aplicativo de mídia social e nossas redes se encontrassem para troca de bits e com direito a uma boa memória. Aí, tenho que desligar o pc...

Foto: Guilherme Athayde

13 de setembro de 2009

Redenção a cores


Passou em frente a loja companhia das cores no centro da cidade e decidiu entrar. Logo foi recepcionado por uma atendente. Depois de avistar uma caixa de lápis de cor bonita, pontas afiadas, diversidades de cores pediu:

- Você pode me mostrar a caixa de lápis de cor?
- Óbvio, disse a atendente. O senhor fará muito bom proveito dela, penso. Continuou ela...
- Quiça farei. E pensou: Será mesmo. E retrucou: Ainda fico no exercício de tentar ilustrar pensamento menina. Sou ainda bem iniciante, mas não vazio. Sei o que quero dizer, mas tenho que me concentrar pra dizê-lo de forma consistente, os meus riscos são resultados de leituras ainda por amadurecer. Foram escolhas e oportunidades a feitas. Essa caixa não me dará redenção, mas me proporcionará caminhos simples de outras descobertas com as novas navegações. Poderia horas falar de minhas outras incertezas, mas não tomarei seu tempo.
- Já embrulhei a caixa para que leves. Agora a saber, a falsa modéstia é a forma mais primitiva de esconder a falta de coragem. E você está certo, o medo não significa o vazio.
- Quanto é? Cortou o assunto...

Deixou de andar pelo centro da cidade pra que cena como essa demore a acontecer de fato.

6 de setembro de 2009

O passeio por duas loucuras


Prôpos um pacto de silêncio... psiu!!!! olhando ao redor vestia-se de armas de flor de lótus para se certificar que nada o alncançaria. Solidão. Um correu para o lado de onde o vento não vinha para enlaçar folhas verde macio. Outro se manifestou por dois grandes motivos: a libertação de seus desejos e a maturidade de sua infância.

Perdeu os méritos no meio do caminho. Segundo especialistas, não há o que temer quando se logra algum desperdício de tempo. Ao contrário, coragem rapaz! A inexistência da verdade lhe propõe dessa mesma forma um universo de encantamentos que pode ampliar as visões a partir desse momento, adiante. Eu que não sou sozinho, me busco nas intermitências dos carinhos alheios, pensou de forma abrupta e num canto qualquer.

Ah! o amor, deveria descorrer aqui sobre o que esse desafio proporciona de mistério. Mas é isso mesmo que parece a loucura. O MISTÉRIO, como a fantasia, o é. Não optou pelo momento de normalidade, acorrentou-se e entendeu que as realidades confortam a sabedoria. E quando se olhava no espelho orgulhava-se de batatas da perna, do prazer que sentia pelas coxas grossas e por ser homem. Gostava do pênis entre as pernas, gostava de fazer a barba - por ela existir. O outro não muito, já que se percebia feio.

- Beijou o espelho.
- Andou pelo jardim estático onde observava outros.

Vai continuar pelo meio do caminho seguro. Agora, distante de realidade, um abraça o outro, choram pelo conforto e são alegres em diversos momentos como se sentiam alí. Um abraça o outro felizes naquele momento, como tristes em diversos outros. Um toca o outro como se o prazer fosse merecido e como se o gozo fosse memória. Arrepiou a pele:

- Sua mão desliza pelo braço forte de outro.
- Soltou o espelho.

17 de agosto de 2009

carta de amor assinada



Santiago, Chile.
25 de maio de 2013.

Meu querido aprendiz,

ando muito por essas noites, comentando fatos livremente. Embora soubesse de mim andante, ainda precisva encarar o fato de que o caminhar não siginifcaria muito sem que viesse consigo a produção dos passos que deixaria legado. E seria total absurdo destinar o momento lírico para qualquer sentimento. Já diria o poeta que a emoção vem depois da palavra escrita e nela contida sem esmero. Portanto, NÃO PROCURO MAIS A BELEZA. Não me faz sentido o bem fazer. O exercício por si só nesse momento é igual ao que poderíamos convocar como sinceridade, esta a única possibilidade de ascensão espiritual. O experimentar como o próprio caminho, a rigidez como a mecânica do dar passos, a árdua e voraz missão de andar.

POIS QUE SE INSTALE A SENSAÇÃO como prática do meu processo criativo. Que o tato me guie pela compreensão das minhas argurias na vontade de expressar com traços uniformes e divergências de cores o que aparecer no papel em branco.

A desformidade é o que me excita no dia de hoje. Já que não posso prever nas minhas células o que me congrega de experiência no estado/tempo de amanhã. Quando vejo paisagens construída com esmero não me significa tanto quanto quando percebo a proeficiência na arte que se tem a dizer arduamente. É como se fizesse parte do meu esquema de sentido ter prazer com aquilo que em minha visão/paladar/audição rui em desagravo com a certeza absoluta ou a imedieata decifração.

Inexiste em minha agora visão de mundo a CONSTRUÇÃO ERETA DE INTELIGÊNCIA, mas sim há a desconstrução de ligações frágeis de conceitos, já que se proliferam imagens em detrimento de criatividade. Mas as imagens existem em liberdade e elas que se renovem em sua habilidade de compensar o vazio.



