2 de julho de 2007

Ao delinear a energia [ou ele está vermelho!]

Estava ao presságio garantido da reflexão. Estava em movimento mais interno do que o próprio corpo poderia sentir. E estava. Sem saídas proeminentes e sem nenhum outro convite disponível. Algemando processos desenfreados, arrumando o pensamento desafiador que se fazia refletido com se tal propagação da eletricidade do sentir, aliado a convicções imateriais, mensurasse as possibilidades de movimento. Calma! Nem era tão nebuloso o próximo caminho, tanto quanto não era significativo a paisagem mental de ruínas na posição em romance.

Tudo em off. Tinha muito som por alí. E, além do barulho, expectativa para um convite. Seja ele toque superficial para ampliar sensações de prazer ou um convite para dançar! Sem garantia nenhuma de que a tal esperança por objetos de desejo fosse cumprir cerimônias compensadoras de aliar vontade de outro com vontade de si mesmo!

Nem mesmo as cores moviam, nem mesmo as cores e suas perspectivas diferentes. Nem mesmo as cores, nem elas tão vibrantes premiavam a arquitetura dos símbolos necessários para o convívio com o espaço. Sim, nem mesmo as cores que são tão gentis ao olhar, tão irremediáveis. Nem mesmo as cores foram suficientes. Mas elas dão os tons até mesmo na imaginação. O enigma estava com ele, então.

"Ver que tudo pode retroceder
Que aquele velho pode ser eu
No fundo da alma há solidão
E um frio que suplica um aconchego"*

De certo, naquele espaço apregoado de emoções, desistiu da energia do movimento estável no caminho puro da sentimentalidade. Máxima proteção possível, destino de areia e rochas. Canalizaria a energia das emoções para sentimentos alheios à criação estética.

O fato é que, ao invés de toques e carícias corpóreas limitaria-se a impungentes construções frasais para construção de novos e coerentes símbolos que diria na bem verdade de si para o outro espaço externo, em movimento! O encostar lábios, abraços apertados, se substituiria pela facilidade em arquitetar novas idéias, criatividades pungentes, variações na imaginação, acertos na mistura dos sentidos para proposição de outros. Belezas em palavras e suas conexões.

Andar pelo centro da cidade de mãos dadas ou caminhar sereno pelas areias da praia quando pôr-do-sol não importaria mais. Agora teria a imortalidade do espírito na pluralidade de letras, na sinuosidade das idéias, na madrigal liberdade de aprofundar identidades, de marcar novos ambientes e sinergias. Re-ligare e plugar destinos. Feliz assim (?!)

"Quero escrever noções sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua: nada tenho mais a perder"**

Fica claro que não é inexistente a ilusão homérica de que não se chove mais pelas ruas do coração. E de que ainda terão mais alguns dias de tormento sentido pela falta. Porém, todavia, não espera mais do amor como antes.

Termina de escrever sonhando com beijo.

Ilustração: Vânia Medeiros

* Trecho da música Vermelho de Vanessa da Mata
* Trecho do texto Quero escrever o borrão vermelho de sangue de Clarice Lispector

Um comentário:

niltim disse...

Também podia ser:
"Mais vale meu pranto que esse canto em solidão. Nessa espera o mundo gira em linhas tortas"
M.C.