21 de março de 2006

anti-biografias!



Não foi de repente que ele se deu conta de que passeava frequente pelos caminhos tortuosos que o levaria a lugares inimagináveis. Não foi por acaso. Nem é surpreendente saber que ainda levará tempo (e muito tempo) em que ele continuará andando sozinho. Os pássaros, as borboletas e tantos outros bichinhos voadores já se apaixonaram e estão felizes com as flores de outros jardins.

Ele não deixou de ter asas, nem está satisfeito com a idéia de nunca ter correspondências, mas aceita de bom grado o carinho que lhe é oferecido.

"Você me deixou satisfeito

Nunca vi deixar alguém assim

Você me livrou do preconceito de partir

Agora me sinto feliz aqui

Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho

Vivo tranqüilo, a liberdade é quem me faz carinho

No meu caminho não tem pedras nem espinhos

Eu durmo sereno e acordo

Com o canto dos passarinhos

Eu durmo sereno e acordo

Com o canto dos passarinhos"*

Quando olha para fora de si, verdejantes e sinceras ondas lhe acometem do desejo de ser um todo partido. Seu cotidiano é cercado de afeições e experimentações estéticas. Tudo isso enquanto sua mente produz e cria gigantescas obras insalubres difíceis de serem percebidas. Vem e vai. Não tem dificuldade de sentir, apenas de movimentar-se. Correu, ficou embaixo da árvore esperando a chuva passar, prestou atenção no latido do cachorro, nos pneus dos carros, nas pequenas abelhas, no que elas estavam pensando sentadas esperando o ônibus chegar.

"Eu sou qualquer imagem plástica e superficial. Soldadinho de brinquedo marchando para o não-sei o que. Estória mal contada por uma velha desdentada. Sapo dissecado esperando pra chover. Frase feita edificante para surdos sem sorvete. Nada certo a curto prazo é um pouco do que eu sou".**

Possuia um andar no todo elegante. Impressionar a visão, mas, de certo, é que nunca encantou. Pelo menos dá para perceber articular os maxilares similando construções verbais, quase fala, soletra. Observou que o menino que há pouco estava brincando com as pedras do labirinto tirou a camisa, abriu um sorriso e correu. De novo era só ilusão, continuou a caminhar sozinho. Tinha se perdido no emaranhado de castelos construídos na imaginação. Não tinha mais tanta coragem, nem era mais tão ingênuo ou verdadeiro. Pelo menos se reconhecia na identidade:

"Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidas se tornam desvinculadas - desalojadas - de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem 'flutuar livremente'. Somos confrontados por uma gama de diferentes identidades (cada qual nos fazendo apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes de nós) , dentre os quais parece possível fazer uma escolha"***

Quando ele estava parado naquele lugar pedi para que não se descrevesse. São inúteis auto-biografias.

Ilustração :: Vânia Medeiros

*Satisfeito - música composta por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e carlinhos Brown

** Texto de Johnny Kagyn - http://www.infinitoparticular.blogspot.com

*** Trecho do livro "A identidade cultural na pós-modernidade" de Stuart Hall

3 comentários:

Liu Lisboa disse...

e vai e vem, e sobe e desce e escreve e desescreve...ufa!
seu texto é só sentimento. um turbilhão de emoções!

coração dispara ao se ler algo assim...

Senhor Borboleta disse...

eu as vezes me pego lendo seu jornalzinho de sentimentos e vou entrando e entrando dentro de mim e acabo parando dentro das minhas costelas (essa caixa de ressonância de sons graves e ventos mornos onde como janela vemos um mundo que não vemos com os olhos).

Anônimo disse...

POxa Niltinho!!

Pq ás vezes somos a imagem semelhança de quem a gente ama??? Como te amo, sou nesse momento sua imagem semelhança em alguns aspectos!! Seu texto tá lindo! Sincero e fiel ao coração!! Que bom!! Ser fiel até o fim, mesmo que o preço seja ficar triste por um instante!! E que com isso, possamos nos sentir um pouco mais feliz! Um pouco que vale muito nesse momento! Principamente um pouco de amigos e poesia!
É nesse texto que percebo que a alma guarda o que a mente acha que deva esquecer!!
Um forte abraço meu anjo!!

Inté mais vê!!

Serginho Bahialista.