Já que eu tenho o que dizer, falarei somente pelo silêncio. E nada fique dito por dito. Se minha arte é a minha salvação, minha raiva desmascarada, minha ousadia de não ser, minha ILUSÃO secreta. Então, minha arte é o meu exato não entendimento.

Com carinho,
Ela.
P.S - se a palavra perfeição povoar indexamente essa carta ou lhe parecer próxima, me perdoe, estava com sono e nem fiz revisão antes de enviar-te.

Ilustrações: Hannap e Rebecca Budde

4 de agosto de 2009

Noturnas


Chegava não muito tarde de suas caminhadas noturnas. Alegrava-se em balbuciar sons solitariamente enquanto apreciava as literaturas que as ruas a inspirava. O argumento mais profundo que construia sobre continuar a andar baseava-se nos aromas agridoces das calçadas - o cheiro do azeite de dendê que queima com cebola próximo ao carrinho de pipoca na frente da escola denuncia as argurias que ela sentia na sua boa andada noturna. Mas não atentava muito para os detalhes essa mulher saída da adolescência, bem possível que ela nunca realmente tenha reparado muito para os detalhes, nunca fora tão caprichosa assim. Fazia boas articulações de pensamento, com boa memória chegava até impressionar, mas sua falta de atenção não permitia que passasse da média nove. Optava pela sorte, diria sem pestanejar seguida de uma gargalhada sozinha.

Exitava em chamar atenção, por isso planejava cada passo tão obstinadamente que parecia calculado até os sentimentos que deveria ter, como se pudesse supor aquilo que teria de emoção. Também deixava de ser sociável já que tinha facilidade em saber do outro e como estava quase sempre em posição de meio-termo era fixada por poucos.

Mas chegava o momento. De repente chovia por demais antes de chegar em casa. As árvores deixavam pingos caírem aos montes e com força sobre sua cabeça ao mesmo tempo que a protegia da queda torrencial de águas do céu. Continuava no meio-termo, se escondia com os pingos grossos e as vezes se molhava pra chegar mais rápido ao destino. Tinha o caminho traçado por sua mente enquanto a chuva dava tréguas aos andantes. Livrou-se das obsessões trazendo fone de ouvido às orelhas já molhadas. Parou para ver o tempo passar na garoa. Era bonito de se ver os carros adiantando seus percursos, as mulheres aos braços com seus companheiros, as crianças nas varandas das casas.

Os outros dois seguiam correndo para melhorar a forma física. Cogitavam parar em uma barraquinha na ponta da rua com intuito de refrescar-se mesmo depois de receber águas enquanto conversam de diversos assuntos. Sabiam pouco um do outro, mesmo com muito tempo de companherismo de corridas noturnas. Ela os via vindo e entendia que não se supunha visível, mesmo assim tratou de observá-los. Perto dela, um deles precisava amarrar o tênis e de sobressalto tinha pedido um tempo para o companheiro.

Em um instante ela pensou em filhos. Seria possível alguém amar assim tão repentinamente? Uma paixão avassaladora, algo que atropela o peito. Ela sabia que tinha alí um desejo muito forte por construir a coletividade da vida com outro e isso estava palpitando nas suas veias. Era ele. Tinha encontrado alguém que lhe tomaria a alma e que construiria todos os sentidos das cores que seus olhos iam misturando em ação. Suas poucas mentiras já não importaria, já que ela já o tinha em verdade. Sabia que o chamaria de amor na frente de seus amigos mais próximos e seus pais assumiriam que ela era mulher feita. Ele retribuiria com supresas em dias de trabalho, recados de carinho e afetos saudosos. Ela o tinha em compaixão e mistério. Já tinha o amor.

Ele não descuidou dos dois cadarços. Estava pronto para voltar a correr. O outro voltou a puxar qualquer assunto, deram risadas contidas e continuaram a correr. Ela não tinha ainda escolhido qual dos dois amara naquele momento. Eles já iam longe, quando ela decidiu assumir a chuva e foi ouvindo música pelas ruas à procura de um amor. Ela e sua sinuosidade distorcida sob as águas.

*A regurgitar Clarice Lispector e sua via-crucis do corpo

2 de agosto de 2009

dois quartos de leitura


A terceira página do livro ficou marcada durante vinte e sete dias. Foi quando tomoou coragem pra continuar a saber do que era fato. Mal acostumara as inverdades confusas, mas confortantes, puseram em suas mãos algo que o mobilizara sem intermédios; sem subterfúgios. E seguiu-se os dias com a promessa de que a tolerância não cabia mais numa existência com sentido. Corrompeu todas as liberdades que quisera e foi caminhar sem rumo para um lugar certeiro. Urge a necessidade de intuir a decisão de não estar, como se algum dia soubesse alimentar o desejo com migalhas de almas que ficam espalhados pelos cantos do que achou de beleza.

O cotidiano, seria ele mais orgulhoso, o destino. Mais perspicaz do que a simplicidade. E foi aceitando a sua própria imperfeição como limite.

