
Andando. O verbo no gerúndio para começar essa trajetória tem todo o sentido. É que pode não parece, mas um olhar sensível entre nós (leia-se, seres humanos) está em desenvolvimento. Contínuo, estamos em passos largos em direção a diferentes caminhos, alguns convergentes, muitos díspares, mas uma boa parte com destino ao bem-estar e à evolução. Esses trechos parecem positivistas, e os são na realidade, mas, de fato, uma marcha de cores, olhos, desafios, gritos e bandeiras diferentes pelas ruas de Belém nos fazem acreditar no que se acostumou chamar em Belém, na semana de 27 de janeiro à 1º de Fevereiro, de “um outro mundo possível”. É bem verdade que as notícias, o cotidiano, as perspectivas político-econômicas de futuro não parecem tão animadoras, mas a fé e a paixão daquelas pessoas pelos seus ideais me fez acreditar também.
Seguimos pelos ares de nosso país para outra região. Vôos complexos e difíceis de entender, chegamos na capital do Pará. O povo receptivo daquele lugar foi, para nós, representado por duas figuras atenciosas que se chamavam Marcio e Cíntia, donos da casa que alugamos (achei via Orkut a indicação dessa casa, entrei em contato via MSN e fechamos negócio com eles) e que nos foi buscar no aeroporto, sem nunca ter nos visto antes, demonstrando uma simplicidade e uma abertura para o outro de forma tal comovente. Bairro do Marco, entre a Av. João Paulo II (antiga 1º de Dezembro) e a Av. Almirante Barroso, estava lá a casa na travessa Curuzu (do Ilê - ?), nos fundos do Salão de beleza Maria Bonita. Uma arquitetura interessante com cores deslumbrantes nos acomodaram.
Chegamos em Belém dois dias antes do Fórum. Isso para podermos participar do I Fórum Mundial de Mídia Livre, no qual, comunicadores, pensadores e ativistas do mundo inteiro discutia, antes mesmo do Fórum maior começar, o que podemos fazer para que o direito humano à comunicação previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos fosse respeitado e fortalecesse o respeito aos outros direitos fundamentais. Uma grande roda foi aberta, inclusive ostentando o banner que indicava a I Conferência Estadual de Comunicação do Pará. Muitas experiências interessantes e muitos pensamentos de futuro da comunicação como integradora e alicerce do desenvolvimento dos países latino-americanos foram expostos. Saldo de demandas e articulações a acontecerem 2009 afora.
E então começa o Fórum. Do mercado Ver-o-peso, uma caminhada de quase 100 mil pessoas colorem cada avenida. Gritos de ordem, camisas e faixas com dizeres, fotógrafos, câmeras e jornalistas de línguas bastante diferentes na tentativa de tornar memória aquele momento. O que nos rodeava, além dos olhares atentos das janelas de prédios, bancos, Mcdonalds entre outros, era a arquitetura pomposa daquela cidade. Nessa hora a emoção do estar junto já contaminava até a Praça São Braz, onde os jovens, os povos, os mundos de cultura povoaram o palco armado. No ápice do dia, diversas tribos indígenas da região amazônica tomaram o microfone e, em coro, cantaram o Hino Nacional Brasileiro, na língua deles. Nós? Acompanhamos em melodia e no choro nas faces. Outras tribos passavam pela gente no chão e o mundo rodou em nossas mãos. A bandeira do arco-íris estendida e a banca que vendia livros em cabides também foram exemplos marcantes. A cor amarela da luz indicava noite e estava aberta a liberdade de expressão e o desafio da convivência por um lugar melhor pra viver neste planeta.
As portas das salas das Universidades Federal Rural e Federal do Pará escondiam uma imensidão de questões que povoavam esferas de discussões tão próximas quanto absolutamente distantes de nossas realidades. A escolha era uma questão séria. Ir para a discussão sobre a comunicação para o desenvolvimento ou para questões de políticas públicas de juventude? Era tudo ao mesmo tempo e agora. Ao longo do caminho era encontrar pessoas, saber do outro de tão longe, agora tão perto. Era experimentar linguagens, comidas típicas (açaí com charque, maniçoba do Pará, Tacacá no Tucupi), olhares, artes e artesanatos, experimentar a sensação de descobrimento de si mesmo em que você tenta não se esbarrar.
No meio da estrada, entre uma sala e outra, era calor em princípio, até que, em qualquer momento no meio da tarde, uma chuva torrencial caia sobre nossas cabeças com direito a trovoadas e relâmpagos.
Molhados, continuávamos sedentos por mergulhar fundo naquela imersão sócio-cultural que nos convidava a conhecer mais profundamente rios de conhecimento do mundo inteiro. Então fui escolhendo aos poucos. Políticas públicas ibero-americanas de juventude, direito à comunicação, criminalização dos movimentos sociais, ouvir Marina Silva, entrar no stand dos 50 anos de Revolução Cubana... e outras tantas experiências.
Há muito também a se criticar do Fórum, é claro. Ainda não consegue ser propositivo, a organização desorganizada dos ambientes, a falta de concentração e dispersão que atrapalhava algumas atividades e algumas outras de ordem filosófica. Mas, o saldo foi positivo!
Como lembrou Frei Betto, fomos lá pra recarregar a pilha da vontade e nos acender mais forte o desejo da utopia agora e pra frente. Das quase 24 horas de viagem (quase 12h de ida e 12h de volta), ficou a mala de papéis, a visão da floresta amazônica do alto, a memória dos rios caudalosos, o samba do Ver-o-peso na chuva, a banda que se desloca no porto, o presidente anunciando a I Conferência Nacional de Comunicação, ritmia no Hangar, sucos de cupuaçu. E então, um outro mundo tem que ser possível. E continuamos caminhando...
para Sarah (Maria), Mônica (Raquel), Flávia ( - )...