2 de abril de 2011

Carnivália VI


A avenida não nos dispensa, compensa em franqueza. Amarra-nos em grande euforia, nos toques emancipados de um tambor insolente, crentes de que há um religare alí na perniciosa festa da carne. Rigojiza-se de ser deslumbrante, fascinante de luzes e cores agressivas e delicadas ao mesmo tempo. Como se a alegria fosse a memória daquela pele de máscaras dominadas pelas lantejoulas, pelos paetês. Mantendo sua faca cortante de coletivo dos indivíduos. E então corpo no corpo está alí o nosso carnaval.

Andamos pelos asfaltos grudentos e sujos com cheiro de tesão/tensão. Há um caminhão vibrante em nossa direção, convoca o espírito de libertação. Enquanto olho isso nos olhos alheios, um arrepio que me dá me insinua pelos campos abertos de sensualidade e frenesi.

Carnivália de desencontros também. Riscas e faíscas dos descompassos da natureza irrequieta do homem sem o olhar delicado para o outro, como o outro eu também. Há também as cordas e as misogenias de indelicadezas todas de quem está fora e quem os deixa de fora, além da impossibilidade cruel de se abrir. Mas o conjunto ainda está aí e nem só de más escolhas se tece nossa cultura e seu sistema.

Pois então corre a lambretinha da emoção. Passam as árvores pelos corações pulsantes de nós. Ela me dá um sorriso, ele me deu um beijo na boca. Eu retribui os dois e vice-versa. Naquelas silhuetas de paralelepídos e nas plumagens de quem pede pra não ficar parado pois é energia de carnivália.

É brisa boa que vem do mar, é vontade de estar envolvido pelos sons da diferença.

E então, na quarta-feira, se arrasta o amor pelo rio de água doce pra abrir espaço para outros dias que virão. Findou verão e começou a temporada de saudade da devassidão marota, da vontade de vontade, do olhar de desejo. De nós aqui tomando a rua como uma revolução esquecida. Como uma batucada de bamba. Como uma batida eletrônica de carinho. Como o carnaval de Salvador.

E ainda tem mais nos anos que v(e)(i)rão.

Foto: Carol Garcia

Para o meu carnaval bonito na cidade de São Salvador da Bahia. Para as pinturas da timbalada que me comovem. Para a beleza do estar junto de minha amiga Lari. Pela energia pulsante de Zediz e Digo. Pelas vontades de Mila, Celis, Rafa, Mile. Pelo bom encontro de Moniquete, Pri, Kerols, Caio, Franklin, Aline, Sorriso, Eugênio, Roberto, Key, Jau, Kimis. Pela Nação que Zumbi, pelo bailinho. Pelas coreografias, pela boniteza dos filhos de Gandhy. Pelas tantas bonitas pessoas que conheço e bem desconheço também. Pelo chame gente desenfreado. Pelo giro mundo. Por acelerar e agradecer bonito da minha pequena EVA. E então já é carnaval.

3 comentários:

Larissa Nascimento disse...

Ain... Me emocionei. Lindo! Amo vc!

André Guimarães disse...

Próprio de quem sente o ritualístico no carnaval. Magnífico!

Carol Garcia disse...

quantos cheiros, gostos e cores nas suas letras, Niltito! carnaval é muita energia circulando né?!! mesmo no caos e com tantas exclusões e desencontros, a gente consegue ver e sentir a semente da liberdade.

Adorei, amigo!!!!
bjão no seu coração