Ora, faz parte da vicissitude do pensar coerente a ilusão de não ser em espaços comuns aos olhos? Se houver resposta, que não se concretize em ciência, basta o querer como alento, deixa que a literatura seja mais abragente que a imagem e então faça a verdade escorrer pelos olhos como assim o fez limpando lágrimas com papel toalha verde.

Há uma máxima do desejo, a de ser proporcional a dor. Como não se sabe da existência do cotidiano sem marcas doloridas, presume-se que se possa ir esquecendo alguns desejos menores (?) como pássaros que se esquecem em galhos urbanos, ou frutas que se esquecem nas calçadas de feiras livres. Mas o querer é mais que a simples decisão de não ter mais dor e a guerra entra paz e movimento sempre vai acontecendo para que a complexidade de criar sentidos se torne aprendizagem. Faz parte do caminho, propõe-se, que os livros [naturalmente aqueles que povoem o corpo riscando a pele por dentro] assumam seu papel carrasco e lisérgico.

Minha leitura é a minha pátria, diria. E então minha compreensão de mim seria palavras em profusão.

27 de julho de 2009

E se foi falar de amor


Roda uma roda por dia essa ilusão de não estar. Aquilo nada mais é do que a brincadeira divertida de se apropriar da inversão lógica das coisas. Eu que não quero ser aprendi a gostar de me deslocar no "não estou". E para os que tem dificuldade de enxergar, aposto que ainda falta simplicidade no olhar para o movimento. Passou e é simples. Fácil mesmo é se namorar de sensações intelectuais, mais fácil ainda é apostar no que se costumou chamar de intuição e eu não estou mais uma vez.

E enquanto corria a roda do desafio, um mínimo de pessoas que não se conhecem parecem estar na velocidade instável. Passam por ruas e avenidas, entram caladas nos pequenos elevadores, ensaiam pedidos de felicidade aos outros. Como se nos outros se completassem e não tivesse a certeza que ainda faltava alí algo mais do que se espera.

Na coletividade há liberdade. Uma delicadeza irrequieta que não saboreia desamores, uma parcial seleção de interesses comuns.

Como se bastasse a ilusão, os sinais vermelhos não costumam ser pontos de encontro e a beleza, essa que almeja outros ares sempre que começa a fazer sentido, maqueia a construção de pontes poéticas entre o um e outro. Como a solidão não requer resposta alguma, ficamos imaginando quais as dúvidas que nos guiará sozinhos*. E então nos damos conta de que o desejo é uma construção do que pra nós a ilusão faz sentido.

Ilustração: Ceci Larea (Casimira Parabólica)


*Parafraseando Fabrício Carpinejar quando o escritor diz: "Nem o amor platônico tem direito de ser preguiçoso. Não requer resposta, mas é necessário formular a pergunta".

20 de junho de 2009

pensaminhando


O primeiro passo foi se convencer que nada tinha sido bruscamente se movimentado. Pronto, nem tudo mudou e os capítulos a seguir não pretendem ser licensiados por uma ruptura abrupta. Acabou-se os pontos e virgulas, nada de classificações.

O segundo passo foi entender o por quê de tudo estar tão diferente se nada mudou. Há um acre sabor na boca, daqueles pirulitos que vai modificando a coloração de seu paladar.

O terceiro passo não foi dado. Preferiu descansar um pouco de pensar no que se sucederia depois de aquele momento não ser o mesmo e também parecer novo. Uma confusão dos diabos, parecia que sua cabeça girava sem parar e por isso mesmo tinha que descansar.

O quarto e o quinto passos, perdeu o interesse por saber quais eram. "É fulero ficar pensando num destino traçado, sacou?"*

* Disse Ivete Sangalo alguma vez.

31 de maio de 2009

Por que era ela, por que era eu*


Muito pelo contrário. Tinha rasgado as desventuras da misericórdia. Alegara-se injustiçada pelo tempo e pelo tamanho adquirido da extensão espacial, se é que vocês me entendem bem. Ela não era simples, sabia, mas quem o dissesse de sua complexidade é por que não havia sequer chegado perto de suas intenções na vida. - As intenções que você tem no caminho, as suas intenções são muito sérias. Nada de planejar o destemido, tenha retidão no seu pensar e só isso lhe fará honesta com suas habilidades. Dizia a ela seu pensamento. E não vem ao caso discutir as habilidades dela, basta pensar que ela tinha rigor de viver e que não tem nada de abstrato nisso. Que história de veranear nas areias da praia macia. Ela queria mesmo era não esperar mais pelo coração acelerado e assistir de camarote o que construia aos poucos, o cotidiano, a prática da vida comum, mesmo que sentisse pulsar de felicidades momentâneas lhe convidando. Então, assistia televisão sem nem ao menos saber do que se tratava... chamava atenção as cores que tinha naquelas luzes velozes. E aqui tem um sentido de aparecer a televisão, por que ela construiu uma em casa com uma tábua de passar roupas bem antiga que não servia mais (não tinha roupas de algodão para desamassar). Também tinha uma lanterna, papel celofane, barulho de rádio relógio. Pornto! Faltava uma coisa: gente. Mas esse era difícil saber entender sua engenharia, então guardou o invento incompleto para quando soubesse todos seus "ingredientes". Ria sem parar das bobeiras que pensava.

