13 de abril de 2006

A partir de 20 de Maio de 2003 - 21ª Semana


Completo caos. Cardumes de tubarões incessantemente progredindo no objetivo de seguir homens em fuga. O capitão que deu a ordem se esconde atrás dos mastros que suspendem as velas. É vapor, é gota, é água, é lagoa, é riacho, é ribeirão, é rio, é mar, é oceano e imensidão.

- Não, não! não tem portas!

- Mas as janelas se abrem, meu bem. Se você estira seu braço e o ônibus que passa por meus líquidos pára, você entra e nos leva juntos no mesmo sentido.

Há algum espaço que me distancia, não nos conhecemos. Eu olho para trás e te vejo como se realizasse os meus desejos mais profundos. Claro que os círculos dos espaços se adaptam ao sistema e continuam em um mesmo processo giratório.

Olha para frente agora:

- O que vejo? meu ponto. Solto, nunca mais nos veremos. Fecho o livro e você some.


"Tenho o que dizer, pois vou dizer-me a mim mesmo, como qualquer pessoa diante a memória ou do espelho (...) Eu. Convergência esamagadora. Os espelhos reluzem insuportáveis. Gelados. Olho mais do que olho. Olho no olho. Fundamento (...) Não posso andar, os pés roídos de ratos. De noite eles vêm. Ratos reais. Roendo meus pés. Roendo meu sexo (...) mas Algo se promete do cheiro de fruta madura que o vento traz (...) Na solidez da minha solidão, penso as mãos delgadas e enxutas, deslizando na minha pele macia" *


Não entendo como funciona a dialética dos sentimentos inacessíveis, agora prego facilmente o desespero de demonstrar os alicerces da icógnita que sou eu. Claro que é suposto o absurdo do ser sem nexo. Na auto análise diária percebo que estou perdendo a vontade de dizer. A virtude em conceito é "antiquária". É sensível e morre de angústia. O som na imaginação é terra fértil, é mente sã e propósito de criatividade. Normal é que saibamos andar. Mas e se eu quiser correr?

- É inaceitável garoto, diz a sociedade amargurada por não ter força para sair do lugar.

Por qe eu discutiria o que é ou o que não é ético para essa sociedade? Riscos são variáveis, se a atuação decide assumir moralidades que não suportam o instinto natural, animal e feroz do ser tão humano. Porém sinto-me na obrigação de acordar algumas coisas comigo:

  • Bom parar de se enganar
  • Melhor não demonstrar sentimentos (?)


"A criação é permanente no seio do cérebro humano, o sonho é poieses, poesia no sentido original e profundo do termo, e, como o diz poeticamente Roger Bastide, 'se se continua a sonhar, é que a criação não se acabou' ".**


Qualquer que seja a veracidade da informação, desde já subvertida, é bom prejulgar arquiteturas cartomanciais de destinos desencontrados. Quero que os dias passem tão naturalemnte que sejem impossíveis de serem percebídos. Que a monotonia e a mesmice não retornem à inércia e não desafiem os espaços em branco que continuam assim ( )
Ante ontem
voou o gérmen
mais flexível
ontem ante
os espelhos irreflexíveis
ontem inté ante hoje
sacodem-se a visão dos dias


"Tenho andado distraído, impaciente e indeciso. E ainda estou confuso só que agora é diferente, estou tão tranquilo e tão contente. Quantas chances disperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém (...) Já não me preocupo se eu não sei porquê às vezes o que eu vejo quase ninguém vê. Eu sei que você sabe quease sem querer que eu vejo o mesmo que você"***


O importante é divulgar e otimizar o tempo, assim como argumentar o óbvio.



Ilustração :: Vânia Medeiros

* Trecho do livro Mulher no espelho de Helena Parente Cunha
** Trecho de Edgar Morin
*** Trecho da música Quase sem querer composta por Renato Russo

Um comentário:

Senhor Borboleta disse...

Bem.. achei fantástica a citação de mulher no espelho. seu texto me parece um olhar de si para si, como se alguém se perdesse no seu próprio reflexo. As palavras são de si para si, herméticas e involuntárias, extremamente sígnicas, demostrando que você não quer convencer, nem se mostrar, mas se vê, ali. O diálogo, meio que psicanalítico, não gravita no mundo, é o "T" mudo do seu silêncio enigmático nos intervalos de uma conversa para outra.