28 de abril de 2006

Há política no amor?


As tarifas dessas suas relações são devaneios qualquer. Nem pode-se sobreviver a esse exarcerbado clímax o tempo inteiro. O preço é muito alto. Tem que construir uma escada muito longa sem ao menos reconhecer a existências concretas dos degraus. A questão nem está sob o prisma do valer ou não a pena, mas as desventuras do destino sempre vai obrigar em intensidade uma insensata proteção simbólica. Você não tem o direito de exigir sensatez no que se escreve nem solidez nesses argumentos tolos. Nem sei se vale a pena aposta nessas angústias incomuns. A fala vira uma literatura impensada com erros gramaticais que nem sequer admitem uma cognição simbólica. Mas é de costume a invalidez e não se entende mais nada novamente. Nem é nehuma cobrança. Apenas uma infinitude simplista de um eu que não é em si por que é sem você. A loucura, o delírio, a indivisão de consensos, a falta de compartilhamento, a inacessibilidade dos pensamentos. Não há mais nada certeiro, as linguas não parecem mais serem visíveis. Não estão mais a querer se entrelaçar para dizer-se de si.

"tive um sonho com você, amor
numa noite sem igual
e me transformei num beija-flor
dentro de um roseiral
(...)
ao beijar a sua corola assim
deu-se a transformação
acordei do sonho, voltei a mim
e beijei sua mão"*

Existia, por sinal, uma procura inóspita e incessante. Você sempre leve estava ao movimento da ventania. Um silência sem respostas, nem questionamentos. Um não fazer ruído que parecia não ter nada de simbólico, mas era você alí sem dizer. O pior. Os olhos estavam a silenciar e assim não ia poder existir diálogo. Parecia dizer que não há algum indício de político no estar junto. Há um limite na disponibilidade. É que há uma notória necessidade da dedicação, do doar. Naga era tão pragmático para você e nem deve fazer parte do que se chama de realidade. Mas não deve contar a sua existência? Mesmo assim há que se desempenhar um papel importante - o estar com o outro. Nada de simplicidade, porém. Complexidades. Então a aproximação com o concreto. Parafraseando o poeta: O amor é feito de quatro mãos e da elevação dos pés.

"Há uma canção de amor deles que diz também monotonamente o lamento que faço meu: por que te amo se não respondes? envio mensageiros em vão; quando te cumprimento tu ocultas a face; por que te amo se nem ao menos me notas? (...) Já posso me preparar para o 'ele' ou 'ela'. O adaggio chegou ao fim. Então começo. Não minto. Minha verdade faísca como um pingente de lustre de cristal."**

Embora parecesse uma lamentação à sua frente nada mais era que um simples ato de subordinar minhas falseadas limitações. Nada de amrguras para se deleitar. A maior característica da ilusão é a incompreensão passiva do ritmo imposto. Nada de amorfismos nos sentimentos. Era pura necessidade de estar covarde e se sentir bem mesmo assim, antes de deixar-se levar. Mas estava tudo em ampliação. Tudo era alvo de solícitos espaços nevrálgicos. QUem estava lá era um você discretamente passível de outros desejos. Ainda assim nada de sair de um silêncio combinado com a ausência estável. Então nada de diálogos. Não era possível política, nem amor. Nenhum ato ríspido fez você sair do lugar, no entanto, você doou o conceito. E a leveza fez-se luz bem leve. Era luz que estava querendo dizer.

"É, meu bem,vamos passear.
Chega nega morena, vem
vamos passear
vamos passear, sim, vamos dar um passeio juntos
me dê a mão, vamos passear neste antigo documento:
um passeiozinho que é pertinho,
tá catá pé daqui, pé de lá, oh,
que cheiro bom de jardim!"***

O que não foi perceptível naquele instante era que você usava um nariz vermelho e isso já dizia muita coisa. Mas por que não entendia mesmo? Acho que o amor é feito mais do que entendimentos bobos. É a elevação dos pés.

Ilustração :: Vânia Medeiros

* Trecho da música O Beija-Flor de Gilberto Gil
** Trechos do livro Água Viva de Clarice Lispector
*** Trecho da música No Jardim da Política de Tom Zé

4 comentários:

Ingrid disse...

registro do susto diante da imagem. é que ela não só me lembra uma outra, nasceu dela. vou ler o texto agora. um beijo, bonito.

Anônimo disse...

é também por ver quem consegue ficar mais tempo prendendo a respiração...

Ass: f.

Anônimo disse...

e um destino fabuloso...

Ass: f.

Luigi Piccolo disse...

Meu amigo, que me conhece bem, entre as mãos nervosas e o palavreado incessante do jogo do contente; que conhece a fragilidade desse edíficio. De onde vem sua inspiração?

Te pergunto porque revivo novamente, o que quer dizer que estou a retornar, e você entende o que quero dizer, sei que entende para além da medicina.

Seu texto não me comoveu, foi além, sinestesia e retrato do agora. E no agora, no refazer-se é difícil para mim ser poeta ou romancista, por isso te pergunto: o que te inspira?

Porque sempre aprendi contigo e te guardo, em todos os abraços, como um mestre-amigo-poeta...

Grande beijo