Tinha paciência com crianças, de vez em quando. Só não gostava quando o comportamento delas era de gente que se sabia ingênuo demais. Ficava sem graça como brincadeira muito longa. Quando liguei pra ela, estava se arrumando para ir à praça brincar com algum infanto que estivesse por lá. Aí eu disse a ela que não tinha sentido e ela optou por me ouvir. - Se quiser ler o mundo enfrente meus medos, eles são muito parecidos com os seus, Nélia. E não dê risada tentando satirizar minha emoção, não vai servir de medida escapatória. Disse eu mesmo sem rigozijo, talvez temente dos pensamentos do outro lado. Nélia me disse que leu duas páginas de um livro que tinha guardado no armário de roupas, mas que estava meio sempaciência para poesias absurdas. Disse-me também que a diversão do seu domingo era fazer machucador de alho um microfone com sabor para adoçar canções que ela mesmo ia compondo com o eco da cozinha. - Se eu tivesse sabedoria de minha passagem pela alegria difusa ou pela minha oração, eu seria cantora, sabia? Me disse ela, também me acalmando.

Escreveu umas duas vezes no espaço virtual que seu filme preferido da nova geração era Madame Satã por que a liberdade estava alí posta na casa fúnebre e sexual da periferia do Rio de Janeiro em tempos atrás. Aquilo soava como jogo de sinal, quase que por acaso comentava rapidamente que gostava mesmo era do sorriso de Selton a qualquer momento. Recebeu treze comentários sobre isso que escreveu e quando lembrava ficava tensa pois não sabia se tinha verdade alí ou a necessidade de dizer qualquer coisa que viera a mente. Quando casnava de pensar, pensava mais ainda e isso era prerrogativa de sua paixão pelo universo de construção de sentido. Por acaso leu o jornal de sábado, pois não tinha o costume já que com o salário de secretária de médico homeopata mal dava para tomar a cerveja no domingo que, segundo ela, aliviava a tensão. No fundo, queria mesmo era saber do silêncio das coisas influenciada pelo que lera sobre um senhor chamado Smetak quando dizia que o sentido do som estava no silêncio depois que ele acontecia. Se ela fosse música, o que seria depois que ela fosse tocada?

Por sorte sobrara uns trocados para comer um daqueles congelados de supermercado. Era sempre uma alegria ter massa com verdura pronta para ser devorada com um suco de polpa de umbú. Em direção ao caixa achava que alguém deveria fazer fotografias daquele momento, cores e ilusões de ótica não faltariam para compor. Quando lembrei do trecho da música que tinha lhe dito antes ela já tinha saído de casa, como não tinha secretaria eletrônica não lhe pude deixar recado. Eu fico bastante envergonhado de ligar para seu celular, então guardei o trecho pra mim como se ela fosse pra mim nesse instante o silêncio promissor, esperançoso. Em outro momento pra mim, Nélia era o silêncio e só.

Imagem: Nina Neves
*Música de Chico Buarque, também tema do filme A Máquina.

Acho importante falar que os diálogos dentro da sequência do texto, anunciado com travessões devem ser visto como um elemento qualquer da narrativa. Minha proposta era dar velociadade ao texto, mas ao mesmo tempo penso que pode dar margem à qualquer interpretação de sentido. Que bom!

14 de maio de 2009

Leitor


Quando escrevo é como se um desenho opaco fosse escrito sem fantasia.
A palavra fica turva em um momento e aí então começo a não saber mais dos símbolos.
É quando paro de pensar no encadeamento e então surge o texto, como desenho concreto ou risco certeiro.
O texto é fora de mim, como se isso tivesse algum sentido óbvio, que não tem nenhum.

11 de maio de 2009

Encantamentos


Enquanto estava esperando o sinal abrir nem imaginava que a sensação de não estar me vigiava. Nem entendia das razões, mas já que estava parado em frente a carros precisava fazer alguma coisa, então decidi pensar e pensar nessas sensações que não conhecia de perto. Foi quando avistei a moça se aproximando e aí queria mesmo era que as cores alí se transformassem para eu ganhar uma maior liberdade. Isso não se ganha, poderiam dizer sem argurias, mas eu, tal ignorante que sou vou aproveitar minha possibilidade de ingenuidade para acreditar nisso. Balbuciei algo resmungando da solidão na estrada para ninguém ouvir, como se fosse possível viver sem licensa para ouvidoria alheia - risquei aqui minha sensibilidade partindo o sonho das minhas abruptas mãos. - licensa! Pediria ela chegando bem perto para abrir um leque de possibilidades; talvez conversa, espera em comum, risada daquele desajeito que via ou outra coisa de seu pensamento. Ainda bem que eu a reconheci antes disso tudo.

Cansa-me esta toda sequência de... do que nem sei mencionar. Como ritual de re-conhecimento. Se ela soubesse que sabia de mim perguntaria o que sou hoje e então nada disso teria sentido. Menos sentido teria a minha resposta. De certo diria que sou um cantor. Que faço dos tons meu universo de poesia para expressar minha calma e minha lisergia. Mas isso não era uma justificativa cabível, pensei agora. Como justificaria que usava do meu som para o viver da canção? Minha filosofia não teria símbolos concretos em palavras para ser assim sincero nessa argumentação, então não serviria. O que diria então? A que posso atribuir minha vã existência?

Ela nada escutara e eu nem ao menos a conhecia. Pensei que o nada que eu poderia ser, nem esse, eu poderia justificar. Diria - não sou, e tenho certeza que ela me responderia com outra questão como: E se faz o quê quando não é?

Não a poderia deixar chegar tão perto. O medo desse questionamento me fazia suar frios nas mãos que segurava o caderno e a agenda. Quis andar, mas precisava atravessar aquele caminho do qual o sinal me soava vermelho como paralisia. Por que eu teria vontade de chorar? Tinha me atirado sem certezas? Deixaria ela chegar para não me entender? Fiquei pensando em outras respostas desesperadamente, precisava ter um significado lógico para o que diria a ela. Até descobri que dessa forma não poderia ser nada. Poderia conjecturar algo simbolico o suficiente para dizer o que era. Pensei em me dizer crente, mesmo assim não entenderia toda a minha idéia sobre isso. Foi quando lembrei de alguém ter dito algo sobre ser apenas quando não o é, quando se morre. Mas eu consegueria justificar a morte ou algo depois disso? Pensei em desenhar algo no chão para falar de mim. - Sou intérprete, disse sem pestanejar e com medo. Mas ela ainda não tinha chegado tão perto para ouvir antes de perguntar. Até que o sinal abriu e eu não conseguia saber se o andar era de nervoso ou se era justamente a liberdade que ganhara. Falei tão alto que eu mesmo tinha me escutado dizer que interpretava a existência, então pelo menos pude rir antes de caminhar. - Mas olhe bem, eu não sou ator, sou intérprete. Ainda pensei assim, lembrando de Maria Bethânia no cinema. - É por isso que estou tentando desenhar e que as imagens me aceleram as batidas do pensamento, além disso sou sensível ao que não posso fazer bem feito, fazendo mesmo assim para continuar a ser. E ri, novamente. Quanta besteira pensava enquanto a luz enverdecia.

Seria muito perigoso pensar muito sobre isso constantemente. Viveria por escrever frases de efeito em bilhetes de amor ou até mesmo fazer um bem arrogante ao alheio. Prefiro ser alguma coisa, pensei. Mesmo assim dei um sorriso pontou e atravessei a rua nos minutos que faltava. Ela devia pensar no que estava sendo e isso bastaria.


Ilustração: Vânia Medeiros

21 de abril de 2009

Conversas de pé de ouvido


Ocultaram-me as divagações alheias e eu, que não sei de meia dúzias de palavras, estava no mensageiro instantâneo, sabendo de tudo rapidinho e manêro. Foi isso então, o saber que estava alí estabelecido tinha a ver com a identidade alinhada, nada mais me pertencia se não a emoção de me ver sabendo de si mesmo, em outrem. Quanto mais as digitais digitavam [mesmo tendo aparecido sapos na sala, mesmo não tendo visto o filme na tv], mais palavras como semânticas avançadas me fugiam de mãos. E tudo não passava de imaginação de conhecer o outro lado como eu mesmo não o sabia de mim. E podiam voltar enxurradas de letras depois de aberta a represa de luz que continuava ali despertando a emoção de não se saber ignorantemente exdrúxulo. Moraria na filosofia dela ou dele, lamberia a própria emoção transitória, salvaria com respiração boca-a-boca o tom robusto dos argumentos proferidos. Meio confuso, suspirou para si mesmo várias vezes sem ter microfones para ampliar a voz, tinha também que saber do tempo e isso era limite. Sempre fica no final das contas como aquele insaciável pela conversa como se para se sentir pertencente ao mundo alheio. E então não tem mais limites. Nem queimar por dentro, nem pertubar o sono. Também estava disposto a parar de ouvir o que viria pela frente - eles que disseram tanto num dia grande, um dia cinzento - e as referências que ficassem em seu devido lugar do pensamento. Tentativas de continuar livre, interrompido e cinético. A vivacidade e o estar complexo nunca foram assim suas grandes fortalezas. E, pra finalizar tudo, não sabia se entendia muito bem o que lhe falara, pois, para ser sincero, não sabe de nada sem modéstia nenhuma. Graças a Deus.

ilustração: meu lugar de imagem

20 de abril de 2009

Mistério de quem tentou pensar sem palavra.

Anuciava o começo, concordo - acho que não mais do que sinceras promessas há de puritanismo cartesiano. Corta-se os laços e derrama sentido no que não se escapa! Corte! há a liberdade e sim todo o positivismo. Tem um momento, pensou ele, que nada se começa com um ponto... tudo vem de antes e há até um espaço para se pensar e aí rosnou paciência sem pensar em como o leria outros [e se os leriam outros, imaginava]. Esperava por ninguém, essa era a sua grande missão e se completa a serventia nesse processo tinha passado de inteligência a fio para intolerância irônica. Resultado, ia perdendo os amigos ao longo do caminho, já que queria exercitar a simplicidade.

- Calma aí, indagou,
tudo o que se produz de sensibilidade vai parar onde? Estava acostumado a tentar usar menos o "não" no pensamento, mesmo sem saber se ia dar certo. Para se socializar, não administrava idéias complexas, absurdos imaginativos e assim por conseguinte, teria o entendimento alheio como produto de vida. Massa, já sabia do que não queria e ousou gritar que não era mais o mesmo nesse exato instante. Ainda queria ser mais simples, chamar para perto Antônia da livraria e até fazer poesia para Zé.

"O que tomaram não era seu, José,
que de ninguém nada se tira"*,

mas isso de exercitar a poesia do cotidiano era pra quem já tinha evoluído. E ele mal sabia administrar seus desejos, podendo até ser convocado ao réu de superficialidade. Era mais gráfico que cantante
[tossiu duas vezes para exercitar o coração, beats de silência alterado em compassos e só asism musical se podia tornar, como tambores do Olodum ritmados no qual mais se prestava atenção nas cores do som. E estava unido ao som do timbau.] e assim era mais insinuante, mesmo que fingisse sabedoria excessiva. Tinham outros que viera nessa vida para ser e ele tava na vontade ainda de querer ser...
[...] emancipara o pensamento. Leitura de outros contos que não sordidos e mais profundo que a própria palavra de leitura.

Nunca tinha sido mais feliz sozinho e, no futuro, pensava em viajar para entender isso ainda melhor. Até convites foram feitos. Viajar é escrever junto com palavra de cor, sonhando-se pintores de mapas letrados.

* Trecho do poema An-dar de Raíça Bomfim
* Ilustração: Igor Souza

- ouvindo Olha o Menino de Caetano e lendo Aprendizagem ou o livro dos prazeres de Clarice
- para Raíça, pela saudade.

11 de abril de 2009

Eu que não sou artista, imagino...



Ele não sabia muito bem da arte do traço. Apostou na sua sensibilidade para tentar criar. Isso por que não tinha uma causa para que o fizesse e assim tornaria sua propensão criativa um pouco mais sincera. Algo que não envolvesse uma lógica perniciosa ou carregada de um sentimentalismo que operasse na vontade do belo. Tudo o que queria era fazer existir a partir de pensamentos simbólicos e liberdade nas mãos. O que teria como consequência, pensava que não queria muito saber, mas tinha aí uma concreta realidade criada, ou seja, um desafio de se fazer criador. Então não se tinha muitas alegrias, mas também nem muita dor. Apenas uma concentração fatidica, como a paixão sugere. Percebeu aí que o ato de criar se ligaria (re-ligare) ao que se chama "desejo", a volúpia ardente da vida.

O papel em branco, metáfora bem desgastada, não lhe dava nenhum medo. Muito pelo contrário, lhe ensinava a operar, como num ato cirúrgico. Tinha tranquilidade em pensar o espaço e os passos que daria pra desenvolver o que se queria alí nquele ambiente. Rasgou de ponta a ponta aquele lugar com a grafite do lápis fino até dar o tom da estrutura, a base. Argumentou antes a idéia pra si mesmo antes de escolher cores e tinta.

Esboçou algum desenho, ficou lá sentado a produzir e não se arrependeria de nada até o final. Talvez de algum traço mal feito ou inacabado, mas mesmo esse fazia sentido. Como se em algum momento relutasse por pensar não em palavras, mas em sensação de cores em desordem, manipulou seu objeto final sem saber se tinha realmente chegado no fim.

Pensando melhor, não podia se chegar a nenhum final alí. Não teria sentindo se aquele trabalho se reduzisse a contemplação única daquele criativo que compôs. Lembrou dos grupos de Jazz livre que da improvisação faz uma obra sem necessariamente prever o fim, não que ele não seja importante, mas é que o fim não seria a obra. E concordou.

Esperou um tempo para secar, fumou um cigarro na varanda depois que tomou um banho e se preparava pra pagar as contas quando o telefone tocou. Conversou com ela durante um tempo, falou que estava conhecendo uma galera nova que queria que ela conhecesse. Uns músicos diferentes, tinha também uma galera meio pop que conseguia falar da política administrada pelo governo de centro da europa ocidental. Na verdade ficou querendo um convite, não veio. Daí aproveitou pra falar de sua composição e que quando tivesse tempo e desvio de solidão acompanharia numa cervea num bar novo que tinha aberto perto do centro da cidade. Saiu de casa com as contas e depois do banco foi pro cinema descobrir que ainda faltavam coisas a serem criadas. Ficou com vontade de voltar pra casa e assim o fez, andando. Acabara de se apaixonar de novo pela vontade de criar.

14 de março de 2009

Saudade e aléns...



Upload feito originalmente por Ingrid Klinkby












Então eu vi a saudade.

Como se ela aparecesse em cristais sem muito sentido. Eu vi a saudade aparecer nada embassado, tudo bem articulado aparentando uma liberdade que se dissovle pelos cantos e não ignora o que vem escrito como futuro ou destino. Saudsade não é palavra somente é composição de canção legítima, é sentido de caminho, é fantasia imagética. Como se a vontade de estar se limitasse ao desafio de se surpreender pouco a pouco. E então nada além do desejo e da memória te ajuda a viver em paz.

Eu vi a saudade em desenho amarelo, como tinta em água formando objetos inclassificável. Nem realismo, nem abstração puramente. Um quadro que não se esforça em si, é o próprio olhar, o complemento da ilusão em cores singelas. Saudade não é real, mas também não é somente criação. Saudade é.

E quando não mais me espantar pelos deslizes do tempo que obriga a formar imagens de um outro lugar de sensação, lá vem a saudade como uma invasora me dizer que eu preciso mais de mim do que eu penso. É que a fotografia que vi me disse que a saudade se forma como quebra-cabeça das emoções que me completam, como se os outros soubessem de minha solidão e me acompanham em lembranças. Como se eu fosse e eu sou.

Para e de Ingrid Klinkby

8 de março de 2009

Longas cartas pra ninguém I*


Ontem o dia foi longo. Não deu para sentar em uma pedra na beira do mar, ou embaixo da sombra de alguma árvore para ler, nem mesmo ir ao cinema. O dia foi longo, durou mais do que os dias anteriores e isso foi bastante diferente. Significa que me preocupei em sentir a respiração para ver se continuava ou de contar os passos na rua para ver se o sol não me pegava tão rápido nas costas. Uns pensamentos que ficam se movimentando e de repente paralisam o tempo. Duro mesmo foi o momento de pensar no tempo, o porquê ele e dinâmico, qual o motivo de acrescer os desafios e trazer cada vez mais a responsabilidade de se cuidar sozinho. No fundo é tudo fruto de muito medo. O medo alonga o dia.


Em verdade, estava querendo dizer que há os dias e eles devem ser bem vividos, como parafraseio a da Lis no peito.


Ontem também foi um dia que pensei bastante. E pensamentos são sempre um mistério, a gente começa com algo que nos chama atenção mas nunca sabe mesmo onde vai parar. Ah! Esses pensamentos que não superam as sensações. Sempre acho que vou ter respostas e as dúvidas aumentam cada vez que algum conceito vai se firmando. Como pré-conceito talvez, mas como algo sedimentado. Eu não acho lógico a idéia de que não teremos certezas, mesmo entendendo que só vivemos mesmo pelas perguntas que nos movimentam. Talvez por isso não consiga abandonar o acho quando as frases saem de forma afirmativa.


*Alguns trechos de cartas pra...

Bilhete


ide ir mais fundo

ide sempre

de sol a sol

de luz em luz

a dobrar os castelos

retos e curvos aos barracos

e deixar para trás os caminhos

e não olhar pro ontem

muitas são as noites

diversos os luares

e suntuosos os palácios de promessas

e incrédulos os absurdos da ilusão

onde - meu deus!

Quem – meu deus!

espinhos esgueiram-se lépidos e traiçoeiros

radicais promovem uma corrida infâme

ainda assim

e então

para o caminhante há de sempre o destemor

os buracos da estrada são visões

o olhar sereno, resoluto – a beirar o tempo

a visão atribulada, tórrida – esperando os momentos

o centro da dança das fogueiras em festa

a alegria do fogo não queima

alegria!

Toca!

ide ir mais fundo

ide sempre

de sol a sol

de luz em luz

a ouvir de sinos o eterno chamado

falando dos sinais a seguir

em cada longínquo campanário

no amor do canto de outrem

e só

e continua...


Texto (ou vice-versa)
Rosa - Ismael
Verde - Niltim

28 de fevereiro de 2009

One Tree Girl


Um certo dia você se dá conta. E isso é muito importante. Dar-se conta é entender o que não se pode deixar para trás assim, como superado. Cair a ficha é ir com bastante intensidade em seus desafios mais profundos, como um diálogo mal escrito e inacabado, como esse texto que não se tem em objetivo superar a si mesmo em contexto. Pelo menos sabe muito bem o que quer dizer esse escrito e vai tentar fazer você entender até quando se completar em sua mente.

Esse certo dia de se dar conta muito tem a ver com os encontros. Quando aparece durante a estrada alguém que não apenas siga os passos, mas que entende de percauços, parece como o acender da luz quando menos se espera. E essa menina me veio assim, como uma lâmpada que se acende pela estrada. Chegou, mais que no seu canto, chegou alimentando esperanças e sendo forte. Estava diferente do retrato da parede, muito diferente. Agora vinha com uma borboleta e o sentido de que há os dias e eles hão de ser bem vividos, sempre! Estava escrito em seu obstinado pulso. Não tinha apenas caras e bocas, tinha liberdade. E da sua beldade estonteante, delineava-se toda a destreza da menina mulher sabida de seus grandes desafios. E então, era enfim uma educadora de milagres. Mais a saber, era lutadora como referência.


E então seu sorriso [difícil e belo] foi me ensinando. Seu choro pela fome alheia era tão verdadeira que me arrastava. Sua fala sobre o destino da humanidade me apresentava uma revoluta paz. Sua simplicidade elegante me resolvia crises. Sua ambição por sempre mais amor me fazia entender mais um pouco o por quê. Então, por seu abraço e sua atenção, se tornava minha mestra.

E saltitante pelos mistérios desse nosso mundo, o que ficava nítido era que "girls just wanna have fun" e que ela apostava na melancolia dos sorrisos tipo "Vogue Itália". Gosta de prazer nos brilhos dos globos da boite ou da dança secreta de "Stick and Sweet".
Ela é uma diva, uma estrela que aprendeu dos olhares, das carícias, das discretas intuições. Que entende de nunca desviar dos carinhos e de se apaixonar a todo o momento. De lembrar que as dificuldades devem ser resolvíveis, que as faltas devem ser preenchidas. A beleza marcada no seu corpo é absolutamente compatível com as inteirezas marcadas em sua alma, ela é importante para o mundo!

O que ela ainda não sabe é que como minha referência, tem agora um ser humano no mundo que, com todos os defeitos e com todas as fraquezas, a ama e a entende.
A confissão está em quando aquele lindo ser humano dizer de sentir medo e de ser frágil, este simples educando nutriu uma esperança de também ser forte assim, mesmo que com menos potencial. Ela agora roda nos lençóis do destino como uma roda de samba colorida. Os pés que bailam pelo salão são de uma simetria de como se conhecesse o caminho da liberdade e da imaginação. E sim, ela sabe.

No toque do pandeiro que vai continuar, ela samba e roda em outras tantas direções, como uma boa baiana que vai iluminando o caminho alheio por ser, em si, a própria beleza da vida. Como uma árvore na colina a crescer. One Tree Gril.


*Para a menina árvore, minha referência, Juliana Lima.

26 de fevereiro de 2009

Carnavália IV



Chovia na noite da quarta-feira nas ruas de Olinda. Chovia de duas formas, a primeira delas é das águas rolando nos paralelepípedos daquele lugar e a outra é das lágrimas de pierrots e columbinas, anjos e demônios, pessoas e pessoas que viveram toda a experiência com o corpo e as sensações durante os dias que se passaram. Chovia assim dubiamente por que não era uma quarta qualquer, acabou-se o carnaval. A chuva (e as lágrimas) lavavam o chão como se exorciza-se cada pedacinho de momento que produziram a magia da entrega e a vivacidade da leveza imagética nos rostos alheios.

Os sentimentos continuam perpassando mas, como era carnaval, era nítido que a liberdade de sentir estava pontuado como eixo central dos olhares. E então, se molhavam de água, se enxarcavam de perfume, se lambuzavam de lama. Aquelas ruas permitiam mais. Bem mais. Então, se vestiam com capas de super-heróis, se infiltravam nos contos de fada, eram personagens da caixinha mágica de luz, se protegiam com máscaras ornamentadas e outras tantas criatividades. No auge, quando se olhava pra trás, descendo ou subindo ladeiras, uma multidão de cores se formava. Energizava. Emocionava!

O outro te sorria sempre. Quando em coletivo se dava "olares/oiê/ahan", quando se passava de timbaleiro, quando a espuminha pairava pelo ar, quando a água era jogada sobre o corpo. E tudo ia acontecendo como se em um outro lugar do espaço/tempo, como se outra dimensão acercasse, como em outro mundo.

Por outras ruas alí por perto, em um lugar não tão mais antigo, outros sonhos de momo. Frevos e passinhos acompanhavam a decoração de desenhos de beleza e delicadeza, além de confetes e serpentinas. A sinceridade da rabeca rangia os acordes junto a notas suaves de guitarra; os tambores de Naná com a Luz de Tieta de Caetano; a verdade nos olhos de um moço lírico; o povo acompanhava madeira do rosarinho com mãos pro alto; e sambas em alto-astral.

Tinha também sucesso pra quem quisesse e água pra beber. Macaxeira com charque a rodo. Lugar inflável de deitar. Tinha desejos diferentes, corpos juntos todo tempo, corpo querendo descansar, também. Teve sempre Hino ao elefante, orquestra de rua, povo de beijo e troça de coveiro. E não acabava por aí, mas como diz a letra da canção: "É de fazer chorar/quando o dia amanhece/e obriga o frevo acabar/ó quarta-feira ingrata/chega tão depressa/só pra contrariar"*

Para o afago, as carícias e as alegrias das solidões juntas de quem esteve perto no carnaval. July [gatinha], Gina, Amandinha, Emanoel [bebê], Victor, Zé[Dinho], Pat e Ramon [com carinho todo especial pelo cuidado], Celis e Rafa [com prazer de estar junto], Miloca e Lari [e seus olhares carinhosos,] Diogo e Franklin. Também para o povo da Lhama! Radamés e família com sua hospedagem. E todos que foram achados, vistos e queridamentes tocados por esse olhar que se resume aqui.

* Trecho do frevo
Quarta-feira ingrata (é de fazer chorar) de Luiz Bandeira